A noite terminava em fogos, risadas e copos quebrados. Os convidados retornavam às suas respectivas casas, trançando as pernas, embriagados pelos inúmero copos de vinho, licor, champagne e cerveja. A noite estava bonita, e o céu limpo deixava à mostra uma lua cheia, grande e amarela, e as estrelas raramente vistas, geralmente escondidas por trás da poluição.
As almas misturavam-se, os corpos fundiam-se em abraços e perdiam-se dentre sussurros que desejavam “boas festas” entre si. O álcool embriagava tanto quanto os fantasmas do espírito natalino; de repente, todos esqueciam as diferenças e as barreiras que eles próprios construíam, esqueciam dos problemas, tornavam-se amigos, companheiros, confidentes e amantes.
Parecia o Natal perfeito, aquela noite onde nada poderia dar errado.
Mas as aparências enganam, e algo deu errado. Algo deu terrivelmente errado para alguém.
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Numa pequena cidade no interior, vizinhos foram perturbados em suas ceias por conta de um grito estridente que vinha da casa da esquina, cujos donos eram uma família conhecida em todo o bairro, pelo que os vizinhos gostavam de nomear “sua leve anomalia”: o pai era um dentista respeitado, e a mãe, dona de casa, cuidava dos dois filhos; a mais nova, de 13 anos, e o adolescente de 17. A leve anomalia da família se devia ao fato de o adolescente possuir uma doença mental que era comumente pontuada por violentos casos de depressão e raiva.
Era uma vida difícil, já que os acessos do garoto seriam o suficiente para levar toda a família em uma viagem só de ida ao hospício; os que moravam ao lado da casa da família às vezes clamavam não conseguir dormir por causa dos berros do garoto, que deixavam transparecer sua agonia de forma tão clara que causava arrepios naqueles que ouviam.
O acesso daquela pacífica noite de Natal fora um pouquinho mais violento do que geralmente eram, embora fosse verdade que ninguém ouvira um pio saindo da boca do garoto.
Quem o encontrou foi a irmã. Passara os últimos dez minutos batendo na porta do quarto do garoto, chamando-o para a ceia tardia. Quando viu que não obteria resposta — claramente imaginando que ele estava ocupado demais em seus desenhos terapêuticos —, experimentou abrir a porta. Estava destrancada. Ela adentrou o aposento escuro, sem parar para pensar como era incomum o irmão fechado no quarto sem iluminação, tateando a parede em busca do interruptor. Encontrou-o. Ligou-o. A visão que teve do quarto a fez soltar um berro e, logo em seguida, vomitar ali mesmo, chamando a atenção da família.
Quando os pais chegaram à cena, foi o grito da mãe que se fez ouvir nas casas dos vizinhos, cheio de agonia, pesar, desespero e confusão.
Havia respingos de sangue por todos os lados. O cadáver do garoto jazia dentre a bagunça que era seu quarto, o corpo nu completamente mutilado. Uma faca de açougueiro descansava, inocente e banhada de sangue, a poucos centímetros da mão direita do garoto. Cortes profundos cobriam seu corpo e o sangue há muito parara de escorrer, coagulando e formando cascas engraçadas sobre a carne. Os olhos dele estavam abertos em uma calma assustadora, contrastando com o sorriso que ele possuía na face; expressão esta que ele provavelmente conservara durante todo o ato doce do suicídio.
Os berros da filha e da mãe tiraram os vizinhos mais próximos de suas respectivas casas, e alguns deles chegaram a passar mal ao ver a cena. O pai, pálido, precisava apoiar-se na parede, tomando o cuidado para não tocar em uma única gota de sangue respingado do filho; a mãe parecia prestes a desmaiar e a cena ficara gravada nas retinas da filha, que não conseguiria escapar da insanidade quando atingisse a fase adulta. A família, após aquela noite desastrosa, necessitaria de inúmeras sessões de terapia, e ninguém nunca se atreveria a dizer que eles chegaram a superar o que acontecera.
Naquele pedacinho de mundo, o Natal se transformou numa lembrança de tragédia.
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Em contrapartida, em outros lugares, ainda haviam amigos se despedindo, se abraçando, bebendo e se amando, todos ignorantes ao sofrimento daquela pequena família do interior cujo filho se cortara como se fosse um pedaço de carne no açougue. Aqueles que não tinham com o que se preocupar observavam o céu estrelado, admirando os fogos e comemorando as festas e as próprias alegrias.
Um Natal perfeito, com certeza.
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