sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Memories

Havia um peso em cima dele. Um peso pesado mesmo, bem em cima do peito, que começava a fechar seu diafragma, impedindo sua respiração. Foi por isso que ele acordou, revirando-se na cama, desesperado e já pronto para saltar e agarrar o filho-da-puta que o tentara matar e provavelmente roubar suas coisas, seu dinheiro, seus móveis valiosos e aquela caixa de madeira. Sabia que deveria ter instalado um alarme na casa, não se podia confiar nesse bairro, e...
Mas seus pensamentos se esvaziaram como uma bexiga furada assim abriu os olhos e encarou o quarto vazio.
Por um momento, não soube o que pensar. Então, balançando a cabeça, imaginou que sonhara com o peso, embora não tivesse a mínima idéia do que acabara de sonhar. Virou-se para o lado esquerdo da cama, e estava ponderando se não deveria tomar uns seis comprimidos de Valium quando a visão de uma pessoa deitada ao seu lado o paralisou.



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Quanto tempo ficara ali parado, os olhos estupidamente arregalados e a boca entreaberta, dando-lhe a aparência de uma criança abestalhada? O relógio digital estava na cômoda do seu lado da cama mas, mesmo que conseguisse se virar para olhá-lo — e não conseguiria, mesmo se quisesse, porque aquela visão o deixou paralisado de medo — de nada adiantaria, pois ainda era novo e os números vermelhos piscavam doze, doze, doze.
Contudo, ainda que não houvessem passado mais do que três minutos e meio, ele sentia como se tivesse passado duas horas nas quais ele nada fez além de observar, horrorizado, o vulto confortavelmente deitado ao seu lado. Não via seu rosto, porém sentia seus olhos fixados em si e — por que não? — imaginava ver um sorriso branco no lugar onde seria a boca em uma pessoa qualquer.
Quando já não mais suportava aquele silêncio (ele não se movia, e nem a pessoa, o vulto. Estavam brincando, jogando aquele jogo infantil, qual era o nome dele? Estátua), ele tomou fôlego e, armado de uma coragem que não sabia que possuía, falou:
— Quem é você?
Ele esperava qualquer tipo de resposta, qualquer nome, qualquer rótulo.
Tudo, menos aquilo.



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A cama nem mesmo rangeu quando o vulto se levantou e andou até as cortinas que impediam a luz do luar de entrar no quarto. Por um momento, nada fez e nada aconteceu, além de os batimentos cardíacos do homem acelerarem consideravelmente. Então, como se tomado por algum tipo de inspiração insana, o vulto abriu a cortinas e o aposento foi iluminado com tanta intensidade quanto seria se lá fora quem reinasse fosse o sol do meio-dia ao invés da lua (da meia noite, a uma da manhã, das vinte e duas horas) da madrugada. Ele pôde, então, dar uma boa olhada no vulto, que já não era mais um simples vulto.
A visão, tão surreal, o fez ofegar enquanto seu cérebro (ainda um tanto sonolento, apesar do despertar que tivera há pouco) tentava associar e entender o que via. Conservou sua expressão de horror até que finalmente reconheceu a figura parada próxima à janela e (sua cabeça agora começava a doer e como doía essa maldita cabeça) seu rosto abriu-se em um largo sorriso.
— Melanie! — Sua voz se alteava ao mesmo tempo em que ele levantava, os braços abertos para a namorada que sorria abertamente.



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Ah, gostava tanto daquele abraço! Há quanto tempo não sentia aquela pele macia que conservava o aroma de amora do creme L’Amour que ela tanto gostava? Há quanto tempo não a segurava tão firmemente em seus braços, sentindo os seios dela em seu tórax, os cabelos ondulados fazendo cócegas em seu queixo? Há quanto tempo não se sentia completamente vivo quanto se sentia agora, com a amada em seus braços?
Há semanas, sim. Semanas.
Desde que ela o deixara.



