segunda-feira, 18 de outubro de 2010

When the Lights are Dim


Eu apalpava as paredes, procurando uma saída com meu tato. A escuridão era intensa, e adentrava meus olhos, deixando cada vez mais cega. Eu não conseguia ver nada, absolutamente nada. Era como se eu realmente tivesse perdido minha visão, e mesmo meu tato de nada adiantava. Podia sentir que estava presa, e que era um espaço pequeno, mas não conseguia, de forma alguma, encontrar a saída daquele cubículo, encontrar uma única fresta de luz que me mostrasse que minha visão estava funcionando perfeitamente bem, e que eu não havia enlouquecido, como parecia que tinha.
Calculei três voltas dentro daquela caixa, quando desisti por um momento. Escorada na parede, desci meu corpo até que estivesse sentada, e abracei minhas pernas junto a mim, apoiando, também, a cabeça nos joelhos. Respirando fundo, salvei energias para mais tarde voltar à busca. Sentia como se estivesse longe de todos, como se ninguém pudesse me encontrar onde estava. Perdida, literalmente.


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Voltei a mim quando uma mão foi abanada em frente aos meus olhos, deixando-me levemente tonta. Abanei a cabeça, soltando um “qual é?” e minha visão entrou em foco. Parecia que eu tinha “dormido acordada” na sala. Ah, maravilha. Empertiguei-me e passei a prestar atenção no que me diziam, apenas por um momento. Quando percebi que só falavam de coisas fúteis, permiti que minha atenção dispersasse.
Tantas pessoas juntas, conversando sobre coisas que, honestamente, não me interessavam. Tantos sorrisos, olhares e gestos que passavam por mim tão facilmente que eu mal os notava, imersa em mim mesma, esquecendo do mundo exterior. Por isso, voltei meu olhar àqueles que me cercavam. Literalmente.
Eu via uma variedade de rostos. Quase uma pintura. Misturavam-se em uma vastidão de cores, enfeites, maquiagens. Ou até mesmo simplicidade. Uma simplicidade tão simples que tornava-se diferente, juntando-se à multidão. Alguns deles me eram quase importantes. De outros, eu apreciava a companhia. Alguns me eram indiferentes. Eu podia dizer como cada um me fazia me sentir; uma imensidão de sentimentos. Mas havia um deles. Um dos rostos que me produzia emoções completamente distintas.
Raiva, desconfiança, até mesmo coisas não identificadas.


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Parecia uma estória. Irreal, completamente. Sentia como se estivesse dentro de uma bolha, isolada do bando em volta de mim. Eu sabia que eles conversavam, que socializavam entre si. Mas as palavras pareciam apenas zumbidos; meu cérebro não as processava e as deixava ir. Meu olhar perdido os encarava mas não os via, e, apesar de estarmos todos juntos, sentia como se estivesse longe, muito longe.
Mas eu conseguia ver suas brincadeiras, e seus gestos. Conseguia diferenciar um do outro. E havia aquela que se destacava, cujos atos pareciam forçados demais, implorando por atenção a cada movimento. Não era natural, e parecia esconder algo sob o rosto cuidadosamente maquiado. Como uma máscara. Não era confiável, e eu não sabia o que ela ainda fazia ali. Podia sentir ondas de rejeição emanando de meu corpo, mas ela não parecia se importar, ou nem mesmo sabia do que acontecia. Meus olhos se estreitaram por um momento antes de serem desviados para um rosto amigo, que capturou o que eu pensava e meneou a cabeça num gesto de desaprovação. Nos encaramos como se conversássemos, até que eu me levantei e tomei um caminho para longe, com minha bolha me acompanhando.
Ao encontrar um espaço suficientemente bom, deixei-me sentar, ignorando as dores musculares que começavam a se formar cada vez que eu me mexia.


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Eu estava invisível. Tremedeiras surgiam por todo meu corpo e fechei os olhos com tanta força que chegaram a doer, embora não sentisse diferença entre as escuridões. Finquei minhas unhas em minhas pernas, e a dor foi abafada pela calça grossa que eu vestia. Queria que aquele quarto, junto com sua falta de luz, sumissem de mim e deixassem-me ver alguma coisa.
Quando abri os olhos, a decepção quase fez com que eu os fechasse de novo. Não que fosse fazer alguma diferença.


