Eu apalpava as paredes, procurando uma saída com meu tato. A escuridão era intensa, e adentrava meus olhos, deixando cada vez mais cega. Eu não conseguia ver nada, absolutamente nada. Era como se eu realmente tivesse perdido minha visão, e mesmo meu tato de nada adiantava. Podia sentir que estava presa, e que era um espaço pequeno, mas não conseguia, de forma alguma, encontrar a saída daquele cubículo, encontrar uma única fresta de luz que me mostrasse que minha visão estava funcionando perfeitamente bem, e que eu não havia enlouquecido, como parecia que tinha.
Calculei três voltas dentro daquela caixa, quando desisti por um momento. Escorada na parede, desci meu corpo até que estivesse sentada, e abracei minhas pernas junto a mim, apoiando, também, a cabeça nos joelhos. Respirando fundo, salvei energias para mais tarde voltar à busca. Sentia como se estivesse longe de todos, como se ninguém pudesse me encontrar onde estava. Perdida, literalmente.
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Voltei a mim quando uma mão foi abanada em frente aos meus olhos, deixando-me levemente tonta. Abanei a cabeça, soltando um “qual é?” e minha visão entrou em foco. Parecia que eu tinha “dormido acordada” na sala. Ah, maravilha. Empertiguei-me e passei a prestar atenção no que me diziam, apenas por um momento. Quando percebi que só falavam de coisas fúteis, permiti que minha atenção dispersasse.
Tantas pessoas juntas, conversando sobre coisas que, honestamente, não me interessavam. Tantos sorrisos, olhares e gestos que passavam por mim tão facilmente que eu mal os notava, imersa em mim mesma, esquecendo do mundo exterior. Por isso, voltei meu olhar àqueles que me cercavam. Literalmente.
Eu via uma variedade de rostos. Quase uma pintura. Misturavam-se em uma vastidão de cores, enfeites, maquiagens. Ou até mesmo simplicidade. Uma simplicidade tão simples que tornava-se diferente, juntando-se à multidão. Alguns deles me eram quase importantes. De outros, eu apreciava a companhia. Alguns me eram indiferentes. Eu podia dizer como cada um me fazia me sentir; uma imensidão de sentimentos. Mas havia um deles. Um dos rostos que me produzia emoções completamente distintas.
Raiva, desconfiança, até mesmo coisas não identificadas.
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Parecia uma estória. Irreal, completamente. Sentia como se estivesse dentro de uma bolha, isolada do bando em volta de mim. Eu sabia que eles conversavam, que socializavam entre si. Mas as palavras pareciam apenas zumbidos; meu cérebro não as processava e as deixava ir. Meu olhar perdido os encarava mas não os via, e, apesar de estarmos todos juntos, sentia como se estivesse longe, muito longe.
Mas eu conseguia ver suas brincadeiras, e seus gestos. Conseguia diferenciar um do outro. E havia aquela que se destacava, cujos atos pareciam forçados demais, implorando por atenção a cada movimento. Não era natural, e parecia esconder algo sob o rosto cuidadosamente maquiado. Como uma máscara. Não era confiável, e eu não sabia o que ela ainda fazia ali. Podia sentir ondas de rejeição emanando de meu corpo, mas ela não parecia se importar, ou nem mesmo sabia do que acontecia. Meus olhos se estreitaram por um momento antes de serem desviados para um rosto amigo, que capturou o que eu pensava e meneou a cabeça num gesto de desaprovação. Nos encaramos como se conversássemos, até que eu me levantei e tomei um caminho para longe, com minha bolha me acompanhando.
Ao encontrar um espaço suficientemente bom, deixei-me sentar, ignorando as dores musculares que começavam a se formar cada vez que eu me mexia.
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Eu estava invisível. Tremedeiras surgiam por todo meu corpo e fechei os olhos com tanta força que chegaram a doer, embora não sentisse diferença entre as escuridões. Finquei minhas unhas em minhas pernas, e a dor foi abafada pela calça grossa que eu vestia. Queria que aquele quarto, junto com sua falta de luz, sumissem de mim e deixassem-me ver alguma coisa.
Quando abri os olhos, a decepção quase fez com que eu os fechasse de novo. Não que fosse fazer alguma diferença.