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Não, não posso mais! Ela berrou, escancarando as portas do closet e jogando as primeiras peças de roupa que suas mãos tocavam dentro de uma mala que ela deixara aberta em cima da cama. Ele a observava, horrorizado, sem saber o que dizer, a voz morrendo a meio caminho de sair; quaisquer palavras, mesmo em seus pensamentos, pareciam inúteis e fúteis demais para serem proferidas em momento tão delicado; qualquer movimento parecia ser feito em um campo minado. Ela nem parecia notá-lo: jogava as roupas dentro da mala com tanta ferocidade que ele quase podia ouvir o baque dos leves tecidos no fundo.
Mel... Começou ele, aproximando-se um passo e erguendo uma mão para quê? Tocá-la? Fazê-la virar-se e o encarar? Dar-lhe um tapa? Um beijo? , mas ela não lhe deu ouvidos; sua voz alcançara um tom agudo e alto, dando dor de cabeça ao homem estupefato.
Voce me faz de palhaça. DE PALHAÇA! Acha que eu não sei de todas aquelas vagabundas que aparecem aqui em casa quando eu não estou? Se acha tão esperto e esqueceu que temos VIZINHOS, não é? Pois para mim chega, CHEGA! Pontuou a última palavra com um berro, ao mesmo tempo em que fechava a mala com tanta força que produziu um barulho razoável, tendo em vista que o objeto era feito de um material não muito resistente. Ela passou uma alça sobre um dos ombros e o encarou, os olhos cheios de um fogo vingativo que o fez recuar o passo que avançara há pouco. Passou por ele e, à porta, lançou um último olhar feroz para trás. Vou-me embora daqui, e não se atreva a me procurar, Henrique. Estou morta para você, entendeu? MORTA! Dito isto, ela se foi, batendo a porta atrás de si.
Ele continuava parado no mesmo lugar, a mão ainda pateticamente erguida no ar, e, um segundo depois, sentiu-se mergulhando em um desespero profundo.



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Ele estremeceu com a lembrança e afastou seu corpo do dela apenas o suficiente para poder olhá-la nos olhos. Sua testa franzida expressava a confusão que lhe invadira os sentimentos ao se lembrar do estrondo que a porta fizera quando ela o deixara.
— Voce voltou.
Não houve resposta. Ela apenas sorriu — aquele sorriso digno de Melanie Green, que o fazia delirar nos momentos mais inimagináveis, que o confundia e encantava, que tornava o mundo o melhor lugar para se viver — e o beijou, como nunca o beijara ante. Ele correspondeu com veemência, alegrando-se com os passos que ela avançava em direção à cama e então ambos caíram, ela por cima, e se confundiram entre si e entre os lençóis de seda que ainda tinham o cheiro dela...



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Ele estava sonhando, só podia ser. Ela não podia ter ido, de forma alguma. Era penoso demais.
Via-se envolto em uma grossa camada de trevas. Ainda que o sol do meio-dia brilhasse com alegria do outro lado da parede, ele sentia frio... e dor. Sentia como se seu coração tivesse sido arrancado de seu peito; até mesmo ouvia os pingos que escorriam por sua roupa e voavam para o chão. Logo estava cercado de uma poça de sangue. Olhou para baixo e desejou não ter feito isso; pôde ver com uma clareza insana o buraco negro que se formara em seu peito, e que agora sugava tudo, a não ser o frio, a dor e as trevas.
As portas do closet continuavam escancaradas e havia uma bagunça no lugar do que fora uma organizada divisão de suas próprias roupas e as da namorada. Agora as roupas dele estavam penduradas, algumas quase caídas por culpa da violência com que ela arrancara as suas roupas, e, no lugar destas, havia apenas os cabides vazios, pendendo e balançando com o vento que entrava de uma das janelas.
Sozinho no quarto, o desespero tomou uma profundidade ainda maior e ele começou a berrar.



