domingo, 31 de julho de 2011

Promise?


She just knew it had to be done. Every step she’s taken since she left her house two hours ago led her to that place. She took a deep breath once she got to the gates of the city’s cemetery and looked right to the one grave which could be seen rising to the sky. It was the biggest grave in the cemetery for the body that has been decomposing in there was one of the most loved people in the city.
That was not the grave Alice wanted to visit, though.
Her feet led her to the furthest grave in the cemetery. It was almost completely isolated, with a few trees rounding it. Since it was winter, there were snow on the floor and no flowers on the trees. It was a depressing scene, which made her feel like she was in the right place. So, she kneed in front of the grave and touched the thin coating of snow which covered the name in the grave.
She said nothing for a long time, just standing there, looking, thinking and wishing. The memories seemed to come back at once, making her feel dizzy like she was hit by the strength of the memories.


“Why are you doing that?”, she asked, smiling. She was so used to smile and she loved to because she knew that her smile could make Emily smile. And Emily’s smile was the most beautiful thing in the world.
Emily did smile and hold the candle away so she could lean and kiss Alice’s lips. Then, she put the candle on a saucer and put the saucer at the windowsill. She never realized how close the flame was to the curtains. “I want you to see something. Turn off the lights, will you?”
So Alice did and then walked to Emily’s side when she pointed to the ceiling. She was so proud! She’s spent the whole day putting little plastic stars on the ceiling, so Alice, who was in love with Astrology, could have her own little piece of heaven when she came to visit.
But Alice never saw the stars. When she looked to Emily’s face, something made her look to her neck. And she could see this thinning scar. She knew right away what is was about for Emily’s told her about her depressive thoughts. Alice panic. She turned so quickly, ready to yell at Emily, she accidentally pushed the girl, who dropped the candle on the curtains.
The three following hours were a mix of fear, fire, tears and screams. Emily didn’t make it and Alice was lucky she survived.


Two years later and Alice was still crying, feeling the blame that never let her go. One hand touching Emily’s name, she raised the other hand and touched the scars the fire left on her face. She could still hear the promises they’ve done.


“Promise you’ll always love me, even if we broke up one day?”, Emily just had another of her crisis, she cried the whole day on Alice’s shoulder.
“I promise”, said Alice, hugging her strongly.
“And if I die before you do, promise go to my grave at least once a month? Just to talk to me, in case afterlife is too scary?”, Emily kept going, weirdly. Alice did not like that conversation, but she loved Emily.
“I promise to go every week.”


Two years later and Alice kept her promise. After holding up for an hour, she sat in front of the grave and took another deep breath.
“I’m here”, she said always looking to Emily’s name.
She felt the soft wind blows on her face, soft like a kiss, and smiled.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