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Dei um pulo bem em tempo. Se não o fizesse, minhas roupas estariam cobertas por um líquido que, se não estivesse enganada, seria refrigerante. Grudei minhas costas na parede enquanto me recuperava do choque e a garota que derrubara a bebida pedisse desculpas com um sorriso quase cínico. A encarei. Não me surpreenderia se meus olhos soltassem fogo. Não respondi e ela se aproximou, recolocando aquela máscara, mostrando preocupação. Eu disse que estava ótima e ela logo deu de ombros, afastando-se. Dei alguns passos para o lado e sentei novamente.
Falsidade. Era desanimador pensar em como estávamos cercados por personagens. Todos representávamos um papel, cada um do seu modo. Haviam aqueles que não notavam que tinham seu próprio palco; e outros que faziam questão de não esquecer. Haviam os que abusavam de seus próprios personagens, usando-os para conseguirem o que queriam, sem medir conseqüências, sem ligar em quem pisavam. Haviam os que simplesmente não mostravam quem eram.
Meus olhos a acompanharam de longe, enquanto ela voltava para o grupo, como se nada tivesse acontecido. Pude vê-la dizendo algo, apontando para mim. Um dos garotos, dos rostos importantes, perguntou algo e vi uma pequena discussão começando a se formar. Fechei meus olhos, evitando olhar a cena.
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Aquele pequeno espaço começava a me desesperar. Estava me sentindo claustrofóbica, o ar parecia rarefeito. Não ouvia, não via, não falava. Tudo o que podia sentir eram minhas mãos em minhas pernas e minhas costas na parede. Nada acontecia. Eu só queria sair dali.
Estava sozinha, sabia que estava. Nada nem ninguém poderia me ouvir. Pensamentos cada vez mais horripilantes passavam pela minha cabeça. Todos terminavam em morte. Em minha morte. Sozinha naquele lugar, e eu nem sabia onde estava! Parecia uma cena patética de filme.
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Desta vez não foram mãos, mas um “OWW”, seguido de um cutucão. Reclamando, ergui meus olhos para quem quer que fosse e pude ver aquele garoto, o rosto importante. Ela dizia algo e eu me esforcei a ouvir, sacudindo a cabeça e pedindo para que ele repetisse a frase. Ele repetiu pausadamente, como se eu fosse algum tipo de retardada. Não pude deixar de rir.
Antes, porém, de responder, lancei um olhar ao grupo reunido ao longe, encontrando as pessoas a quem ele se referia. Mais rostos importantes, mais companhias que são total e completamente apreciadas. Voltei meu olhar a ele e assenti com um movimento da cabeça, erguendo-me e acompanhando-o de volta ao grupo.
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Perdera a noção de quanto tempo se passara. Podiam ter sido minutos, horas, ou até dias. Eu estava exausta, e com medo. Havia de admitir, não estava sendo fácil. Por isso que quase não acreditei quando uma frestinha de luz e ar abriu-se logo à minha frente. Temendo que aquilo fosse embora, ergui-me de um salto, ignorando as dores, e agarrei-me ao que parecia ser algo que me ajudasse a sobreviver mais um pouco. A luz era pouca, impedindo-me de ver com detalhes o aposento em que me encontrava, mas não fazia diferença. Deitei-me, com o rosto a poucos centímetros da luz, absorvendo quase todo o ar que vinha dela, com gratidão.
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Ao chegar ao grupo, meu olhar foi atraído primeiramente àquela figura maquiada. Lancei-lhe um olhar que até hoje não sei descrever, ignorando-a logo depois, e prestando atenção à pintura que importava. Aos rostos que, apesar de ainda um pouco borrados, eu ouvia muito melhor do que antes, embora ainda com espaços onde o som emudecia completamente. Aconcheguei-me melhor onde estava, também sabendo que alguns personagens são uma réplica do ator. Alguns não são falsos.
Era como eu pensava na hora, e eu havia de aproveitar este pensamento, antes que ele se extraviasse novamente.
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Podia ficar ali pelo resto de minha vida. Mas achei melhor voltar a ter a segurança das paredes, embora ainda a centímetros da luz. Ficaria ali até que a fresta se fechasse e eu fosse novamente lançada à escuridão. Escolhi e abracei as pernas, relaxando.
Porque a fresta não demoraria a desaparecer, disso eu tinha certeza.