quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Goin' Down

Não havia nada de singular naquele crepúsculo tingido de laranja. As ruas encontravam-se apinhadas de trabalhadores cansados, retornando às suas respectivas moradias, todos almejando o conforto de suas camas e abraços calorosos do parceiro ou parceira que os esperavam.
Era um encanto. Ela, sentada em um dos bancos mais altos do ônibus, permitia que seus olhos vagassem, observando o movimento das ruas lotadas através do vidro. Ainda era cedo, muito antes do horário no qual ela costumava voltar para casa, o que significa que, pela primeira vez em muito tempo, não se sentia impaciente com a lenditão da hora do rush; ela calculara com precisão e ainda havia tempo de sobra para preparar a surpresa que organizara. 
Quando este pensamento lhe ocorreu, abriu um sorriso para si mesma, que um senhor mendigo, do outro lado do vidro, respondeu, com um sorriso desdentado. Ela nem mesmo se deu conta disto. Estava feliz, dentro de sua própria cabeça, brincando com a pequena aliança prateada em sua mão direita.
Chegou em casa pouco depois de o sol ter dado espaço à lua e o céu laranja ter-se tornado negro. 
Abriu a porta, a casa estava escura, como o esperado. Seus braços já começavam a pesar, carregados de sacolas cheias de morangos, uvas, spaghetti, molho de tomate e vinho. Ainda assim, ela ignorava a dor, concentrando-se no fato de que logo estaria livre para tomar um banho relaxante antes de pôr em prática a noite de amor que planejara entre ela e o namorado.
Guardou as compras, desligou o aparelho eletrônico que enchia seus ouvidos do bom e velho rock and roll. Silêncio.
Silêncio?



Pousou seus pertences na mesa da sala, movendo-se cautelosamente na direção dos sons abafados que flutuavam até seus ouvidos. Ao passar pelo porta-guarda-chuva no corredor, recordou-se de alguns casos que houveram de ladrões na região, e agarrou um longo guarda-chuva preto, erguendo-o à sua frente no caso de precisar defender-se.
O barulho vinha do quarto, a porta no final do corredor, cuja fresta entre o chão e a madeira revelava as luzes acesas, embora, sendo esta fresta tão pequena, não fosse possível distinguir um corpo se movendo do outro lado da porta.
Algo parecia estar errado. Afinal, se fosse realmente um ladrão, este se preocuparia em não fazer ruídos altos, evitando chamar a atenção para sua presença. Quem quer que estivesse no aposento, porém, não parecia ligar para este detalhe; apesar de serem ininteligíveis, os ruídos tornavam-se cada vez mais alto a cada passo que a garota avançava — pareciam vozes.
Estendeu a mão direita — viu o brilho extremamente fraco de sua aliança no escuro —, erguendo ainda mais o guarda-chuva com a mão esquerda, pronta para atacar.
Girou a maçaneta.
O guarda-chuva caiu com um baque surdo no chão.





A cena pareceu congelar por um momento.
Silêncio.
Os três congelaram, encarando um ao outro.

Ela surtou.





A casa estava escura.
Na verdade, fazia dias que a pequena figura sentada no sofá não acendia as luzes. A escuridão a circundava, a acariciava como a boa companhia que era.
Nervosa, torcia as mãos no colo, assistindo ao noticiário que se encontrava com o volume baixo, procurando não chamar a atenção.
Não que alguém fosse dar atenção a ela, ou até mesmo àquela casa. Não mais.
Durante dias seguidos, alguns de seus amigos e amigos dele apareceram, procurando por ambos. Estavam preocupados com a falta de notícias.
Para seu contentamento, porém, todos acabaram convencendo a si mesmos que o casal havia viajado, procurado dar um tempo da loucura da cidade. Ainda assim, muitos continuavam com a sensação de que havia algo errado. 
Mas ninguém voltou a tocar a campainha.





Fazia semanas que não saía de casa. Para nada. Mal comia.
A televisão mantinha-se constantemente ligada nos noticiários. Sabia o que esperava ver, mas não tinha certeza de como se sentir quando acontecesse. A idéia parecia surreal de mais.





Então ela viu. Ofegou.





