terça-feira, 22 de março de 2011

Sanatorium


Um, dois, três. O choro de uma criança. O luto. O silêncio profundo, forçava os tímpanos. O balançar ininterrupto, para frente, para trás, de volta para frente. A fixação. Os resmungos. O som de um crânio rachando em contato com a parede. As risadas incontroláveis. O medo, o ódio. A escuridão interna.
Sangue jorrava de seus olhos. Uma, duas, três poças. Desenhos no chão, a tinta vermelha. Olhos caídos, vagos, mortos. A dor transformada em rio, o cheiro de morte. Arrepios na espinha, frio na barriga. Alucinações. Lembranças de uma vida que nunca existiu. O brilho tentador da faca, tão fora de seu alcance. O desejo, reprimido há tanto tempo.
O estopim, a última ofensa. O olhar no espelho debochava. A repugnância fervendo em seu íntimo tem sua erupção. Cacos quebrados, cacos presos na mão. Pontas afiadas cavando fundo na carne, pinicando, ardendo. Matando. O berro violento, a ruptura na garganta. O choro incontrolável, desesperado. Vozes em sua cabeça, insultos, destruidores de esperanças. Monstros no espelho, revelando a face escondida, nojenta. Solidão que doía. Fantasmas do passado, retornando para assombrar. Corações despedaçados, confiança quebradas, sobrecarga.
Um, dois, três. Gritos vindos de outras portas, silêncio sendo clamado. Perigoso. Letal. O mundo frio, pegajoso. Olhos ardentes, o alçapão aberto do inferno.
Ignorância. Sentimentos. Julgamentos. O todo em um nada, o medo de se conhecer. A força da dor.
A faca mais próxima. A hesitação inicial, tímida. O prazer iminente, os olhos desfocados, os pensamentos confusos. Múltiplas tentativas. O arrastar, tão lento. Obscena anestesia.
Soava fútil, aquela paz.

Passion


Acelera os batimentos, cria esperanças e imagens na mente. Bambeia as pernas. Dilata as pupilas. A força da gravidade parece mudar de direção, atraindo seu corpo ao objeto de paixão. O instinto se funde com o desejo e desta mistura surge o impulso da provocação. As brincadeiras recheadas de verdades, os olhares, os toques e as risadas. O desejo, a vontade, as provocações. A paixão em seu clímax, com o gosto do quero mais, aquele romance de mistério cujas páginas seguintes fazem nada além de atiçar a curiosidade. Os sorrisos ao lembrar do rosto querido. Impaciência pelo dia seguinte. Vaidade em alta, insegurança também. O medo de se machucar combinado com o querer irrefreável, a fome da paixão. Loucura. Planejamento, obsessão. O esperar, o lento tic-tac do relógio. Suar frio, sorrir quando se quer gritar de prazer. Estremecer com o toque, querer se aproximar; impulso difícil de refrear. Momentos, detalhes. Sorrisos, olhares. A poesia que cresce no peito, os pensamentos. O medo, o querer. A insegurança, o não poder. Insanidade, paranóia. Redundância. O perfume conhecido, impregnado em todos os cantos, parece lhe perseguir. Lembranças. Intenso. Rápido. Não tão profundo como o amor, mas, certamente, poderoso como o tal.
E, no fim, só um olá já é o bastante.

Suffocating


Nenhum deles sabia, nenhum conhecia ou se importava. O mundo é egoísta e os sentimentos são demasiadamente intensos. O mundo sangra, nós também. Estão todos perdidos em suas próprias ilusões, vivendo sem um propósito. Sorrisos falsos, xingamentos clamados, sexo com estranhos, bebidas fortes que giram a cabeça e embrulham o estômago. O nada, o tudo. O suicídio, o medo de morrer. O momento de horror ao encarar o próprio reflexo no espelho. O incerto, o futuro nada promissor. O tic-tac do relógio que contava seu tempo restante. Pessoas que conversavam, indiferentes aos outros, às situações. Eles derretiam, esvaeciam e só sobrava o sangue. Vermelho, brilhante. Tentador. Bonito. Um corte, a ardência prazerosa e o vermelho atraente. Como uma fonte, transbordava. Pontos negos na visão, a dormência iminente. O tic-tac mais alto, mais rápido. A escuridão, o futuro que não existe mais. A dor de uma vida, esvaecendom transbordando. Palpitações. Ninguém se importava e o mundo sangrava. Tortura, escuridão eterna.
O tic-tac silenciou.