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Dei um pulo bem em tempo. Se não o fizesse, minhas roupas estariam cobertas por um líquido que, se não estivesse enganada, seria refrigerante. Grudei minhas costas na parede enquanto me recuperava do choque e a garota que derrubara a bebida pedisse desculpas com um sorriso quase cínico. A encarei. Não me surpreenderia se meus olhos soltassem fogo. Não respondi e ela se aproximou, recolocando aquela máscara, mostrando preocupação. Eu disse que estava ótima e ela logo deu de ombros, afastando-se. Dei alguns passos para o lado e sentei novamente.
Falsidade. Era desanimador pensar em como estávamos cercados por personagens. Todos representávamos um papel, cada um do seu modo. Haviam aqueles que não notavam que tinham seu próprio palco; e outros que faziam questão de não esquecer. Haviam os que abusavam de seus próprios personagens, usando-os para conseguirem o que queriam, sem medir conseqüências, sem ligar em quem pisavam. Haviam os que simplesmente não mostravam quem eram.

Meus olhos a acompanharam de longe, enquanto ela voltava para o grupo, como se nada tivesse acontecido. Pude vê-la dizendo algo, apontando para mim. Um dos garotos, dos rostos importantes, perguntou algo e vi uma pequena discussão começando a se formar. Fechei meus olhos, evitando olhar a cena.


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Aquele pequeno espaço começava a me desesperar. Estava me sentindo claustrofóbica, o ar parecia rarefeito. Não ouvia, não via, não falava. Tudo o que podia sentir eram minhas mãos em minhas pernas e minhas costas na parede. Nada acontecia. Eu só queria sair dali.
Estava sozinha, sabia que estava. Nada nem ninguém poderia me ouvir. Pensamentos cada vez mais horripilantes passavam pela minha cabeça. Todos terminavam em morte. Em minha morte. Sozinha naquele lugar, e eu nem sabia onde estava! Parecia uma cena patética de filme.


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Desta vez não foram mãos, mas um “OWW”, seguido de um cutucão. Reclamando, ergui meus olhos para quem quer que fosse e pude ver aquele garoto, o rosto importante. Ela dizia algo e eu me esforcei a ouvir, sacudindo a cabeça e pedindo para que ele repetisse a frase. Ele repetiu pausadamente, como se eu fosse algum tipo de retardada. Não pude deixar de rir.
Antes, porém, de responder, lancei um olhar ao grupo reunido ao longe, encontrando as pessoas a quem ele se referia. Mais rostos importantes, mais companhias que são total e completamente apreciadas. Voltei meu olhar a ele e assenti com um movimento da cabeça, erguendo-me e acompanhando-o de volta ao grupo.


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Perdera a noção de quanto tempo se passara. Podiam ter sido minutos, horas, ou até dias. Eu estava exausta, e com medo. Havia de admitir, não estava sendo fácil. Por isso que quase não acreditei quando uma frestinha de luz e ar abriu-se logo à minha frente. Temendo que aquilo fosse embora, ergui-me de um salto, ignorando as dores, e agarrei-me ao que parecia ser algo que me ajudasse a sobreviver mais um pouco. A luz era pouca, impedindo-me de ver com detalhes o aposento em que me encontrava, mas não fazia diferença. Deitei-me, com o rosto a poucos centímetros da luz, absorvendo quase todo o ar que vinha dela, com gratidão.


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Ao chegar ao grupo, meu olhar foi atraído primeiramente àquela figura maquiada. Lancei-lhe um olhar que até hoje não sei descrever, ignorando-a logo depois, e prestando atenção à pintura que importava. Aos rostos que, apesar de ainda um pouco borrados, eu ouvia muito melhor do que antes, embora ainda com espaços onde o som emudecia completamente. Aconcheguei-me melhor onde estava, também sabendo que alguns personagens são uma réplica do ator. Alguns não são falsos.
Era como eu pensava na hora, e eu havia de aproveitar este pensamento, antes que ele se extraviasse novamente.