O repórter possuía uma expressão perturbada, e deixava claro em seu tom que considerava a notícia sinceramente chocante. 
As câmeras não mostraram o corpo, que provavelmente já entrara em estado de decomposição, tendo em vista há quanto tempo já estava morto. Mas ela não precisava de uma amostra vinda da televisão — seu corpo ainda preservava o desejo assassino que tomara conta de si naquele dia; suas mãos ainda doíam com o esforço que segurava a faca; sua garganta ainda doía, resultado dos berros inflamados que atirara na direção dos dois. Todos os efeitos colaterais daquela noite continuavam impregnados em sua pele, corroendo cada mínimo pedaço de seu organismo.
Os braços, cruzados sobre o peito, ardiam. Cravara suas longas unhas em cada braço, torturando-se ao assistir as especulações. O corpo já fora identificado. Vasculhavam sua vida. Ela sentir o tremor subindo pela sua espinha, revivendo a adrenalina de semanas atrás, tão intensamente quanto no dia.
A televisão desligou sozinha quando o repórter, após clamar que aquele era um crime hediondo, comentava que estavam atrás da namorada da vítima, procurando por informações sobre o que poderia ter ocorrido. Subitamente, ela estava envolta de escuridão total, e foi obrigada a reprimir um berro.
As trevas, no entanto, ainda eram insignificantes se comparadas com a expressão sombria presente na face da garota, agora congelada onde estava. Sabia o porquê de a televisão ter apagado. Era óbvio, tendo em vista que não saía de casa há tanto tempo. Contudo, não pôde evitar que o tremor se intensificasse, provocando algo que ela pensou ser o início de uma convulsão.





Não soube dizer quanto tempo ficara ali parada, no escuro. Passava uma mão na outra, inconscientemente tentando limpá-las, sem sucesso — uma camada de sangue havia endurecido, formando algo importunamente parecido com uma luva.
Até que deu um pulo, provocado por uma forte batida na porta. Chamavam seu nome. Sem obter resposta, bateram de novo, e era notável a falta de paciência vinda da pessoa do outro lado da porta. Outra batida, e outra voz, mais forte, declarou que eram da polícia e que ela devia abrir a porta imediatamente, ou eles o fariam por ela.
Ela estacou, silenciosa como um gato, observando, antegozando o momento no qual eles arrombariam a porta. Sua vontade era permanecer parada, permitir que a levassem para a delegacia, para o inferno, para o lugar onde ela — tão suja, tão pecadora — pertencia.
Algo, no entanto, a fez levantar, correr para a porta dos fundos e esconder-se no jardim no momento em que a porta da frente explodiu e dois policiais marcharam para dentro, observando. Ela soube, então, que era seu fim: eles encontrariam tudo e ela estaria fadada a ser punida.
Pensou em retornar à sala, e entregar-se. Contudo, isso não geraria bem algum, levando em conta que ela já tentara fugir, e mesmo que tenha pensado melhor, sua pena não diminuiria. O pensamento de limpar a alma, no entanto, era forte e quase venceu. Quase voltou.
Quase.





Há quanto tempo estava correndo? Saíra do jardim de forma súbita e descontrolada, atropelando quaisquer pessoas ou animais que estivessem em seu caminho — de fato, quase caíra ao colidir com um carro de madeira cheio de melancias, propriedade de um vendedor numa esquina movimentada.
Não prestava atenção aonde ia, muito menos às pessoas que lhe lançavam olhares enfurecidos pelos empurrões que recebiam e apavorados com sua aparência. Mantinha os olhos à frente, recusando-se a parar até que tivesse certeza de que não estava sendo seguida — ou até que suas pernas não mais agüentassem o exercício que raramente realizava.
Terminou por tropeçar em uma bola de futebol, propriedade de um bando de crianças que brincavam na rua, aproveitando o final de tarde. Mal teve tempo de processar o acidente e já se viu de cara no chão, em frente à vitrine escura de uma loja de roupas. Olhando para cima, encontrou o olhar de um manequim inexpressivo que a encarava do alto, intimidando-a. O formato daqueles olhos eram demasiadamente familiares para que ela se permitisse sustentá-los por muito mais tempo. Por esta razão, desviou seus olhos para a própria imagem refletida.
O que viu mais a enojou do que a assustou. Passara as duas (duas, apenas?, pensou) semanas dentro da casa escura, sentada em frente à televisão, ansiando ouvir as palavras mágicas do noticiário; levantava apenas para beber água, utilizar o banheiro ou comer somente quando o estômago revirava de fome. Não havia se dado ao trabalho de lampejar um olhar ao espelho, mas possuía uma leve noção de como estaria sua aparência. Não imaginava, entretanto, encontrar-se em situação tão desprezível e subitamente compreendeu por que atraíra olhares tão espantados enquanto corria.
Seus cabelos estavam completamente bagunçados por conta do vento, sujos pela falta de limpeza, com muitas mechas caindo sobre seu rosto, que também estava sujo. Havia manchas escuras em algumas partes de seu corpo, que ela sabia tratar-se de sangue. Baixou os olhos para as mãos e as viu um tanto vermelhas, embora o líquido já houvesse secado. Sentia-se suja.
Alguns dos meninos se aproximaram, procurando ver se ela se machucara gravemente com o tombo. Um deles pareceu ter notado sua aparência, e sua face infantil moldou uma expressão tanto interessada como apavorada. Receando virar o centro das atenções daquele grupo de crianças impressionáveis, ela se ergueu e correu novamente.





