sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A Christmas Tale

A noite terminava em fogos, risadas e copos quebrados. Os convidados retornavam às suas respectivas casas, trançando as pernas, embriagados pelos inúmero copos de vinho, licor, champagne e cerveja. A noite estava bonita, e o céu limpo deixava à mostra uma lua cheia, grande e amarela, e as estrelas raramente vistas, geralmente escondidas por trás da poluição.
As almas misturavam-se, os corpos fundiam-se em abraços e perdiam-se dentre sussurros que desejavam “boas festas” entre si. O álcool embriagava tanto quanto os fantasmas do espírito natalino; de repente, todos esqueciam as diferenças e as barreiras que eles próprios construíam, esqueciam dos problemas, tornavam-se amigos, companheiros, confidentes e amantes.
Parecia o Natal perfeito, aquela noite onde nada poderia dar errado.
Mas as aparências enganam, e algo deu errado. Algo deu terrivelmente errado para alguém.


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Numa pequena cidade no interior, vizinhos foram perturbados em suas ceias por conta de um grito estridente que vinha da casa da esquina, cujos donos eram uma família conhecida em todo o bairro, pelo que os vizinhos gostavam de nomear “sua leve anomalia”: o pai era um dentista respeitado, e a mãe, dona de casa, cuidava dos dois filhos; a mais nova, de 13 anos, e o adolescente de 17. A leve anomalia da família se devia ao fato de o adolescente possuir uma doença mental que era comumente pontuada por violentos casos de depressão e raiva.
Era uma vida difícil, já que os acessos do garoto seriam o suficiente para levar toda a família em uma viagem só de ida ao hospício; os que moravam ao lado da casa da família às vezes clamavam não conseguir dormir por causa dos berros do garoto, que deixavam transparecer sua agonia de forma tão clara que causava arrepios naqueles que ouviam.
O acesso daquela pacífica noite de Natal fora um pouquinho mais violento do que geralmente eram, embora fosse verdade que ninguém ouvira um pio saindo da boca do garoto.



Quem o encontrou foi a irmã. Passara os últimos dez minutos batendo na porta do quarto do garoto, chamando-o para a ceia tardia. Quando viu que não obteria resposta — claramente imaginando que ele estava ocupado demais em seus desenhos terapêuticos —, experimentou abrir a porta. Estava destrancada. Ela adentrou o aposento escuro, sem parar para pensar como era incomum o irmão fechado no quarto sem iluminação, tateando a parede em busca do interruptor. Encontrou-o. Ligou-o. A visão que teve do quarto a fez soltar um berro e, logo em seguida, vomitar ali mesmo, chamando a atenção da família.
Quando os pais chegaram à cena, foi o grito da mãe que se fez ouvir nas casas dos vizinhos, cheio de agonia, pesar, desespero e confusão.
Havia respingos de sangue por todos os lados. O cadáver do garoto jazia dentre a bagunça que era seu quarto, o corpo nu completamente mutilado. Uma faca de açougueiro descansava, inocente e banhada de sangue, a poucos centímetros da mão direita do garoto. Cortes profundos cobriam seu corpo e o sangue há muito parara de escorrer, coagulando e formando cascas engraçadas sobre a carne. Os olhos dele estavam abertos em uma calma assustadora, contrastando com o sorriso que ele possuía na face; expressão esta que ele provavelmente conservara durante todo o ato doce do suicídio.
Os berros da filha e da mãe tiraram os vizinhos mais próximos de suas respectivas casas, e alguns deles chegaram a passar mal ao ver a cena. O pai, pálido, precisava apoiar-se na parede, tomando o cuidado para não tocar em uma única gota de sangue respingado do filho; a mãe parecia prestes a desmaiar e a cena ficara gravada nas retinas da filha, que não conseguiria escapar da insanidade quando atingisse a fase adulta. A família, após aquela noite desastrosa, necessitaria de inúmeras sessões de terapia, e ninguém nunca se atreveria a dizer que eles chegaram a superar o que acontecera.
Naquele pedacinho de mundo, o Natal se transformou numa lembrança de tragédia.


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Em contrapartida, em outros lugares, ainda haviam amigos se despedindo, se abraçando, bebendo e se amando, todos ignorantes ao sofrimento daquela pequena família do interior cujo filho se cortara como se fosse um pedaço de carne no açougue. Aqueles que não tinham com o que se preocupar observavam o céu estrelado, admirando os fogos e comemorando as festas e as próprias alegrias.
Um Natal perfeito, com certeza.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Shooter... Shoot. Her.