I Don't Want You To Go


Ninguém mais suportava observar o sofrimento que a afligia. Durante dias e durante semanas a dor dela emanava de seu corpo e poluía o ar, impregnando na pele daqueles que tinham a infelicidade de encontrar-se no mesmo recinto que a enferma. Sorrisos falsos e lágrimas reprimidas eram lançados de um lado para o outro, dissimulando a dor de uns e o desejo de morte da outra. Todos respiravam o ar pesado, jogando para seus próprios pulmões a atmosfera cancerígena, cometendo suicídio involuntário aos poucos. Alguns, em seu íntimo, rezavam para que a dor daquela que repousava na cama desaparecesse; outros, embora nunca admitissem, desejavam que ela fosse livrada da dor, de preferência sendo levada desta vida.
Ela, por sua vez, procurava ser forte. Até então os entes queridos haviam testemunhado três lágrimas solitárias escorrendo por sua face, antes que ela utilizasse de sua armadura, escondendo o receio e a aflição por trás da expressão determinada. Nos raros momentos em que se via desacompanhada, todavia, permitia as lágrimas quentes tomarem espaço, libertando todo o seu sofrimento antes de se ver compelida a transformar novamente seu semblante naquela máscara de determinação.
Entretanto, como obrigar a mais jovem dentre tais criaturas a conservar postura destemida? O fedor da Morte à espreita invadia suas vias respiratórias e, ao chegar em sua garganta, apertava-a com força, provocando a saída das lágrimas, ferindo sua laringe. A visão daquela cama tão branca ocupada por corpo tão frágil era demasiadamente fúnebre para o seu coração suportar, ainda que este fosse inegavelmente espinhoso, e a troca de olhares já não possuía o mesmo sabor de cumplicidade quando um dos pares de olhos se fechava com dor enquanto o outro marejava com apreensão.
A simulação de felicidade e despreocupação teve data de validade. O último suspiro daquela que tentava ser forte aconteceu misteriosamente acompanhado de um pequeno sorriso que parecia repleto de esperança, quiçá pelo fim de situação tão enfadonha. Seu peito relaxou com seus músculos e, quando o aparelho conectado a seus pulsos fez um som ininterrupto, o ar pareceu amenizar imediatamente.
Beijos foram depositados na testa da mais nova defunta, e os parentes abraçaram-se entre si, cada qual buscando seu próprio consolo. A do coração espinhoso pareceu chorar mais do que qualquer um, a presença da Morte afundando seu coração no peito e fazendo-o doer. Aproximou-se e se inclinou sobre o cadáver de forma a encostar seus lábios na pele enrugada, procurando palavras de adeus em meio à sua mente, tão cansada.
— Espero que esteja bem agora.
Um frio percorreu sua espinha e brisa que soprou em seu rosto, acariciando-o com leveza, pareceu-lhe uma resposta satisfatória.

Catalepsy


Não conseguia se mexer. As paredes estavam firmes e suavemente grudadas a seu corpo, e, como um amante, segurava seus braços na posição em que estavam, presos ao lado de sua própria carne. Tentava se mover, mas suas tentativas eram inúteis e seu corpo começava a doer, enquanto sue cérebro ainda tentava assimilar a situação na qual se encontrava. Não estava totalmente escuro – havia uma fresta, mas parecia perto demais de seu rosto, o que aumentava sua aflição.
Como fora parar ali?, era o que se perguntava. Recordava-se apenas de estar discutindo com Elliot sobre... o que mesmo? Um motivo estúpido, tinha certeza. Então lembrava de o mundo apagar e ele acordou onde estava. O que era aquele lugar?
Ao menos a fresta, pela qual passava uma luz como o sol escaldante no meio da escuridão, permitia-lhe obter um pouco de oxigênio; do contrário, ele tinha certeza de que morreria sufocado naquele espaço mínimo.
Seria uma brincadeira de mal gosto? Talvez Elliot estivesse mesmo irritado e, sendo vingativo como era, teria inventado aquele jogo, aquela peça. Seu corpo relaxou por um momento, o sangue correndo um pouco mais devagar. Sim, com certeza era nada mais que uma brincadeira, e logo Elliot estaria de volta para salvá-lo porque Elliot sabia sobre a claustrofobia, não? Sim, sabia. Eles conversavam sobre tantas coisas diferentes, e fobia fora um dos assuntos uma vez discutidos. Patrick contara tudo sobre seu maior medo que começara aos 7 anos de idade, e mesmo que Elliot parecera distraído e avançara em Patrick apenas poucos segundos depois de este terminar a historia, levando-os a passarem uma noite intensa de amor, Patrick estava certo de que o outro prestara atenção. Claro que sim.
Esta era a provável idéia que Elliot possuía de uma punição para a discussão dos dois. Logo ele retornaria de onde quer que estivesse, e ambos dariam risadas sobre o ocorrido e então ocupariam a cama de Elliot com uma paixão ardente um pelo outro.
Parecia, porém, estar demorando um bocado.
Engoliu em seco. Ele vai aparecer.