Não tinha idéia de onde estava. Era uma praça, cercada de ruas cheias de lojas. Havia vitrines acesas, outras que já haviam terminado seus turnos e agora encontravam-se tão escuras quanto àquela do manequim. Ela correu o olhar pelas lojas, os olhos arregalados. Encontrou uma de eletrônicos, ainda aberta, cujas televisões estavam ligadas no noticiário que ainda falava sobre o homem em estado de decomposição, cujo corpo sem vida estava lotado de cortes longos e profundos, para todas as direções. O legista, sendo entrevistado, comentou que raramente via marcas tão explícitas de ódio:
“Quem quer que tenha feito isso, já empunhou a faca ou as facas no intuito de matar. De assassinar, fria e cruelmente”.
Ela cruzou os braços, como fizera em casa, fincando as unhas em sua própria carne. Punia-se, não pelas palavras do legista, mas por permitir que as lembranças voltassem em um golpe ao ouvir as palavras do especialista.





Os três congelaram, encarando um ao outro. Ela, parada à porta com a mão aberta, na mesma posição em que estava quando o guarda-chuva escorregou por entre seus dedos. Os outros dois, enroscados na cama; ele deitado e ela sentada em cima dele, ambos congelados em seu pavor de terem sido descobertos. Seria cômico se não fosse tão obscenamente macabro. Ela, parada à porta, tremia. Não conseguia pensar com clareza. Fechou os punhos involuntariamente, mas tão forte que a aliança em seu dedo quase cortou sua carne, e sua expressão era de choque. Ficaram se encarando por segundos que pareciam horas, até que ele quebrasse o silêncio.
Querida... Isso não... ­
Mas o que quer que fosse que ele tinha a dizer “não é o que você está pensando”, “não significa nada, eu amo é você”, “não me deixe, por favor” não era importante. Ela não queria ouvir, e recusou-se a tal. Com um rosnar de fúria, tirou a aliança que saiu provocando feridas em seu dedo e a jogou em cima dele, que empurrou a mulher sobressaltada de cima de si e saiu atrás da namorada.
Ela correu para a cozinha, procurando tomar um pouco de ar pela grande janela aberta. Inclinou-se sobre o parapeito, um súbito desejo de cair para o outro lado mesmo que de nada fosse adiantar, tendo em vista que a cozinha ficava no andar de baixo da casa e morrer dentre as flores maravilhosamente cheias de espinhos. Algo parecia morto dentro dela, embora ainda quisesse sair, empurrando e revirando seu estômago. O mundo rodava.
De repente, ele estava ao seu lado, nu, mergulhado em vergonha e humilhação, embora não tanto quanto ela sentia que estava. Clamava por seu perdão, bradando que não vivia sem ela, e todo o tipo de inutilidades parecidas. Ela foi inesperadamente tomada pelo ódio, apoderando-se de uma faca distraidamente pousada no mesmo balcão onde era necessário estar apoiada, se quisesse inclinar-se no parapeito da janela.





 Voltou à realidade com a força da chuva que passou a cair sobre sua cabeça. Aborrecida, ergueu os olhos para os pingos que caiam do alto, imaginando se poderia haver cena invariavelmente mais clichê do que aquela. Oscilou onde estava, subitamente consciente de que não tinha mais lugar para ir. Provavelmente haviam fechado sua casa, tontos com a quantidade de evidências que flutuavam por ali — as roupas ensanguentadas, os pertences da mulher que saíra correndo, na pressa e no medo ao ver a briga do casal, a faca, jogada de modo displicente na pia — em suma, o caos em escuridão que o lugar se tornara.
Ela ofegou, já encharcada. Olhou em volta, perdida, os sentimentos sufocantes reencontrando o caminho até sua garganta. Cambaleou até abaixo do toldo da loja de eletrônicos, procurando proteger-se da chuva nada conveniente. O fenômeno era tão denso que tornava trevas o seu campo de visão. “Trevas”, neste caso, significava não apenas ausência de luz, mas também uma perigosa facilidade de imergir em pensamentos mórbidos.