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Não havia mundo lá fora, não mais. Só existia aquele momento, aquele quarto e os dois, entrelaçados um no outro, juntos em uma noite romântica e ardente. De sons, só havia o leve movimentar da cama e os gemidos dos dois; nem mesmo a chuva que começava a cair do lado de fora (mas que lado de fora? Aquilo não existia, não mais; eram só os dois, sempre fora só os dois) os atrapalhava.
Para ele, o êxtase parecia ainda mais intenso talvez pelo fato de que era a primeira vez em tanto tempo (pareciam anos, não pareciam? Tanto tempo, não pode ter sido apenas semanas). Sabia que a traíra algumas vezes (a empregada, algumas vizinhas, uma ou outra prostituta que encontrava nas ruas, tarde da noite, e aquela garota que era mais nova do que parecia, mas que ele só descobrira depois), mas tudo aquilo não passara de desejo carnal, desejo este que desaparecia logo após a ejaculação e, assim que acontecia, ele as expulsava de sua casa e de sua cama, ou fugia do motel em que se instalara para aquela pequena aventura. Mas o amor, ah, o amor real, o êxtase verdadeiro só existia com Melanie, aquela Melanie que agora, deitada abaixo dele, passava os braços em volta do seu pescoço e o puxava para cada vez mais perto e cada vez mais fundo de si, e, ah!, como ele estava feliz por tê-la de volta!
Horas se passaram e as energias de ambos se esgotaram. Ele caiu ao lado dela, suado e ofegante, mirando o teto com um sorriso de orelha a orelha estampado no rosto. Sua vontade, no entanto, continuava a predominar e ele se virou para ela, que o observava atentamente.
— Voce voltou mesmo. — Ele sussurrou, passando a mão direita no cabelo dela.
— Estaremos juntos para sempre agora.
As palavras soaram estranhamente agourentas aos ouvidos dele, ainda que ditas pela voz suave de Melanie. Ele ignorou o sentimento, dando um sorriso ainda maior e se inclinou para beijá-la.
— Promete?
Os olhos muito verdes dela faiscaram por um momento (aquele fogo que ele viu quando ela o deixou) e ele engoliu em seco, quase sem perceber.
— Prometo. — E, aparentando recuperar as energias, ela voltou para cima dele.



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Uma dor de cabeça filha-da-puta, era isso o que era. Capturara-o durante seu sono e agora não o deixaria em paz, como uma ressaca. Cada movimento seu doía a cabeça como se acertada por um martelo. Suas mãos coçavam e, quando ele baixou os olhos, viu gotas de sangue seco e, por um segundo delirante, ele achou que o buraco negro em seu peito continuava sangrando. Não continuava, mas ele ainda conseguia vê-lo sugar tudo o que considerasse comestível ou indigno de ser sentido pelo homem.
A cabeça doía mais e mais, e ele ergueu a mão para tocá-la, segurá-la, imaginando que seu toque poderia apaziguar a dor. Ao tocar a própria nuca, no entanto, sentiu um galo na cabeça que tinha certeza que não estava lá no dia anterior.



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— Esqueça a janela. — Ela disse, sentando-se e cobrindo o corpo até a altura dos seios com o lençol de seda ao seu lado. — Volte para cá.
Ele havia se levantado e se adiantara em direção à janela, procurando aquela que estava minimamente aberta, lançando brisas no quarto que estavam lhe dando irritantes calafrios na espinha. Ela conservava uma expressão de impaciência, mas ele estava obcecado, desejando poder se livrar daqueles calafrios e aproveitar a mulher do modo certo. Nada. Nada de janela aberta.
Ele a olhou, um ponto de interrogação visível em sua face, mas ela apenas sorriu, estendendo a mão e o puxando de volta à cama. Seu toque pareceu gelado sobre a pele dele, fazendo-o pensar novamente naquela maldita janela aberta e o vento que a chuva trazia para dentro do quarto.
— Esqueça — ela repetiu, a voz um pouco mais firme, apesar de aérea. — Lá fora só tem a floresta, nada mais. Esqueça a maldita janela e olhe para mim.
E ele olhou. Mas apenas olhava, não via. Seus pensamentos seguiram para a floresta que cercava a casa, a floresta na qual ele não pensava desde... Bom, desde que Melanie o deixara. O que era estranho, porque gostava da floresta. Quantas vezes eles não se amaram no meio das árvores, fizeram piqueniques ou simplesmente deixaram-se levar pela trilha? A floresta, onde existiam poucos animais, nenhum dos quais perigosos e folhas, árvores, flores...
Ela o tocou novamente, desta vez na nuca, bem onde, semanas antes, ele sentira aquele galo sobrenatural e ele estremeceu quando novas lembranças o consumiram: primeiro fracas, como um sinal de rádio, depois fortes, muito fortes, até que o tomaram completamente e ele quase vomitou com a intensidade com que fora pego, mas aceitou a mão dela e a beijou, dissimulando, fingindo que não sentia as lembranças abrirem-lhe feridas, fingindo que seu estômago não se revirava a cada avanço da lembrança.