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Podia ficar ali pelo resto de minha vida. Mas achei melhor voltar a ter a segurança das paredes, embora ainda a centímetros da luz. Ficaria ali até que a fresta se fechasse e eu fosse novamente lançada à escuridão. Escolhi e abracei as pernas, relaxando.
Porque a fresta não demoraria a desaparecer, disso eu tinha certeza.

What's That Feeling?


          Sentada no sofá, eu lia. Ou melhor, eu tentava ler. Meus olhos passavam pela mesma linha várias e repetidas vezes, há mais ou menos dez minutos. Enquanto eles faziam esses movimentos, eu bebia um milk-shake. Finalmente, eu me toquei que não estava lendo direito, digo... Não estava lendo e suspirei. Um pensamento repentino me ocorreu e eu acabei tremendo por isso. Eu segurava o copo bem em cima do livro, então, por alguma lei que eu não sei qual é, mas que não foi nada útil naquele momento, o copo cheio tremeu junto e caiu um pouco do líquido nas páginas de meu livro favorito. Assustei-me e me irritei ao mesmo tempo. Ora ! Aquele é meu livro favorito ! Coloquei o copo na mesa e me levantei, indo pegar um pano molhado, antes que a bebida marrom manchasse a página branca. Quando a limpe , me decepcionei. A página ficara manchada, apesar de a mancha ser fraca e eu ainda poder ler as palavras sem esforço algum. Mas fechei o livro; melhor não arriscar outra mancha. Coloquei o livro em cima da mesa, junto com o copo.
          Fitei a capa preta e o título escrito em letras prateadas. Fitei-as por um longo tempo. Mas não as via realmente. Meus pensamentos vagavam, sem rumo, bem longe. Mas, pelo jeito, eles tinham sim um rumo. Prova disto foi o rosto que apareceu em minha mente, quase instantaneamente. Na verdade, estava mais para uma cena , do que somente para um rosto. Essa mesma cena ocorrera hoje de manhã, e eu não conseguia me livrar dela. Estava impregnada em minha mente, para sempre. Com um gemido, escondi o rosto nas mãos, os braços apoiados nas pernas, e fechei os olhos. Sem querer, me entreguei aos pensamentos venenosos que enchiam minha mente.
          Por quê ? Por que meu coração pensa que é feito de aço , que pode sofrer à vontade, sem ficar com nem mesmo um arranhão ? Por que ele não pode se calar, mesmo quando o garoto se aproxima de mim ?
          Mas não !
          Quando o garoto se aproxima de mim, meu coração acelera por vontade própria, parecendo que quer vencer uma maratona ! Soma-se isso ao jeito como começo a ficar nervosa, que eu não me surpreenderia nem um pouco se eu chegasse até a ficar corada.  Mas, oh, meu Deus... ! Por que havia de ser ele ?
          Tudo isso seria só para sofrer mais um pouco ? Ou seria para, como dizem alguns , me “fortalecer” ?
          Bem , o motivo não importa tanto. O que mais importa mais é que eu reconheço a voz dele de longe. Que meu coração acelera a ponto que parecer que quer rasgar meu peito e sair voando quando ele está por perto, e mais ainda quando ele me toca. Que eu fico nervosa ao mesmo tempo em que meu coração acelera. Que meu estômago embrulha, revira, todas as vezes que eu penso nele. Que meus olhos o procuram, quase automaticamente, na multidão. Isso é o que importa. E, é claro, o que importa também, e muito, é que eu não deveria sentir essas coisas. Não é saudável. Ao menos não para mim.