Segurava a faca com tanta força que seus dedos chegavam a doer uma dor assustadoramente deliciosa. Vez atrás de outra, o pedaço de metal perfurava carne atrás de carne, espirrando sangue nas paredes, na própria garota e na vítima que berrava, incapaz de se mover de tanta dor. A outra mulher, o motivo de toda aquela bagunçava, já havia se desculpado e fugido às pressas, deixando para trás todas as suas coisas, que, aparentemente, não eram suficientemente importantes para que ela se arriscasse a passar mais tempo naquela casa de loucos. Portanto, não havia ninguém para parar a namorada traída, ou ouvir os berros do homem que agoniava.
Golpe seguido de golpe, e não demorou muito até que ele silenciasse. Ainda assim, ela continuou esfaqueando-o, enlouquecida pela fúria de ter sido traída em sua própria casa... em sua própria cama! Só interrompeu a si mesma quando os braços cansaram o bastante para fazê-la parar, embora o instinto assassino ainda corresse por suas veias, misturando-se com a adrenalina. Seu lábio ardia, e podia senti-lo inchado; resultado do soco que recebera ao golpear o (agora “ex”) namorado na primeira vez.
Trêmula, lançando a faca na pia antes cuidadosamente limpa, encolheu-se no chão, abraçando as pernas com as costas encostadas no balcão. A adrenalina começava a dissipar-se agora que não mais possuía a arma em suas mãos, e a seriedade do que acabara de fazer passou a invadir-lhe a mente. Acabara de assassinar o namorado.... De fato o assassinara.
Curiosamente, não sentiu remorso, apenas um leve vazio.
O corpo, imóvel no escuro, atraiu seu olhar. Impossível resistir, sentiu cada célula do seu corpo voltar a tremer com veemência.





Seriam palpitações? Seu coração batia cada vez mais rápido e então diminuía o ritmo, oscilando constantemente entre um e outro. Talvez fosse a lembrança, o medo de estar perdida em um lugar desconhecido, ou apenas o fato de estar sendo procurada para interrogatório. Virando as costas para a chuva, pôde ver uma foto antiga sua, com o subtítulo na tela dizendo que haviam encontrado sua casa. Entrou em pânico.
Procurou a aliança no dedo, como sempre fazia quando estava nervosa. Então deu-se conta de que não mais a possuía, que o objeto agora jazia perdido em meio ao caos que se encontrava seu quarto. Seu quarto.... o cômodo no qual ela nem mesmo chegava perto desde que descobrira os dois. O pensamento de voltar àquela casa, àquele quarto, a enojava.





O que fazer agora? Não podia sair arrastando o corpo por aí, não tinha forças para isso. E, obviamente, não podia confiar em ninguém para lhe ajudar, porque ninguém seria capaz de entender. Ainda encarava o corpo, fascinada pela situação medonha na qual se encontrava. Sentia uma pequena vertigem, provavelmente causada pelo forte cheiro de sangue que se estendia pelo aposento até chegar na garota, impregnado em cada partícula de seu corpo.
Passou horas ali, cheirando a sangue e encarando um corpo sem vida, até que decidiu utilizar de suas próprias ferramentas. Um saco, um carrinho de mão e um lugar excepcionalmente afastado eram suficientemente perfeitos. Um plano razoavelmente bom. Era só pô-lo em prática.
Levou algum tempo para resolver levantar-se e dar seguimento ao padrão digno de filmes de suspense matar, esconder o corpo, destruir evidências ; estava hipnotizada. Havia uma beleza sobrenatural naquele cadáver mutilado; mórbida, é verdade, mas bela.





Demorou muito tempo até que a chuva diminuísse o suficiente para que fosse possível encontrar a lua em meio às gotas que eram atraídas em direção ao chão. Neste meio tempo, ela reviveu suas lembranças, sentindo o peso morto em seus ombros. A ausência da aliança a fez ofegar mais uma vez, fazendo-lhe sentir remorso pela primeira vez desde que cometera o crime.
Por que fizera isso, afinal de contas? Ele fora seu melhor. Aquele com quem de fato cogitara a idéia de casar-se, envelhecer junto. E, de repente, tudo estava destruído por conta de ciúmes, de uma irracionalidade por sua parte. Nunca fora capaz de controlar seu gênio, embora admitisse que as circunstâncias nunca haviam chegado a nível tão crítico.
Odiou-se momentaneamente, repetindo várias vezes a mesma dúvida, torturando-se por tê-lo matado. Talvez a corrida tenha sido o que lhe proporcionara uma dose de consciência, mas agora ela sentia, depois de duas semanas no vazio. Sentia falta dele, de seu toque, de sua companhia, do tom que utilizava para pronunciar seu nome...
Ela voltou o olhar para o pedaço de céu que era possível visualizar, abrindo ligeiramente a boca, como se pronta para falar com Deus, ou o que quer que fosse que os religiosos acreditavam. Nunca fora religiosa e não acreditava nessas coisas, porém o impulso quase foi mais forte. No último momento, contudo, mudou de idéia.