Foi naquele momento, quando tudo pareceu se perder. Suas mãos tremiam com o esforço, formigavam com a fúria e ela sentia que seria capaz de apertar o gatilho a qualquer momento. Mas não podia, podia? Nunca quisera realmente que as coisas acabassem desta forma... certo?
Ora, querida. Você fez o trabalho todo, não foi? Fez sua lição de casa direitinho. Encontrou e roubou a arma tão indigentemente escondida atrás da cômoda grande com cheiro de antiga no quarto de seu tio moribundo. Entrou em seu quarto enquanto ele dormia, não foi? O velho sempre teve um sono convenientemente pesado e uma boca grande demais, não é mesmo? Foi fácil.
De fato, fora espantosamente fácil. Aquela cômoda, feminina demais com sua tintura branca, detalhes de corações cor de lilás e seus puxadores prateados, era grande e pesada apenas na aparência. Talvez o velho nunca guardasse nada ali; como muitas coisas no quarto, era apenas um enfeite, decorações que pareciam bradar o monstro que ele era e revelar os desejos mais íntimos que possuía, embora o velho não parecesse tomar consciência disto; o fato é que fora fácil arrastar a cômoda alguns centímetros para frente, revelando o pequeno esconderijo tão metodicamente camuflado na parede, o qual continha uma caixa velha de madeira sem senha ou cadeado; dentro desta, descansava o objeto que Emily buscava – uma Desert Eagle prateada. Suas mãos tremeram quando segurou a caixa aberta no colo. O coração acelerado a mantinha em estado de alerta para qualquer movimento vindo da cama, qualquer mínimo som que sugerisse que o velho estava acordando.
Mas ele tinha um som pesado demais, não é mesmo, querida Emily? Afinal, a culpa foi do próprio velho babão por ter afogado a si mesmo no whisky até tarde da noite, não foi? Era mesmo de se esperar que apagasse na cama; qualquer um saberia disto.
Ela sorriu em sua cela, encarando o teto cinza desbotado que escondia o céu. É claro que sabia; vivera com aquele velho babão sua vida inteira e sabia que ele não saberia resistir a um bom copo de bebida, ainda mais quando este era estrategicamente depositado no chão à sua espera; quanto mais forte a bebida fosse, melhor. Fora a bebida em primeiro lugar, não fora, que o instigara a esgueirar-se no quarto de Emily noite após noite, como um morcego?
Tão ingênua. Vai mesmo colocar toda a culpa na bebida?
É claro que não. O maldito já devia ter aquela alma corrompida há anos, muito tempo antes de colocar seus desejos desprezíveis em prática; a bebida fora apenas o gatilho.
Gatilho.
O tiro. O barulho ensurdecedor, seguido de um silêncio sufocante. O tremor de suas mãos ao derrubar a Desert no chão. O ruído surdo do metal chocando-se contra o carpete macio.
Ela ofegou, fechando os olhos, resolvendo ignorar a ausência de céu acima de sua cabeça. Sentiu que transpirava naquele aposento minúsculo, no qual ela mal podia se esticar com vontade; atravessava o espaço em cinco passos, no máximo. Concentrava-se em não pensar no dia em que o tiro escapou quando ouviu um pigarro de desdém, vindo do outro lado do quarto (que, como já mencionado, não era longe) e franziu a testa. Recusava-se, no entanto, abrir os olhos e encarar quem pigarreava.
Impressão minha, ou a querida Emily, tão sensata e determinada, está arrependida?
O VELHO, O MALDITO VELHO – gritava as palavras em sua mente, repetia-as como a um mantra; procurava abafar ao máximo a outra voz.
Ainda pode me ouvi-ir.
CALADA!
Sentou-se naquele colchão fino demais, quase inexistente, agarrando os cabelos. Os olhos ainda fechados estavam apertados, clamando por paciência, por paz.
Oh, acho que Emily está sim arrependida.
Talvez esteja, pensou a mulher, rendendo-se; ainda agarrava os próprios cabelos, sentindo que poderia arrancá-los do couro cabeludo se transformasse toda aquela agonia que estava sentindo em força. Talvez eu queira voltar atrás, para um mundo em que você não existe.
É uma pena que as máquinas do tempo ainda não foram inventadas, estou certa?
E, com isso, ambas se calaram por algumas horas.
Emily dormiu sentada, suas costas comprimidas contra a parede gelada.





