Fúria. Medo. Luxúria. Os três sentimentos mesclavam-se em
seus olhos, viravam-se em suas tripas. A fúria de ter sua infância roubada. O
medo de urgência em roubar a de outra pessoa. E a luxúria provocada pelo
rebolar da loura que andava vagarosamente à sua frente, balançando as madeixas
curtas que eram apenas ligeiramente bagunçadas pelo vento. Oh, ele deveria estar
travando uma luta interna terrível! Atrever-se-ia a passar para frente aquelas
noites de terror noturno que lhe foram infligidas quando ele próprio era apenas
uma criança? A vontade, tinha que admitir, era arrasadora. Talvez fosse como
uma doença contagiosa, passando de agressor para agredido, mas, oras, quem se
importa? Suas mãos comichavam e pediam para agarrar aqueles cabelos e
cheirá-los e puxá-los para si. Uma ardência abaixo do ventre denunciava a excitação
que tal pensamento lhe proporcionava. Seus ouvidos chamavam pelos gemidos abafados
e assustados e gritos desesperadores da bela e (quem garantia?) inocente
criatura. Seus instintos eram claros e brutais, primitivos. Havia uma luta
violenta, sangrenta, em seu íntimo: instinto contra consciência (porque ainda
havia uma) estavam escondidos atrás de armaduras e empunhavam espadas,
destruindo um ao outro aos poucos, presos em uma batalha da qual apenas um
sobreviveria e então teria liberdade para tornar em realidade seus desejos
(quer eles fossem ou não de boa índole). Além das espadas, cada um tinha suas
armas que lhe eram por direito: unhas e dentes, que tentavam abrir caminho
através das armaduras do oponente. A batalha transparecia em seus olhos que
ainda estavam cravados na cintura marcada da bela criatura (seria apenas
impressão ou ela notara algo errado e apertara um pouco o passo? Certamente
aquele beco escuro fora uma má opção àquela hora). Quanto tempo mais duraria a
luta? O instinto, violento, jogava sujo, derrubava a consciência e a espancava
com gosto, sentindo o sangue banhar suas mãos. A sensação era boa. Instinto era
o mais próximo da vitória e já era possível sentir o aroma de morango que
exalava daquelas madeixas louras (afinal ela quase corria, mas ele conseguia
acompanhar e a rua era longa e silenciosamente deserta). Repugnava aqueles
pensamentos e aquele tremor de suas mãos tanto quanto os desejava, estimulado
pela adrenalina que corria solta em seu organismo. A consciência, ferida,
sangrando, gritava “Montro! Monstro!
Lembre-se do que fizeram com você, lembre-se de como se sentia!”, mas, com
um último golpe da espada, o instinto venceu, radiante.
Ele a agarrou num pulo.