Fora um dia quente, e uma noite ainda pior. Dirigira o corpo até um deserto a alguns quilômetros de sua casa e decidiu que encontraria um lugar para jogá-lo por ali. Não o enterraria não tinha tempo para isso.
Fez o que pôde para tirar o carrinho de mão de dentro do próprio carro e andou um bocado até achar um local satisfatório. Deixou-o no mesmo lugar, junto ao carrinho; já cansada, retornou ao carro, olhando nervosamente por cima do ombro e para os lados, temendo que alguém estivesse à espreita.
Tudo o que conseguia pensar no caminho de volta era em como limpar a casa, destruir as evidências e voltar à sua vida ordinária, como se nada houvesse acontecido, como se... como se ela e o namorado tivessem discutido e ele resolvera deixá-la. Ao chegar em casa, porém, perdeu as forças. O lugar estava um caos, e ela sentia-se esgotada.
Foi direto ao sofá, e ligou a televisão, visando um pequeno descanso antes de dar início à limpeza.
E ficou por ali.





Uma viatura passou fazendo barulho, e ela sentiu que poderia ter tido um ataque cardíaco naquele momento. Foi o medo de ter sido descoberta que lhe garantiu que não iria se entregar. Afinal, o que havia para lembrar sobre ele enquanto estivesse na cadeia? Ao menos, enquanto estivesse livre, poderia caminhar nos lugares em que estiveram juntos, revivendo a época onde tudo era perfeito e não havia um desejo assassino pulsando em seu sangue toda vez que o tocava.
Percebeu que agora o odiava tanto quanto o amava.





Após alguns minutos que a viatura passou, ela resolveu que já não era mais seguro — se é que já havia sido honestamente seguro — ficar ali. Rumou para a direção contrária do carro, de volta do caminho de onde lembrava ter vindo. Andou e andou sem reconhecer o local; chegara ali, mas não tinha idéia de como o fizera. Estava, literalmente, perdida.
Procurava manter a cabeça baixa, já que agora, por causa da chuva, estava mais limpa e quiçá facilmente reconhecível, levando em conta sua foto espalhada por todos os telejornais que comentavam sobre o assassinato.
Só percebeu aonde ia quando reconheceu uma rua não muito afastada de sua casa; a Rua Principal. No fim dela, erguendo-se de modo estranhamente majestoso para aquele tipo de construção, estava a delegacia. Ela engoliu em seco. Escorregou a mão para o bolso e engoliu uma mão cheia dos comprimidos que comprara minutos atrás. Não sabia quanto tempo levaria para que fizessem efeito, mas esperava que fosse o suficiente.
Parou na calçada, encarando o topo do prédio que parecia encará-la de forma intimidadora. As janelas eram como olhos cruelmente fixados em si, atraindo-a de modo sinistro para seus interiores.
Quando notou, já estava lá dentro, apertando os braços sobre o peito enquanto observava o vai-e-vem dos policiais atarefados, muitos com os braços carregados de arquivos, outros atendendo telefones e um grupo adiante, criando esquemas num quadro branco e discutindo abertamente sobre um assassinato. O assassinato. Ela viu seu nome escrito no tal quadro e sentiu uma leve vertigem. Mantinha-se, contudo, no mesmo lugar.
No fundo, esperava que ninguém a notasse ali.
Mas é claro que a notaram.