O único som agora eram os gemidos desesperados e a respiração entrecortada. Ela suava, mergulhada em pânico e repugnância. A claustrofobia já tomava conta de seu íntimo, naquela sala pequena onde se encontrava... totalmente sozinha.
Sozinha?
— Oh, meu deus — ela murmurou baixinho, permitindo-se deitar novamente naquele objeto que mal podia ser chamado de cama. — Deixe-me em paz, por favor.
Não posso fazer isso, Emily querida. Assim como você também não pode se livrar do que você fez.
Emily gemeu novamente, virando o corpo de modo a ficar de frente para a parede cinza e nua, ainda que seus olhos permanecessem fechados, proibindo-lhe de analisar a tinta desbotada. Suas mãos escorregaram do cabelo para os ouvidos enquanto as lembranças retornavam, fortes como um touro, empurrando-a mais e mais, agonia a dentro.
Sentia o cheiro da pólvora, o fedor de morte. Via o corpo à sua frente caído ao chão, uma poça de sangue formando-se rapidamente no peito onde a bala a atingira. Emily estava em choque, boquiaberta. Segurava a Desert com as duas mãos, como se assim pudesse calar o eco, como se pudesse voltar no tempo. Fora culpa do tremor, apenas do tremor. Nunca quisera de fato matá-la... assassiná-la... nunca.
Nunca mesmo? Mas você ameaçou, não foi? Colocou as balas no revólver. Estava carregado e você sabia. Ainda assim, pousou um dedo no gatilho, ciente de que o menor tremor podia dispará-lo. Arrependida, querida Emily?
Não houve gemido em resposta; a mulher já estava por demais mergulhada em suas próprias lembranças do acontecido para dar atenção à voz que a assombrava.
Afinal, o que aquela mulher (que agora jazia morta no chão, com um buraco enorme de bala em seu peito, sangrando e sangrando sem parar) tinha a ver com tudo o que acontecera à Emily? Todas aquelas noites de horror que passara em companhia do tio (o velho, aquele velho maldito) não foram culpa da morta.
A morta, que não cometera pecado algum, a não ser, talvez, não cair de amores por Emily Baudelaire, que não se comovera com sua história perturbada; a morta, que agora jazia a sete palmos embaixo da terra; a morta, cujo único crime talvez tenha sido conhecer Emily Baudelaire, em primeiro lugar, ambas colegas de trabalho; a morta, cujo nome era Juliet Winston; a morta que sou eu ou era eu, Emily Baudelaire. Mais uma vez, por que você me matou? Para se vingar de seu tio, aquele...
Velho, o velho maldito. O velho bêbado.
... bêbado, que estragou sua vida, não é mesmo? E você descontou em mim, porque é covarde demais para descontar nele próprio. Naquela noite, quando roubou o revólver, ele estava a poucos metros de você. Podia ter apontado a arma...
Sua respiração lenta e ruidosa, inconfundível para aquela que morava com ele há tantos anos. Aquela respiração que tivera que ouvir no calar da noite, impossibilitada de produzir ruído que fosse, sua boca tampada por uma daquelas mãos que cheiravam a whisky antigo.
... e ter terminado logo com isso, não é? Não. Voce teve que descontar em quem não tinha nada a ver com o assunto, não é mesmo? Agora me diga: todos aqueles anos em que ele deitara em sua cama foram vingados quando você atirou, Emily?
Eu não atirei, pensava Emily, encolhida. As mãos prensadas em seus ouvidos não eram suficientes, e sabia o porquê; não estava ouvindo a voz de Juliet; esta estava dentro de sua cabeça, presa para sempre, condenando-a para sempre. Não atirei, minha mão tremia demais, foi um acidente.
Acidentes, acidentes. Não haveria um acidente se você não tivesse carregado a arma, Emily. Fui para sua casa naquele dia, crente de que íamos falar de negócios, mas não! Tudo o que você queria era me ameaçar por conta de uma brincadeira, não é? Apontou a arma para mim, encurralou-me em um dos cantos de sua sala tão sistematicamente decorada. E atirou, bem no meu peito. Nada mal para uma principiante. Não contou, contudo, com o seu velho, não? Ele ouviu, e desceu correndo.
— Aquele velho maldito...
Mas Emily já não tinha mais desculpas e a voz — fantasma, alucinação? — de Juliet continuava. Acusava-a, a enlouquecia. As lembranças, agora tão mais fortes, tomavam conta de suas retinas, reproduzindo as cenas tão remotas como se estivessem acontecendo naquele momento.