          Será que isso era... Amor ? Eu estaquei, o copo que eu ia pegar escorregou um pouco, por causa do tremor que tomou conta de minhas mãos naquele momento.
          Não. Claro que não. Não poderia ser isso.
          Forcei minhas mãos a ficarem imóveis, enquanto eu me acalmava mentalmente. Respirava fundo.
          Todos dizem que, quando você ama, o sentimento que predomina é aquele de não saber o que fazer. Eu converso e brinco normalmente com ele. Claro. Somos amigos. Meus problemas são dentro do meu organismo. Coração , nervoso e sei lá mais o que. Amor ? Oh , mas é claro que não !
          Decidi me ocupar, fazer algo que ocupasse principalmente a minha mente; não queria pensar mais nisso. Peguei meu copo, o milk-shake inacabado ainda dentro dele, e me levantei. Fui para a cozinha. Lavei o copo e limpei a pia. Ao terminar, suspirei e sentei-me na mesma, balançando os pés no ar. Foi depois de um tempo que eu percebi que estava desocupada, e meus pensamentos já começavam a vagar, lentamente, como que para que eu não percebesse. Como se tivesse sido eletrocutada, dei um pulo e desci na pia. Resolvi procurar outra coisa para fazer.
          Coloquei uma música alta e fui para meu quarto , arrumar o meu armário. Funcionou por um tempo; a música alta me distraiu. Mas logo eu me cansei das músicas e já havia terminado meu armário. Deitei-me em minha cama , logo após desligar a música e coloquei meu travesseiro em cima da cabeça.
          Um grito se formou dentro de mim e subiu pela minha garganta. Eu o soltei quando ele chegou em minha boca. Nem eu mesma conhecia esse grito; um grito sofrido, angustiante. Não chorei ao parar de gritar. Mas ofeguei. Não sabia mais o que fazer, meu corpo doía, minha cabeça também... E meus pensamentos alcançaram o rosto do garoto. Para completar, meu estômago começou a embrulhar e eu fiquei enjoada.
          Era isso.
          A gota d’água.
          Agora chega.
          Levantei-me, ainda segurando meu travesseiro com força. Joguei-o de volta na cama e me olhei no espelho.
          Apresentável.
          Eu teria que falar com ele. Selaria meu destino assim que passasse pela minha porta.
          E foi o que eu fiz.
          Enchi-me de coragem e coloquei a mão na maçaneta.
          Respirei fundo.
          Abri a porta. Quem sabe o que poderia acontecer ?
          Saí de minha casa e fui à dele, planejando o que falaria. Claro, eu mal sabia se teria coragem de dizer o que queria, mas quem era eu para controlar meu futuro ?
          Olhei o prédio dele e entrei.
          Vamos lá, coração.
          Estou pronta.
          Pode vir, destino.
          É hora da verdade.
          Quando ele desceu, eu sorri para ele. Ele sorriu de volta. E me preparei para dizer o que iria me jogar de cabeça em meu destino.