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Ela havia acabado de sair pela porta, e ele havia acabado de soltar o berro mais alto e mais doloroso de sua vida. Então, sem aviso, um ódio que ele jamais sentira antes venenoso, letal e altamente viciante apoderou-se dele.
Saiu do quarto, seguindo (correndo) os passos dela. Alcançou-a antes que ela chegasse ao ponto de ônibus, e agarrou-a pela cintura. A rua estava quase deserta, era feriado da cidade. Ele fez com que ela o encarasse e, por uns instante ele viu novamente aquele fogo nos olhos dela, mas ele tinha um fogo ainda mais intenso e o olhar dela vacilou.
Quer se sentir amada? Vou fazer você se sentir amada. Quer se sentir viva? Vai sentir isso também. Vociferou, arrastando-a de volta ao caminho da casa, da floresta, para o lugar onde ninguém poderia vê-los ou impedi-lo de fazer o que o seu ódio agora mandava-o fazer. Ela queria que ele fizesse com ela o que fizera com as outras, não era? (Não, é claro que não, não foi isso que ela disse, e o que você quer fazer agora não tem NADA a ver com o que você fez com as outras, pare agora, pare pare) Então ela teria.
Arrastou-a o caminho todo até a floresta, e ela berrava e falava e xingava em seus ouvidos. Ela o socava, mandava, exigia que ele a soltasse e a deixasse em paz de uma vez por todas, que tirasse as mãos sujas de cima dela, e ela não calava a boca, a maldita vadia.
Quanto tempo andara, pó quantos metros, quilômetros, a arrastara? Nunca saberia dizer, mas, quando se encontrou devidamente protegido de quaisquer olhares ansiosos, ele a jogou no chão terroso da floresta, onde ela raspou o joelho, que começou a sangrar. Ele se abaixou, pronto para pegá-la, arranhá-la, massacrar aquela vadia que dissera tanta crueldade (e o que você está fazendo, seu imbecil? Acariciando-a?) para ele, mas ela ergueu o joelho banhado de sangue e atingiu-o no rosto e ele gemeu de dor e limpou o sangue com as mãos, e o sangue secou ali...
Ela se aproveitou do momento para se levantar, mas ele era mais ágil e a segurou pelo pescoço. Ela se debateu com uma força extraordinária, e ele, ainda agarrado ao pescoço dela, deu um passo para trás e bateu com a cabeça (a cabeça que amanheceria doendo, aquele maldito galo alienígena) em uma árvore bem atrás de si. A dor explodiu em sua cabeça e o ódio foi ainda maior e a próxima coisa que ele notou foi o olhar arregalado dela (uma mescla de terror, curiosidade, mágoa) e o barulho que o pescoço dela fez quando ele o quebrou (um “click” tão inocente, ninguém imaginaria o que o som de fato implicava).
Então ele correu, deixou-a jogada ali no meio das árvores, ele correu e voltou pra casa, e berrou de novo, sentindo a dor cada vez mais forte em seu peito, sentindo o buraco negro inflamar. Ele se jogou na cama e estava tão esgotado, tão dolorido, que apagou na hora.