— Desculpe, moça. Posso lhe ajudar em alguma coisa? — um policial jovem, poucos anos mais velho do que ela, se adiantou. Possuía olhos bondosos e escuros, um cabelo loiro caindo sobre seus ombros e os braços musculosos carregavam pilhas de papéis. Dando uma olhada rápida em um deles, viu o nome do (ex, ex!) namorado no topo, o que a fez perder a voz por um momento e o policial suspirar levemente, deixando escapar o tom de impaciência. Loucos, sempre aparecem os loucos para perder nosso tempo, pensou. Como se não tivéssemos coisas mais importantes com as quais nos preocupar. — Como pode ver, estamos um pouco ocupados, então...
Ele se preparava para expulsá-la gentilmente e sugerir que voltasse num outro dia, quando ela subitamente ergueu os olhos, levando uma mão à camisa do loiro atônito. Três palavras saíram de sua boca, que, quando processadas pelo jovem policial, o fez derrubar os arquivos no chão, que se espalharam para todos os cantos — era apenas papel e ninguém notou. No entanto, ele, no mesmo momento, agarrou o braço da mulher, devidamente consciente do que ela acabara de confessar.
Por um momento, quase não acreditou — mas avaliou seu rosto e constatou que era o mesmo da foto que enviaram para que os telejornais circulassem.
Estava estupefato.





Estavam todos à sua volta, olhando-a, chocados. Ela não gostou. Sentiu-se como um animal num zoológico. Havia um toque de humilhação naquela situação e ela mexia-se desconfortável na cadeira dura de madeira em que a fizeram sentar. Esperava a pergunta que sabia que fariam. E ela veio.
— Por quê? — um deles perguntou. O engraçado da situação era que ninguém parecia ter de fato processado que a assassina que todos procuravam havia acabado de se entregar e estava ali, parada. Aparentemente calma.
Ela deu de ombros, procurando passar uma imagem de displicência. Uma máscara, uma atuação. Na verdade, sentia que as pílulas começavam a fazer efeito; suas mãos tremiam.
— Ele me traiu.
A resposta pareceu suficientemente aceitável aos seus ouvidos. Percebeu, contudo, que para os policiais, soava com maluca. Completamente insana. Ela esperou.
— E por que está se entregando agora? — aquele que havia notado sua presença falou. Seus olhos não saíram do rosto dela em momento algum, desde que ela confessara. Eu o matei, dissera. As palavras ecoariam na mente do jovem pelo resto de sua vida, não tanto por sua essência, mas pelo tom com o qual foram pronunciadas.
— Não acho que teria satisfação matando outra pessoa, vocês sim? Minha adrenalina veio e evaporou-se com ele. — Parecia a resposta certa. Se o era, no entanto, nunca saberia. As pílulas fizeram efeito antes que qualquer outro policial pudesse abrir a boca para uma nova pergunta, e ela viu mais do que sentiu as convulsões tomando conta de seu corpo.
Os policiais mais próximos pularam em sua direção, procurando salvá-la, resgatá-la daquela saída tão fácil. Mas ela não queria ser salva e tomara as medidas necessárias para que fosse direto para o Inferno, que era o lugar onde pertencia. Uma vez que engolira as pílulas, não havia mais volta. Seu sistema já estava todo destruído.
— Vendo por um lado... pegamos nossa assassina. — Murmurou um policial que se encontrava no fundo da sala, assombrando-se com a própria frase. Seus olhos azuis cintilantes estavam grudados nela.
O de cabelos loiros assentiu, mudo, soltando o punho sem pulso da mulher.