Thoughts and Rain

Com tanta gente neste mundo, morrendo de vontade de ter um probleminha interno a resolver, porque este maldito destino havia de me escolher ? Por que diabos eu havia de ser tão confusa em minha vida amorosa ?
                    Tudo bem, não é nada de tão importante, afinal eu ainda sou nova para ter este tipo de questões em mente. Mas é tão estranho... Parece que, quando eu consigo o que quero — como combinar um beijo com o garoto que estava afim, por exemplo —, a animação acaba. Eu simplesmente... Não quero mais.
                    Não vou dizer que é isso com todos, até porque não é a coisa mais normal do mundo alguém pedir um beijo para mim. Nas vezes que acontece e nas raras vezes que me interesso... Quando chega perto do momento, eu dou para trás. Muitas vezes já cheguei a me perguntar se eu seria tão fria a ponto de só gostar do chamado jogo da conquista ?
                    Balancei a cabeça, observando, do sofá, a chuva que caía forte, molhando as ruas e, quem sabe, pegando alguns seres humanos desprevenidos, que começariam a correr, com medo de se molhar.
                    Sorrindo, me levantei e fui até o parapeito da janela, onde me sentei, segurando-me na parede, segura de que não cairia. O aroma fresco da chuva atingiu minhas narinas e me fizeram fechar os olhos ao senti-lo. Coloquei também as pernas no parapeito, ainda me segurando, e agradecendo ao fato de a janela ser bastante grande para consentir para que eu coubesse ali. Meus olhos passaram pelas ruas, sem realmente absorver nada mais importante do que a chuva caindo ao chão.
                    Com um certo esforço, desviei meus olhos da rua que ia esvaziando, para meu apartamento, quase vazio a não ser por mim. Um pequeno sorriso torto apareceu em meus lábios, mostrando o quão feliz eu estava por poder tomar minhas próprias decisões em casa, ainda que fosse por um espaço curto de tempo.
                    Fechei meus olhos, voltando a me concentrar no doce aroma da chuva, e encostei minha cabeça na parede da janela.
                    Quantas vezes eu já não tinha tido aquela mesma conversa comigo mesma ? Oras, eu ainda sou nova e não tenho que me prender a ninguém ! Além do mais, eu não o magoei, pois ele nunca sentiu nada por mim, a não ser uma atração física. Não uma como sexo, apenas... Vontade de colar seus lábios aos meus, apenas para... Experimentar. Mas agora... Só de pensar em ter de beijá-lo...Bem, só posso dizer que não quero mais, mas ele nunca gostaria de algo mais sério, de qualquer jeito.
                    Sinceramente ? Nem eu.
                    Então não há motivos para me sentir culpada ou irritada... Ou seja lá o que for que eu esteja sentido... Certo ?
                    Mas talvez você esteja magoando a si mesma, enquanto seus sentimentos mudam de garoto para garoto e, quando a coisa começa a passar do nível “nada além de amigos”, você foge. Isso não é saudável... Para você.
                    Ah, ótimo. Era tudo o que eu precisava neste momento. Aquela voz chata da consciência. Ela não cansa, não ?
                    Oras, estou simplesmente lhe ajudando !
                    Foi uma pergunta retórica.
                    Ah. Mas há de admitir que estou certa. Afinal, querendo ou não, sou a parte mais sã de você.
                    Ah, claro. Como se houvesse uma parte totalmente sã de mim.
                    ...
                    Ótimo, me ignore. Assim eu penso melhor.
                    Enfim... Tá bom, tá bom. Talvez a minha consciência esteja certa, tudo bem. Posso viver com isso.
                    Abri meus olhos, e a primeira visão que eu tive após alguns segundos de total escuridão, quase me fez derreter.
                    Sempre fui apaixonada por fúrias da natureza, principalmente os raios. Um, em zigue-zague, roxo, majestoso, acabara de cortar o céu.
                    Balancei a cabeça, tentando fazer com que eu mesma voltasse a me concentrar no que estava pensando antes, algo que não foi difícil. As idéias, os pensamentos, me tomavam minha mente por completo, tornando quase impossível que eu me distraísse por muito tempo. Era como se tivessem decidido que não me abandonariam até que eu me resolvesse.
                    Um vento frio passou por mim, enchendo minha casa e balançando meu vestido preto.
                    Coloquei as mãos uma em cada lado de minha cabeça, enquanto a chuva e os pensamentos me inebriavam por completo.
                    De repente, a resposta mais fácil para todos os meus pensamentos me atingiram como um tapa no rosto. Como poderia ser tão simples assim ? Parecia incrível, mas minha consciência estava certa !
                    O motivo desta... Movimentação toda em meu cérebro. Era tão simples. Eu estou me magoando enquanto procuro alguém para amar. Isso é patético. Eu estou muito bem do jeito que estou, certo ? Sim, certo.
                    Certo.
                    Viu ? Minha consciência concorda.
                    Antes que qualquer outro pensamento pudesse me invadir, o telefone tocou. Levantei-me, saindo do parapeito da janela, e o atendi. Era minha amiga, me convidando para passar na casa dela. Sorrindo para mim mesma, concordei.
                    Assim que desliguei o telefone e fiquei pronta, dei uma última olhada através do vidro da janela. Ainda chovia. Meu guarda-chuva estava perto da porta, mas eu o ignorei. Afinal, uma chuvinha de vez em quando não mata ninguém, não é mesmo ?
                    Às vezes...
                    Tá bom, tá bom. Às vezes sim. Mas eu não vou andar um metal na cabeça, nem vou dirigir, então estou fora de perigo, quanto à chuva.
                    Dando uma última olhada para minha casa silenciosa, dei um sorriso e apaguei as luzes, saindo logo depois e trancando a porta.
                    Vida... Aí vou eu.
                    É. Aí vamos nós.
                    Vai ser bom esquecer de tudo por umas horas... Sou jovem, lembra ?
                    Sim, nós somos.
                    Pois é.