Ninguém mais suportava observar o sofrimento que a afligia. Durante dias e durante semanas a dor dela emanava de seu corpo e poluía o ar, impregnando na pele daqueles que tinham a infelicidade de encontrar-se no mesmo recinto que a enferma. Sorrisos falsos e lágrimas reprimidas eram lançados de um lado para o outro, dissimulando a dor de uns e o desejo de morte da outra. Todos respiravam o ar pesado, jogando para seus próprios pulmões a atmosfera cancerígena, cometendo suicídio involuntário aos poucos. Alguns, em seu íntimo, rezavam para que a dor daquela que repousava na cama desaparecesse; outros, embora nunca admitissem, desejavam que ela fosse livrada da dor, de preferência sendo levada desta vida.
Ela, por sua vez, procurava ser forte. Até então os entes queridos haviam testemunhado três lágrimas solitárias escorrendo por sua face, antes que ela utilizasse de sua armadura, escondendo o receio e a aflição por trás da expressão determinada. Nos raros momentos em que se via desacompanhada, todavia, permitia as lágrimas quentes tomarem espaço, libertando todo o seu sofrimento antes de se ver compelida a transformar novamente seu semblante naquela máscara de determinação.
Entretanto, como obrigar a mais jovem dentre tais criaturas a conservar postura destemida? O fedor da Morte à espreita invadia suas vias respiratórias e, ao chegar em sua garganta, apertava-a com força, provocando a saída das lágrimas, ferindo sua laringe. A visão daquela cama tão branca ocupada por corpo tão frágil era demasiadamente fúnebre para o seu coração suportar, ainda que este fosse inegavelmente espinhoso, e a troca de olhares já não possuía o mesmo sabor de cumplicidade quando um dos pares de olhos se fechava com dor enquanto o outro marejava com apreensão.
A simulação de felicidade e despreocupação teve data de validade. O último suspiro daquela que tentava ser forte aconteceu misteriosamente acompanhado de um pequeno sorriso que parecia repleto de esperança, quiçá pelo fim de situação tão enfadonha. Seu peito relaxou com seus músculos e, quando o aparelho conectado a seus pulsos fez um som ininterrupto, o ar pareceu amenizar imediatamente.
Beijos foram depositados na testa da mais nova defunta, e os parentes abraçaram-se entre si, cada qual buscando seu próprio consolo. A do coração espinhoso pareceu chorar mais do que qualquer um, a presença da Morte afundando seu coração no peito e fazendo-o doer. Aproximou-se e se inclinou sobre o cadáver de forma a encostar seus lábios na pele enrugada, procurando palavras de adeus em meio à sua mente, tão cansada.
— Espero que esteja bem agora.
Um frio percorreu sua espinha e brisa que soprou em seu rosto, acariciando-o com leveza, pareceu-lhe uma resposta satisfatória.
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