sábado, 13 de novembro de 2010

Hate is What I Am

Era nojento.
O modo que eu me sentia era repugnante. Inferior, desprezível. Corria-me por dentro como um verme, infectando meu organismo pouco a pouco. Destruía-me de dentro para fora, ainda que eu fizesse todo o possível para evitar que o sentimento transparecesse em minha face. Eu sorria, eu disfarçava. 
Às vezes eu achava que dissimular era um de meus talentos. 
Sentia nojo de meus sentimentos caluniosos que formavam pensamentos recheados de escárnio que aparentemente procuravam apaziguar o tormento. Criavam garras. Arrastavam-se lentamente pelo meu corpo, tomando-me por sua, criando raízes em suas próprias raízes.
Toda minha vida fui perseguida por estes vermes, que utilizavam dos momentos em que minha auto-estima encontrava-se mais baixa do que geralmente é, incrementando meu ódio por mim mesma, alimentando o monstro que, tenho certeza, um dia virá a me destruir. Era a inferioridade, o desprezo por mim mesma, alimentando a bolha que me separava de quem me amava.
A bolha trabalhava em conjunto com os vermes, conspirando contra mim. Prendiam-me, isolando meu ser do contato agradável com os outros, visando meu extermínio. Eu não compreendia as razões para tanta animosidade, contudo já não havia em mim entusiasmo suficiente para proferir as perguntas, perseguir as respostas. 
Eu era fraca. Facilmente acessível para estes sentimentos, naturalmente fadada a sentir-me destas formas. Um alvo fácil, um patinho parado. Eles me alcançavam e me dominavam com tal naturalidade que é de se pensar que eu já era programada para isso. Um fantoche. 
Eu não merecia os amigos que possuía, o amor que lançavam em mim. Não me sentia no direito de receber o que eles pensavam que eu merecia. Por dentro, eu era suja, repugnante, vil. Possuía um parasita dentro de mim. Ele falava. Possuía língua e garras afiadas. Rastejava dentro de mim, deixando um rastro de repulsa. Eu estava infectada por ele. 
Vomitava ódio, levando-me à loucura da infecção, ao desprezo profundo. E o verme alimentava-se deste mesmo sentimento, criando um ciclo interminável, nauseante.
De vez em quando, ele se acalmava. Hibernava. E eu voltava à minha vida medíocre, exagerando na ilusão da felicidade. Até que, movida por um mínimo detalhe, a mais débil faísca, o verme acordava, retomando sua dança da morte.
Porque eu sentia como se estivesse morrendo, definhando.
Chorar não adiantava. O sentimento continuava ali, sufocando-me, consumindo-me. Criava vertigens, pensamentos delirantes. E, de repente, a fantasia de mirar uma arma em meu próprio crânio ou tomar uma overdose de bebidas e pílulas já não me pareciam idéias tão mirabolantes. 
Não era crise. Havia algo de errado no modo com o qual eu enxergava os outros, no modo que eu me sentia. Enclausurada. Sentia-me como se houvesse outra pessoa dentro de mim, completamente o oposto do que eu procurava demonstrar aos outros.
Porque o meu verdadeiro eu — aquele atormentado pelos vermes, pela bolha e pelas fantasias suicidas — era sórdido. Horripilante demais, até para mim mesma.
Duvidava que os outros percebessem. Porque eu era boa demais em dissimular, e minhas desculpas deformadas em mentiras tomavam forma de verdades convincentes, acompanhadas de um sorriso sem graça.
E às vezes eu me perguntava se eles acreditavam em mim porque eu era boa atriz ou porque não se importavam de verdade.
Contudo, no fundo — em algum ponto entre o rastejar do verme e a dor que assolava meu coração — eu sabia que não importava.
Nunca cutuque um dragão adormecido. Porque ele pode acordar. E ninguém — ninguém mesmo — seria beneficiado com o resultado.
Em suma, eu tinha medo de mim. Medo do que era realmente. Medo da força que este verdadeiro eu poderia ter. E eu tinha esperanças que este eu permanecesse bem guardado no fundo de minha alma. Pois eu sabia que, no momento em que ele se mostrasse, eu perderia tudo.
Acho que isso me transformava em uma pessoas "duas caras". Mais um item em minha lista de pensamentos desagradáveis.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Revenge

Dez segundos.
Ele respirou fundo, tomando o aparelho nas mãos e mirando seu alvo.
Sete.
Por que todos pareciam encará-la?
Quatro.
Mirou, paralisando-se naquela posição.
Dois.
Era hora. Prendeu a respiração.
Um.
Atirou. Atingiu.

Vingança.

Berros, choros. Cheiro de sangue.
Haviam testemunhas.
Foi sua vez de levar um tiro, disparado de algum ponto entre os generais que mantinham guarda a poucos metros de onde ele se encontrava.

Então veio a dor.  Mais dez segundos.
Sentiu frio.
Veio a escuridão, e somente ela.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

You're My Heroin

Ela girou a seringa nos dedos, os olhos fixos num ponto invisível da parede. Fazia uma contagem.
Um... dois... três...
Por um lado, queria ter esperado até chegar no cinco. Por outro, era melhor ir de uma vez. Aquela era a parte mais desagradável, até porque haviam pessoas por perto. Passavam, encaravam.
É a porra da minha vida. Por que não podem fingir que não vêem?, foi o último pensamento antes de enfiar a agulha na veia e injetar o líquido. 
Libertação. Não precisou esperar muito, e o mundo, de repente, se transformou num lugar melhor. Mais bonito, mais paciente. Melhor. A parte ruim, no entanto, seria não lembrar-se disso na manhã seguinte.


Acordou em sua própria cama, com as roupas rasgadas. Sua cabeça parecia a ponto de explodir. Podia sentir o estresse subindo pela sua garganta, rasgando sua pele. O efeito passara, é claro.
Chutou o cobertor para fora, sentindo calor. O quarto era abafado, escuro. O que era ótimo, tendo em vista que ela sabia que qualquer ponto de luz poderia fazer seus olhos saltarem para fora das órbitas.
Com cuidado, ergueu-se da cama, tateando pelas paredes em busca da maçaneta da porta. Quando a encontrou, suspirou de alívio, pulando para fora do quarto quente.
Banheiro, precisava de um banheiro.