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Foi o som do click quando o pescoço dela se partiu que o fez pular e se afastar o quanto pôde do corpo junto ao seu. Balbuciava sem saber o que dizer, arregalando os olhos, temendo a mulher que estava na sua frente porque ela não podia estar em sua frente, a não ser que suas lembranças o estivessem enganando. Mas o sangue e o galo na cabeça foram reais demais, então não podia ser um sonho, podia?
Ela notou a mudança na atitude dele (é claro que notou, quem não notaria) e sorriu.
— Não se preocupe. Eu te perdôo. Volte para a cama.
E, por um momento, ele quase voltou. O amor na voz dela era tão puro, tão convidativo que ele se viu voltando para ela, para dentro dela, e ambos acasalariam como leões. Contudo, aquele click sinistro continuava ecoando em seu ouvido e ele estava aterrorizado demais para se mexer. Confuso demais.
Então a ficha caiu e ele sentiu um horror tão violento que pulou da cama e andou de costas, parando apenas quando seu corpo se chocou com a parede oposta à cama.
— Voce... você... — mas a frase era terrível demais para ser proferida em voz alta, e ele não precisou dizer, ela entendeu. Deu um sorriso triste, assentindo, mas não parecia haver ódio em seu olhar.
— Eu te perdôo. — Ela repetiu, se levantando. O lençol escorregou por seu corpo e caiu no chão, mas agora já não era o corpo delineado e atraente de sua namorada, mas um corpo sujo, com feridas abertas que já não sangravam mais. A pele, ao invés de lisa e branca, encontrava-se suja, de aparência áspera. — E poderemos ficar juntos para sempre.
De súbito, ele entendeu o que aquele “juntos para sempre” significava. “Até que a morte vos separe” eram os votos, e a morte já os separara mas estava prestes a juntá-los novamente.
— Que eu tenha batido a cabeça com força demais — ele murmurou, fechando os olhos com força, enquanto ouvia os passos dela, sentia que ela se aproximava.
— Me leve para a floresta — ela disse. — Faça com que eu me sinta amada... faça com que eu me sinta viva novamente.
— Não. — Ele sussurrou, os olhos ainda fechados. Estava pálido e tinha a aparência de quem estava prestes a vomitar.
— Por que não? — ele abriu os olhos, encarando aquele verde que o fazia estremecer e, de repente, odiou-se por ter feito o que fez e sentiu medo, porque sabia que estava enlouquecendo. Então, como se tivesse acabado de notar o que fazia, fechou os olhos novamente, respirando fundo antes de respondê-la, caçando, no fundo de seu íntimo, um motivo. Curiosamente (ou talvez não tão curiosamente assim) os motivos agora pareciam fúteis demais.
— Porque você está morta. Eu não posso vê-la ou ouvi-la. E com certeza não posso tocá-la. Não sei porque você parece estar aqui, mas tem que ir embora. Voce não é real. Está morta. — Ele fraquejou. — Eu a matei.
Nada. Nenhum som, nenhum sinal de movimento. Ele arriscou novamente, reabriu os olhos (esperando, quase querendo que ela continuasse ali parada, olhando-o com aquele sorriso maravilhoso) e viu apenas o quarto vazio; o lençol caído no chão, sim, mas nada de anormal. Ela se fora.
Ele não se moveu por um bom tempo, seguro de que ela voltaria. Ela não voltou. Ele estremeceu.



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Por que continuava ali parado? Estava enlouquecendo de não fazer nada. Imaginação ou realidade, precisava da resposta (sua sanidade dependia da resposta). Ele correu para o caminho em sua lembrança, correu para a floresta, para o lugar que (lembrava, imaginava) largara o cadáver de Melanie.
Encontrou o lugar mais facilmente do que imaginara, e a realidade chocou-se com suas lembranças, com a imaginação fértil que ele nunca tivera. Ali estava Melanie (ou o que sobrara dela), jogada ao chão como lixo, o pescoço torcido em um ângulo completamente errado e os vermes fazendo seus banquetes no corpo da mulher.
Ele gemeu, se ajoelhou. O buraco em seu peito reaparecera, em carne viva, jorrando sangue na terra e no corpo. Uma outra Melanie, a que estivera nua em seu quarto há tão pouco tempo, projetou-se ao seu lado, ajoelhando-se com ele e sussurrando em seu ouvido enquanto ele tomava o cadáver em seus braços, horrorizado.
— Me leve para a floresta. Faça-me sentir amada. Faça-me sentir viva novamente. — Parecia uma canção daquelas cuja melodia penetrava em nossa mente e ali ficava, recusando-se a ser esquecida.
Ele abraçou o cadáver e, embalado pelo mantra que a morta cantava, ele chorou. Chorou seu desespero, chorou como não chorava desde que era um garotinho.

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