"Fundo do poço" talvez não fosse um nome apropriado o bastante. Contudo, minha mente falha em encontrar um termo que descreva melhor para explicar a situação. Garrafas incontáveis, jogadas ao esquecimento, quebradas; os cacos cobriam as ruas pelas quais ela andava descalça, os sapatos de salto pendurados em uma mão. Maquiagem borrada, pernas trançadas, a visão de uma festa que durara a noite toda. Mais uma. Os bolsos vazios, o dinheiro trocado por mais e mais copos de álcool, cigarros, drogas e camisinhas. Vivia para o hoje, não dando a menor atenção ao amanhã. Inconsequente. Voltava para uma casa vazia, gelada, escura. Dormia no chão. Perdia-se entre a sujeira, sempre cansada demais para limpar a casa. Sentia necessidade em roubar e humilhar-se por dinheiro, apenas para gastar tudo no mesmo dia, na mesma noite. Cometia cada um dos sete pecados capitais por dia, ignorando a chegada cada vez mais próxima do inferno iminente. A vida era atraente. O anjinho que vivera em seu ombro se fora, e quem dominava era o pequeno diabo. Constantemente bêbada ou chapada, esquecera o que era sentir. Apenas vivia, uma concha vazia, robótica. O fim do mundo se aproximava, mas quem dava a mínima? Não valia a pena. Cada dia em um lugar diferente, com pessoas diferentes, dividindo camas, copos, drogas. Todos os dias acordava e corria ao banheiro vomitar todo o álcool da noite anterior, apenas preparando-se para a noite seguinte. Chorava todas as manhãs, sem nem mesmo saber o porquê das lágrimas.
Um corpo sem alma, vivendo para a vida sem emoções.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
And There's Also Suicide
Encontrava-se perdida entre o tempo e o espaço, desprovida de quaisquer sentimentos verdadeiros. O mundo parecia girar lentamente, recheado de uma calmaria perigosa, daquelas que costumam anteceder a mais forte das tempestades.
Era a paz; ou ao menos o mais próximo que alguém poderia chegar da tal.
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O alívio encontrava-se no fato de que ninguém poderia alcançá-la onde estava. Ainda que o local fosse óbvio, só havia uma chave de entrada, e esta jazia esquecida ao lado da garota que apodrecia aos poucos no chão sujo e duro do próprio quarto.
A solidão, a fuga.
Parecia que estava do outro lado de um denso véu, que a separava do resto dos seres humanos. Em sua companhia só haviam o medo, a insegurança, a depressão e a paz, sem contar os insetos ocasionais que adentravam o aposento pela janela minimamente aberta. Compartilhava o próprio corpo com a mais bela mistura de sentimentos, que após algum tempo, no entanto, tornavam-se rotineiros e insuportáveis.
Eles cravavam as garras terrivelmente afiadas em sua pele macia, cavando de dentro para fora. A dor era eroticamente prazerosa; um nada de sensação para quebrar a monotonia da paz que, em não muito tempo, a tomaria para sempre.
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— Oi, Emily! Duvido que você precise de lembranças, mas aqui é o Tiago. Eu estive pensando, e adoraria repetir aquele nosso... hã, encontro. Desta vez eu poderia dormir aí, ao invés de pularmos para um hotel, e então poderíamos conversar de verdade esta vez. O que acha? Me ligue.
Beep.
O som do telefone combinado com as vozes indesejadas era obsceno naquela paz: eles a rasgaram e a mutilaram, transformando em pedaços a ilusão de ter escapado. Suas pálpebras fechadas comprimiram-se enquanto seu cérebro contava até dez, procurando recuperar aquela anestesia natural, obrigá-la a invadir seu corpo com mais rapidez.
Abraçou um velho cobertor depositado no chão ao seu lado. Ignorou completamente o calor insuportável que subiu pelo seu corpo. Eram as sensações, que clamavam por espaço e mandavam a paz para o inferno naquela maldita noite quente de verão.
— Ems, eu preciso falar com você agora. Atenda a droga deste telefone, ou me ligue imediatamente após ouvir a droga deste recado antes que você faça alguma idiotice.