Não sabia quando tempo ficara dentro daquela banheira, apenas sentindo a água penetrar em cada poro de seu corpo. Tinha certeza que tivera outro blackout. A água, que inicialmente se encontrava gelada, agora esquentara.
Arrastou-se para fora da banheira, encarando seu reflexo no grande espelho que ocupava a parede inteira imediatamente à sua frente. Torceu o nariz para a imagem, sentindo nojo; aquela garota magra, pálida, de olheiras fundas e cabelos escuros sem vida não era uma visão que ela poderia considerar atraente. Virou as costas, enrolando-se na toalha.


Não via finalidade em arrumar a casa ou a si mesma, tendo em vista que não deixaria o local. Comprara, na noite passada, estoque suficiente para mais ou menos uma semana, caso soubesse exatamente como controlar as doses. Havia comida e dinheiro suficientes dentro da casa, o que significava inutilidade em sair para qualquer canto que fosse.
Ainda estava nua, jogada no chão e enrolada naquela toalha quase encardida, encarando o teto. Via os minutos e as horas passarem por ela, arrastando-se como vermes nas paredes. Por vezes, imaginou que os sentia subindo também por seu corpo. Mas não se mexeu. Sabia que era uma sensação passageira.


O telefone tocou, aquele som irritante que parecia quebrar as paredes de seu crânio, fazendo-o gemer como se fossem as extremidades de um sino.
Com um gemido, ela cobriu a cabeça com a toalha, consequentemente descobrindo a parte inferior de seu corpo. Sentiu frio e começou a tremer, embora duvidasse que fosse por causa do ar gélido que flutuava pela janela minimamente aberta. Tocou a própria pele, convencida de que a culpa era toda e somente da heroína.
O frio atingiu seus ossos e ela achou que ia morrer. A dor era insuportável; ela não resistiu e gritou.
Ninguém a ouviu, pois não havia ninguém ali.


Quando acordou, ainda haviam frestas de luz penetrando timidamente o quarto escuro. A dor havia passado, porém ela continuava sentindo-se fraca, muito fraca. Tentou levantar-se usando os braços como apoio, mas quase caiu com o rosto voltado para o chão. Tentou novamente e viu-se de pé, esquecendo a toalha no carpete nojento.
Havia outro espelho naquela parede. Pra que tantos espelhos?, pensou com repugnância ao encarar novamente a própria imagem refletida. Não conseguia recordar-se das razões que a levaram a inundar o apartamento com espelhos. Afinal, eles de nada serviam a não ser lembrá-la da vida desprezível que levava.
Pela primeira vez em muito tempo, resolveu avaliar o reflexo do espelho. Foi aterrorizante, mas ao menos permitiu que ela examinasse a própria imagem, ainda que esta estivesse um tanto desfigurada por conta da expressão de repulsa em seu rosto.
Estava puro osso, completamente fraca. Sua face pálida lhe dava a aparência de doente, contrastando com as olheiras profundas nos olhos escuros. Sua boca, seca e rachada, parecia uma linha fina, e seus cabelos, também secos e sem vida, pendiam oleosos sobre o rosto, escondendo-o.
Era a ilustração do vício, o reflexo da heroína.
Com nojo de si mesma, e com ódio da imagem, ela agarrou um abajur próximo e ele logo voava de encontro ao vidro.


Mais um blackout. Já estava se tornando irritante.
Novamente jogada ao chão, virou-se de lado, imediatamente encarando a única parede em todo o apartamento que não estava nua, mas sim coberta com uma colagem mal feita de fotos alegres, todas com as mesmas duas pessoas. Ou melhor, a mesma garota e o mesmo rosto queimado com cigarro.
Por toda a parede, aquelas fotos que um dia retrataram uma felicidade a dois, agora mostravam apenas um rosto feminino sorridente, abraçando, beijando ou apenas ao lado de um garoto cujo rosto já não era nada mais que um ponto queimado.
A visão a fez chorar como raramente chorava, afogando-se em lágrimas que expressavam uma mistura de sentimentos tão intensa que ela já não mais sabia diferenciar um do outro.



Quando conseguiu levantar-se de novo, após acordar mais uma vez, sua cabeça já não mais doía, sentia-se um pouco mais forte. O alívio.
A primeira coisa que fez ao reparar que conseguia andar e que a tremedeira passara, foi pegar novamente a seringa.


Para voltar ao ciclo, tudo de novo.