Quanto tempo mais? O ar, mesmo que passando por aquela pequena fresta, já parecia tornar-se rarefeito e o fato de não poder se mover apenas agravava a situação. Podia sentir o começo de seu ataque de pânico ali, à espreita.
As paredes estavam se fechando em sua volta e ele sentiu medo de fechar os olhos, sabendo que o ato de nada adiantaria. O próximo passo seria o desespero e então ele precisava que Elliot aparecesse logo. Talvez ele tivesse perdido a hora, só isso. Nada mais.
Sua cabeça rodava, seus músculos doíam. Continuava a tentar se mover, conseguindo apenas deslocar o corpo milímetros para o lado, e a cabeça da esquerda para a direita, mas as paredes estavam muito próximas, assim como o teto, e a sensação de não poder respirar era terrível. Nenhum som chegava aos seus ouvidos e a sensação era de que o mundo fora de seja-lá-onde-se-encontrava havia acabado, sumido. Desespero.









Sua perna tremeu, uma reação violenta à sensação de algo rastejando em sua pele. Experimentou erguer a cabeça, mas seu pescoço estava rígido e, mesmo assim, o teto parecia baixo demais. A angústia cresceu dentro de si quando ele se deu conta de que não saberia o que dividia o espaço consigo. Sentiu um nó se formar em sua garganta quando a sensação de claustrofobia apertou-se em seu íntimo.
De repente, um barulho no teto. Como algo caindo, talvez? Então algo tampo um pedaço daquela única fresta existente e a realidade da situação abateu-o mais uma vez.
Elliot... – sua voz saiu assustadoramente rouca. – Elliot!
Nada. Por um longo espaço de tempo, um nada gigantesco preencheu o seu eu.









O som de coisas caindo no teto continuava. Todavia, era um som suave, fraco, ainda que assustador. Patrick imaginava que era apenas a sua curiosidade sobre o que caía acima de sua cabeça que o impedia de mergulhar imediatamente em um intenso ataque de pânico, até que algo caiu da fresta direto em se rosto. Agoniado, ele balançou a face de um lado para o outro, não sem antes identificar o material.
Terra.
Inspirou fundo, talvez fundo demais, e sentiu uma tontura tão forte que imaginou que fosse desmaiar. Faltava-lhe oxigênio. O som continuava, e talvez fosse porque ele agora sabia do que se tratava, mas Patrick achou que já era incapaz de respirar, e que o som da terra estava mais alto.
Como Elliot pôde? Aquilo era nada mais que tortura, que um crime no mínimo hediondo. Não fazia o menor sentido que ele estivesse ali, preso, trancado como um criminoso.
Começou a passar mal, muito mal.









Nunca tivera um ataque de pânico como aquele. Ergueu as mãos o máximo que conseguiu, provando que estava certo quando imaginou que o lugar era realmente pequeno. Suas mãos socaram e arranharam o teto, sua boca se abriu em uma furiosa tentativa de berrar, porém sua voz recusava-se a se fazer ouvir. Começou a ofegar e seu peito doía com o esforço e o mundo começava a escurecer devagar e ainda (aquele som!) podia sentir pequenos movimentos em volta e embaixo de seu corpo, dando-lhe a sensação de estar deitado em algum tipo de areia movediça, mas não, os contatos com a sua pele eram vivos e repugnantes demais, e ainda tinha aquele silêncio que penetrava seus tímpanos, o horror pegajoso e palpável da solidão, que já formava uma crosta em sua pele.
O pouco ar que lhe restava era tão pesado! Suas mãos pareciam cada vez mais difíceis de manter no ar e o som de suas unhas arranhando e ferindo a madeira era repulsivo! Suas entranhas reviravam com a dor cada vez que as lascas penetravam mais fundo em sua pele (e como sangrava!) e seu corpo aprisionado contorcia-se em agonia. Lágrimas anormalmente quentes rolavam pelo seu rosto, como se também procurassem liberdade.