Beep.
Passou a mão pela franja e descobriu que estava suando e tremendo. Sem deixar transparecer emoção alguma em seu resto, abriu os olhos. Viu-se encarando o teto escuro e este a encarava de volta, aqueles olhos negros e deformados.
Famintos.
— Ems? Naomi me ligou, ela está preocupada, disse que você não atende mais o telefone, e que desapareceu tanto da faculdade quanto do emprego. Minha filha, eu espero que você não esteja trancada em seu próprio quarto, esperando o mundo tomar alguma providência por você. Sei que o que aconteceu há algumas semanas te afetou de verdade, mas...
Beep.
O telefone, o maldito telefone que não parava de tocar, e o toque ecoava em sua mente tão alto que ela jurava que enlouqueceria se voltasse a escutar aquele toque. Era uma tortura, uma tortura psicológica.
— Emily White, acho bom você me explicar o que porra está acontecendo, ou eu juro que vou arrombar a droga da porta do seu apartamento de merda.
Beep.
Ameaças, ameaças. Desespero. Frustração. Era só do que a vida era feita, e a morena já não agüentava mais todo aquele ódio, injustiça e cansaço. A paz já encontrava seu fim há muito, desaparecendo sem deixar vestígios de que algum dia estivera ali.
Lutara por uma boa vida, longe de tudo que fosse negativo. Conhecia suas próprias fraquezas nocivas, e as inúmeras marcas em ambos os seus braços só serviam para lembrá-la mais e mais de toda sua infância obscura. Era absolutamente feliz com a namorada, com a faculdade de jornalismo, com suas altas notas que lhe garantiram um emprego fixo no local onde estagiava. Estava tudo perfeitamente bem.
Até, é claro, que os acontecimentos da semana anterior lhe abriram feridas tão profundas e sangrentas que deram à Emily a certeza de que sua vida já não duraria muito tempo; fossem ou não por causas naturais.
— Hm, hey, Emisy. Eu estava me perguntando se você gostaria de sair comigo qualquer dia desses... quer dizer, eu lembro das coisas que você falou quando nos encontramos no bar e tudo o mais, e... bem, se você quiser, poderia me ligar, o que acha? Ah, aqui é o Alex.
Beep.
Agora era a dor. Parecia o certo, não é mesmo? Não havia nenhum bilhete, nenhuma explicação para o que fizera. Sabia que não adiantaria. Na verdade, não tinha em certeza do que a motivara a tomar medidas tão desesperadas. As razões que encontrara antes agora pareciam apenas evasivas insuficientes.
Traíra sua namorada em um bar sinistro e pegajoso, que encontrou após uma viagem sem rumo que fizera, e no qual ficou completamente bêbada, revivendo as notícias que haviam chegado até seus ouvidos há pouco. As respostas, as explicações do por que se lembrava tão pouco de sua infância, as respostas das longas noites escuras e assustadoras em seu quarto.
Foi ladeira abaixo, desde então.
Quem estava contando pontos? O telefone não tocou mais, e um torpor sensual, perigoso, enchia-lhe da cabeça aos pés.
Emily suspirou e fechou os olhos lenta e demoradamente, esperando, enquanto o ácido em seu estômago borbulhava cada vez mais.
As batidas na porta eram estrondosas. Ratos corriam para longe e vizinhos acordavam irritados, amaldiçoando a vizinha lunática do último andas, que era a provável fonte de todo aquele escândalo: a tal Emily, estranha e paranóica.
Na verdade, quem esmurrava a porta na esperança de derrubá-la era Naomi, tão irritada com Emily que quase se esquecera que, um dia, quando a namorada não estava olhando, tirara uma cópia da chave da casa, aquela casa cheia de histórias e tão misteriosa, na qual ninguém além de Emily poderia pôr os pés.
Terminado seu lapso de memória, destrancou a porta, que se abriu com um rangido, e adentrou o apartamento, já enchendo os pulmões com um grito de pretendia acordar o prédio inteiro naquela madrugada quente demais.