Ela não compreendia muito bem o que estava acontecendo. Ouvira seus passos atravessarem o corredor, e, no fundo, não ficou surpresa ao ouvir o ranger da porta se abrindo e os passos dele, abafados pelo carpete persa, aproximando-se de sua cama. Sentia seu cheiro, um cheiro até então agradável de menta misturado com whisky; ele estivera bebendo.
As mãozinhas de Emily, tão pequenas para seus oito anos, agarravam o cobertor roxo, e suas pálpebras estavam fechadas, impedindo-a de encarar o visitante — não que ela precisasse encará-lo para saber quem era. Quando ele se deitou ao seu lado, estranhamente apertado na cama de solteiro, ela ofegou tão discretamente que ele não percebeu. Uma de suas mãos pousou na pequena cintura ainda pouco desenvolvida de Emily, e começaram a acariciá-la; escorregavam para cima e para baixo à medida que sua boca se aproximava do pequeno pescoço.
Quando os lábios molhados de álcool tocaram sua pele, Emily reagiu violentamente, dando um pulo que poderia ter acordado os criados, mas o tio estava preparado; a outra mão deslocou-se para os lábios da pequena, tampando-os, impedindo-a de fazer qualquer ruído.
— Shh... — ele murmurou em seu ouvido, naquela voz rouca e brincalhona que ela conhecia. Seu bafo fedia a whisky velho. — Vamos brincar, que tal?
A partir disso as sessões começaram. Ela era proibida de falar com quem quer fosse sobre o assunto, sob fortes ameaças vindas do bafo de bebida. Tornou-se uma menina recatada, odiando aquele homem que a acolhera quando os pais a abandonaram em sua porta. As sessões não pararam até ela fazer 16 anos, quando ele teve um derrame que o impossibilitou de sair da cama, praticamente. Fora o melhor dia da vida de Emily, que sentiu uma liberdade avassaladora pela primeira vez em sua vida.
Liberdade esta que a Emily de hoje, trancafiada numa cela cinza e desbotada, nunca mais poderia aproveitar.





Aquele dia em sua casa ainda parecia um borrão. Mal se lembrava da brincadeira feita por Juliet que enchera o peito de Emily de um ódio tão puro quanto aquele que nutria pelo (velho maldito) tio. Intenso por um segundo, logo desaparecera, deixando, no entanto, um rastro ácido que parecia corroê-la de dentro para fora. Não demorou muito e ela descobriu que precisava ao menos ameaçar aquela que criara o ódio. Foi quando executou o plano, deixando uma garrafa na porta do quarto do tio, esperou-o desmaiar e roubara a arma.
Chamara Juliet para falar sobre o trabalho que deviam fazer juntas; aquela matéria que o diretor do jornal teimara que ficaria perfeita se suas melhores redatoras unissem suas forças. Juliet aceitou o convite e este fora o maior erro de sua vida.
— Não pretendia matá-la, Juliet — murmurou outra vez. Poderia estar chorando se não fosse o fato de cerrar os olhos com tanta força que eles já estavam insensíveis.
O problema é que agora isto não importa, não é mesmo querida Emily?
O velho ouvira o tiro e mandara um dos criados correr até o primeiro andar para ver o que acontecera. O criado, um homem humilde e ingênuo, quase teve que ser levado ao hospital devido à intensidade do enjôo que o arrasou ao ver o cadáver de Juliet no chão e, parada a poucos metros do corpo, Emily, os olhos arregalados em choque, e ambas as mãos segurando o revólver.
Não foi intenção, de forma alguma. Eu estava tremendo demais, foi por isso. Foi, foi... foi só por isso.
O tio, quando soube do acontecido, não hesitara em agarrar o telefone e dizer à polícia que havia um alouca assassina em sua casa. Seus dentes lampejaram em um sorriso sinistro, duas de suas obturações de ouro criando pontos de luz na parede à sua frente.
A polícia chegou e Emily não resistiu, o corpo entorpecido pelo atordoamento. Não imaginara que a arma fosse disparar tão facilmente.
Fora declarada culpada e condenada a dez anos de cadeia por homicídio doloso. Durante todo o tempo do processo, ainda não conseguia acreditar no que se passara em sua casa, ainda mais por ver que, na verdade, Juliet não havia morrido; a acompanhava desde então para onde Emily fosse, como uma sombra invisível para os outros, que nunca se calava.
Ainda tem a audácia de me chamar de tagarela.
Emily abriu os olhos, direcionando-os ao som da voz. Ali estava Juliet, com seu corpo esguio apoiado na parede nojenta, os braços cruzados sobre o peito e a bela face distorcida em uma expressão de repulsa. Na cabeça de Emily, algo apitou como se fosse explodir e a mulher resistiu ao impulso de piscar várias vezes para checar se a imagem iria desaparecer.
— Se não fosse por ele...
Você não teria me matado? Engraçado, não me lembro de ele jamais ter lhe dito que você devia me matar. Nunca ouvi essa exigência saindo do bafo de whisky dele.
A mulher deitada suspirou, voltando a face para o teto.
— Nunca vai me perdoar, não é?
Não.
Sabia que seria aquela a resposta, por isso não ficou surpresa. Mas seus punhos se fecharam, o ódio voltou a espumar em seu organismo. Tudo culpa dele, que estragara sua vida antes mesmo desta começar. Transformara-a nesta coisa que se esquecia de medir as conseqüências.
Mas um dia ele pagaria, ah sim! Aquele velho maldito.
Juliet recomeçou seu falatório e Emily fechou os olhos, desejando mais do que nunca que fosse ela a estar morta.