– O que lhe perturba? – Indagou Elliot com uma expressão séria, brincando com o cabelo arrepiado no topo da cabeça de um Patrick que suspirava.
– Nada. Eu só estou... anormalmente feliz – respondeu, medindo as palavras antes de soltá-las, uma de suas mãos subindo pelo braço do namorado. – Isso me assusta.
Elliot moveu-se com tal rapidez que a mão de Patrick pendeu no ar por um momento, até que ele lentamente a abaixou, seus olhos tão verdes fixos nos azuis do namorado.
– Do que está falando? Por que te assusta? – e seus olhos pareciam tão brilhantes naquela meia-luz que Patrick precisou de um momento para se recompor da paixão repentina que assolou seu íntimo. Quando voltou a si, ergueu os olhos para o teto e não pretendia responder, mas Elliot inclinou-se, tocando os lábios nos de Patrick e falando em seu ouvido. – Sabe que pode me contar qualquer coisa...
Então as palavras encontraram seu caminho, uma a uma. Primeiro eram cautelosas, hesitantes, cada qual colhida com cuidado. Porém, quando se lembrou de sua infância e dos diversos motivos que o levava a sentir medo naquela hora, na cama com Elliot, um filme passou em sua cabeça e ele vomitou as palavras, cada vez mais rápido então, mais apaixonadamente, intenso como a primeira noite de amor que tiveram juntos. Pela primeira vez não chorou ao narrar seus medos; sentia-se anestesiado por ter posto tudo para for, e seus olhos encontraram os de Elliot ao pronunciar o maior medo que sentia naquele momento.
– ... além disso, receio que a qualquer momento você poderá acordar, olhar para mim e descobrir que não me ama de verdade.
Houve um silêncio medonho que se arrastou por dois longos minutos, enquanto o outro absorvia a história. Verde no azul, ambos brilhavam travando uma luta violenta, fascinante e muda. Durante este tempo, Patrick pôde jurar que falara demais; os horrores do seu passado que fizeram-no crescer aquele garoto recluso e deprimido pareciam terríveis de se guardar, mas ainda piores para serem depositados nos ombros de um outro alguém, mesmo que este fosse alguém forte como Elliot.
A reação, entretanto, foi inesperada. Elliot virou o corpo de forma a ficar por cima de Patrick, roçando seus lábios contra a pele do pescoço do outro. Deitou, então, sua cabeça sobre o peito do namorado e o envolveu em um abraço apertado, confortante. Seu rosto era invisível para Patrick, mas a voz rouca flutuou até seus ouvidos.
– Nunca vou deixar de te amar.
E Patrick chorou lágrimas de alegria, pela primeira vez.









Todavia, as lágrimas que agora secavam no rosto de Patrick provinham de seu mais sincero desespero, da agonia de presenciar seus maiores medos tornando-se realidade. Em sua cabeça passavam os mais distintos flashes de sua vida, cada vez mais rápido enquanto respirar tornava-se cada vez mais difícil. Sua aflição crescia à medida que ele notou que a pequena fresta que antes lhe fornecia luz e oxigênio agora estava totalmente coberta de terra. Cada um de seus músculos estavam rijos e Patrick finalmente conseguiu emitir um som (abafado, ninguém pode te ouvir) quando virou a cabeça para a esquerda e viu-se encarando um verme branco e gordo, contorcendo-se de forma nojenta enquanto se locomovia diretamente para a boca aberta do homem, que engasgou e cuspiu.
Por Deus, como era clichê aquele sentimento! Recordava-se de tantos detalhes que jurava ter esquecido e agora sentia-as em sua pele, cada momento: a primeira vez que andou de bicicleta; seu primeiro beijo; o dia em que seu pai se aproximou com um olhar diferente no rosto e um olhar malicioso enquanto começava a acariciar a coxa de Patrick; o dia em que seu hamster morreu; suas brigas na escola; o dia em que finalmente se revoltou contra seu pai; os gritos com cheiro de álcool que sua mãe lhe dirigia; a primeira vez que dirigiu.
Sentiu sua consciência esvaecer aos poucos e tinha que admitir que era uma sensação gostosa. Agarrou-se às lembranças boas, concentrando-se naquelas que centravam em Elliot, na sensação de suas peles unidas, de seus olhos fixos uns nos outros. Uma pontada no peito lhe revelou o quão magoado estava, contudo, e lamentava que seus últimos sentimentos estivessem tão misturados.
Estava tremendo com violência e sentiu o lugar diminuir e sufocá-lo até que não sobrasse uma réstia de ar.

