Até que chegou ao quarto, e se esqueceu de respirar; o gritou parou e se perdeu em sua garganta, morrendo sufocado com o choque do que viu.
Não havia sangue. A cena seria quase pacífica, se não fosse pela imundície do local, o cheiro de podridão e aquela figura disforme que se propagava no meio do solo. O cobertor velho com um grande Scooby-Doo estampado jazia ao lado do corpo inerte de Emily. O quarto inteiro era pouco visível, tendo como única fonte de luz o brilho da lua cheia que flutuava do outro lado do vidro da janela, majestosa e indiferente aos mortais na Terra.
Havia uma grande garrafa quebrada de vodka do outro lado da garota, e um vidro aberto, vazio, de comprimidos para dormir, próximo à garrafa. Uma situação delicada, óbvia, triste.
Levou muito tempo para Naomi se mover e andar até a namorada. Ao se aproximar, seus pés fizeram um ruído engraçado, nojento, líquido. Olhou para baixo e pôde distinguir a forma de uma poça, e a textura da substância lhe revelou que era vômito. Engoliu em seco, mantendo toda sua comida em seu próprio estômago, e se agachou ao lado de Emily.
Não haviam lágrimas em sua face, mas sim um tipo de luta sendo travada em seu organismo. Estava dividida entre o desespero, o ódio, e o coração partido.
No fim, pousou uma mão sobre a testa do cadáver.
Suicídio. Tão trágico, tão desesperado.
— Me desculpe, Emsy.
E correu apartamento afora.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Beautiful Exercise
120 quilos de cada lado. Puxa com toda a força que lhe resta. Solta lentamente. Os músculos berram em protestos, tremem de bêbados. De novo. E de novo. E de novo. Então pára, um minuto, para descansar. O torpor se arrasta e te pega de surpresa. A sensação é indescritível.
Academia.
O ar era abafado, quente. Quase claustrofóbico; culpa das dezenas de pessoas que corriam, pedalavam e transpiravam. As conversas, os fones nos ouvidos. O barulho dos ventiladores ligados na potência máxima, as conversas e a música eletrônica que ressoava nos aparelhos de som fundiam-se em uma maravilhosa confusão acústica. E os sons, harmônicos com os movimentos, todos perfeitamente sincronizados. Dançavam. E não sabiam disso.
De volta ao exercício. Puxar, soltar. Um, dois, três, quatro, cinco, seis. E continua. A contagem rotineira, já não era necessário pensar. Sete, oito, nove, dez. Descansa. Observa. Continua.
Não demorava muito e o cérebro logo deixava a maravilhosa endorfina escorrer pelo sangue. A sensação boa de que você é invencível. Nada de dor. E o esforço continuava. Cada um daqueles corpos cheios de músculos que berravam e tremiam possuíam seus motivos. Maltratavam a si mesmos e erguiam pesos, procurando... o quê? A beleza perfeita, ou o simples prazer pelo exercício, o calor que subia pelo corpo inteiro até chegar ao rosto? Ou talvez os dois?
O lugar parecia pequeno demais para concentrar tantas pessoas juntas. As garrafas d’água depositadas no chão também transpiravam, deixando pequenas poças ao chão. Os instrutores brincavam com os treinados, cada qual com sua própria toalha, secando o rosto que vomitava química e calor.
Para alguns, talvez fosse nojento. O ambiente compartilhado com tantas pessoas diferentes, e o ar pesado, o cheiro de suor. Incrivelmente, no entanto, havia algo belo, viciante e saboroso em tudo aquilo. Talvez fosse feito da endorfina, ou talvez fosse apenas a visão de quem sabia do que estava falando.
A dor do dia seguinte era boa. Valia a pena. Um lugar perfeito para a escapatória, para calar o vício ou até mesmo para tentar paquerar desconhecidos que enchiam os músculos.
Passado o minuto, hora de voltar ao trabalho. 120 quilos. Puxa com toda a força. Solta lentamente. Os músculos tremem, esquentam. Um sorriso aparece nos lábios. Um, dois, três.
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