– Do que você está falando?
Sua voz saiu trêmula. Seus punhos se fecharam e Elliot ergueu os olhos para um Dr. Gabriel aparentemente envergonhado, torcendo as mãos sob o jaleco. Os olhos de Elliot estavam vermelhos e inchados, provas de noites sem dormir, apenas revivendo aquele momento terrível, quando Patrick caiu no chão.
– Catalepsia? – Tentava infligir calma na própria voz, mas agora ele mesmo tremia, uma impressão odiosa crescente em seu estômago e borbulhando, subindo como ácido pela sua garganta. Não, não podia ser...
– Reabrimos o caixão, como você pediu, e, bem... a visão não foi nada agradável e precisamos de apenas alguns testes para descobrir a doença... sinto muito, se soubéssemos mais cedo...
Mas Elliot não estava ouvindo. O mundo deu voltas e mais voltas e ele mal sentiu o baque quando seus joelhos foram de encontro ao chão. Também não sentiu quando seu estômago se contorceu e o vômito escapou por entre seus lábios, pintando o chão antes limpo do hospital. Não sentiu o cheiro azedo que invadiu suas narinas, muito menos as mãos quentes do Dr. Gabriel, puxando-o para cima e guiando-o ao sofá. Não. Sua mente estava ocupada demais com o horror da cena que imaginou. Patrick. Sozinho. Enterrado. Vivo.
Ergueu-se tão rapidamente que seu cérebro perdeu parte do oxigênio e o fez cair de volta no sofá.
– Quero vê-lo. – Seu tom de voz não deixava espaço para discussão, mas ainda assim o médico quis interferir.
– Elliot...
Não pôde completar a frase, porém, porque o homem correu para a porta do legista no momento em que recuperou o controle do próprio corpo. Ignorando a sensação de anestesia e os gritos dos médicos que ultrapassava, entrou no local em que Patrick jazia.




Morto.




Reprimiu um uivo. Não havia dúvida de que ele fora de fato enterrado vivo. Suas unhas quebradas e com sangue seco, seu rosto sujo de terra e o pior, seus olhos arregalados em pânico.
Claustrofóbico, ele era claustrofóbico.
Elliot gemeu, as pernas bambas, e se aproximou do cadáver do namorado. Seus joelhos fraquejaram e, mais uma vez, ele caiu.
Catalepsia...
Foi a vez de Elliot chorar lágrimas de um coração despedaçado.


terça-feira, 22 de março de 2011

Sanatorium


Um, dois, três. O choro de uma criança. O luto. O silêncio profundo, forçava os tímpanos. O balançar ininterrupto, para frente, para trás, de volta para frente. A fixação. Os resmungos. O som de um crânio rachando em contato com a parede. As risadas incontroláveis. O medo, o ódio. A escuridão interna.
Sangue jorrava de seus olhos. Uma, duas, três poças. Desenhos no chão, a tinta vermelha. Olhos caídos, vagos, mortos. A dor transformada em rio, o cheiro de morte. Arrepios na espinha, frio na barriga. Alucinações. Lembranças de uma vida que nunca existiu. O brilho tentador da faca, tão fora de seu alcance. O desejo, reprimido há tanto tempo.
O estopim, a última ofensa. O olhar no espelho debochava. A repugnância fervendo em seu íntimo tem sua erupção. Cacos quebrados, cacos presos na mão. Pontas afiadas cavando fundo na carne, pinicando, ardendo. Matando. O berro violento, a ruptura na garganta. O choro incontrolável, desesperado. Vozes em sua cabeça, insultos, destruidores de esperanças. Monstros no espelho, revelando a face escondida, nojenta. Solidão que doía. Fantasmas do passado, retornando para assombrar. Corações despedaçados, confiança quebradas, sobrecarga.
Um, dois, três. Gritos vindos de outras portas, silêncio sendo clamado. Perigoso. Letal. O mundo frio, pegajoso. Olhos ardentes, o alçapão aberto do inferno.
Ignorância. Sentimentos. Julgamentos. O todo em um nada, o medo de se conhecer. A força da dor.
A faca mais próxima. A hesitação inicial, tímida. O prazer iminente, os olhos desfocados, os pensamentos confusos. Múltiplas tentativas. O arrastar, tão lento. Obscena anestesia.
Soava fútil, aquela paz.