sexta-feira, 8 de julho de 2011

Catalepsy


Não conseguia se mexer. As paredes estavam firmes e suavemente grudadas a seu corpo, e, como um amante, segurava seus braços na posição em que estavam, presos ao lado de sua própria carne. Tentava se mover, mas suas tentativas eram inúteis e seu corpo começava a doer, enquanto sue cérebro ainda tentava assimilar a situação na qual se encontrava. Não estava totalmente escuro – havia uma fresta, mas parecia perto demais de seu rosto, o que aumentava sua aflição.
Como fora parar ali?, era o que se perguntava. Recordava-se apenas de estar discutindo com Elliot sobre... o que mesmo? Um motivo estúpido, tinha certeza. Então lembrava de o mundo apagar e ele acordou onde estava. O que era aquele lugar?
Ao menos a fresta, pela qual passava uma luz como o sol escaldante no meio da escuridão, permitia-lhe obter um pouco de oxigênio; do contrário, ele tinha certeza de que morreria sufocado naquele espaço mínimo.
Seria uma brincadeira de mal gosto? Talvez Elliot estivesse mesmo irritado e, sendo vingativo como era, teria inventado aquele jogo, aquela peça. Seu corpo relaxou por um momento, o sangue correndo um pouco mais devagar. Sim, com certeza era nada mais que uma brincadeira, e logo Elliot estaria de volta para salvá-lo porque Elliot sabia sobre a claustrofobia, não? Sim, sabia. Eles conversavam sobre tantas coisas diferentes, e fobia fora um dos assuntos uma vez discutidos. Patrick contara tudo sobre seu maior medo que começara aos 7 anos de idade, e mesmo que Elliot parecera distraído e avançara em Patrick apenas poucos segundos depois de este terminar a historia, levando-os a passarem uma noite intensa de amor, Patrick estava certo de que o outro prestara atenção. Claro que sim.
Esta era a provável idéia que Elliot possuía de uma punição para a discussão dos dois. Logo ele retornaria de onde quer que estivesse, e ambos dariam risadas sobre o ocorrido e então ocupariam a cama de Elliot com uma paixão ardente um pelo outro.
Parecia, porém, estar demorando um bocado.
Engoliu em seco. Ele vai aparecer.









Quanto tempo mais? O ar, mesmo que passando por aquela pequena fresta, já parecia tornar-se rarefeito e o fato de não poder se mover apenas agravava a situação. Podia sentir o começo de seu ataque de pânico ali, à espreita.
As paredes estavam se fechando em sua volta e ele sentiu medo de fechar os olhos, sabendo que o ato de nada adiantaria. O próximo passo seria o desespero e então ele precisava que Elliot aparecesse logo. Talvez ele tivesse perdido a hora, só isso. Nada mais.
Sua cabeça rodava, seus músculos doíam. Continuava a tentar se mover, conseguindo apenas deslocar o corpo milímetros para o lado, e a cabeça da esquerda para a direita, mas as paredes estavam muito próximas, assim como o teto, e a sensação de não poder respirar era terrível. Nenhum som chegava aos seus ouvidos e a sensação era de que o mundo fora de seja-lá-onde-se-encontrava havia acabado, sumido. Desespero.









Sua perna tremeu, uma reação violenta à sensação de algo rastejando em sua pele. Experimentou erguer a cabeça, mas seu pescoço estava rígido e, mesmo assim, o teto parecia baixo demais. A angústia cresceu dentro de si quando ele se deu conta de que não saberia o que dividia o espaço consigo. Sentiu um nó se formar em sua garganta quando a sensação de claustrofobia apertou-se em seu íntimo.
De repente, um barulho no teto. Como algo caindo, talvez? Então algo tampo um pedaço daquela única fresta existente e a realidade da situação abateu-o mais uma vez.
Elliot... – sua voz saiu assustadoramente rouca. – Elliot!
Nada. Por um longo espaço de tempo, um nada gigantesco preencheu o seu eu.









O som de coisas caindo no teto continuava. Todavia, era um som suave, fraco, ainda que assustador. Patrick imaginava que era apenas a sua curiosidade sobre o que caía acima de sua cabeça que o impedia de mergulhar imediatamente em um intenso ataque de pânico, até que algo caiu da fresta direto em se rosto. Agoniado, ele balançou a face de um lado para o outro, não sem antes identificar o material.
Terra.
Inspirou fundo, talvez fundo demais, e sentiu uma tontura tão forte que imaginou que fosse desmaiar. Faltava-lhe oxigênio. O som continuava, e talvez fosse porque ele agora sabia do que se tratava, mas Patrick achou que já era incapaz de respirar, e que o som da terra estava mais alto.
Como Elliot pôde? Aquilo era nada mais que tortura, que um crime no mínimo hediondo. Não fazia o menor sentido que ele estivesse ali, preso, trancado como um criminoso.
Começou a passar mal, muito mal.









Nunca tivera um ataque de pânico como aquele. Ergueu as mãos o máximo que conseguiu, provando que estava certo quando imaginou que o lugar era realmente pequeno. Suas mãos socaram e arranharam o teto, sua boca se abriu em uma furiosa tentativa de berrar, porém sua voz recusava-se a se fazer ouvir. Começou a ofegar e seu peito doía com o esforço e o mundo começava a escurecer devagar e ainda (aquele som!) podia sentir pequenos movimentos em volta e embaixo de seu corpo, dando-lhe a sensação de estar deitado em algum tipo de areia movediça, mas não, os contatos com a sua pele eram vivos e repugnantes demais, e ainda tinha aquele silêncio que penetrava seus tímpanos, o horror pegajoso e palpável da solidão, que já formava uma crosta em sua pele.
O pouco ar que lhe restava era tão pesado! Suas mãos pareciam cada vez mais difíceis de manter no ar e o som de suas unhas arranhando e ferindo a madeira era repulsivo! Suas entranhas reviravam com a dor cada vez que as lascas penetravam mais fundo em sua pele (e como sangrava!) e seu corpo aprisionado contorcia-se em agonia. Lágrimas anormalmente quentes rolavam pelo seu rosto, como se também procurassem liberdade.









– O que lhe perturba? – Indagou Elliot com uma expressão séria, brincando com o cabelo arrepiado no topo da cabeça de um Patrick que suspirava.
– Nada. Eu só estou... anormalmente feliz – respondeu, medindo as palavras antes de soltá-las, uma de suas mãos subindo pelo braço do namorado. – Isso me assusta.
Elliot moveu-se com tal rapidez que a mão de Patrick pendeu no ar por um momento, até que ele lentamente a abaixou, seus olhos tão verdes fixos nos azuis do namorado.
– Do que está falando? Por que te assusta? – e seus olhos pareciam tão brilhantes naquela meia-luz que Patrick precisou de um momento para se recompor da paixão repentina que assolou seu íntimo. Quando voltou a si, ergueu os olhos para o teto e não pretendia responder, mas Elliot inclinou-se, tocando os lábios nos de Patrick e falando em seu ouvido. – Sabe que pode me contar qualquer coisa...
Então as palavras encontraram seu caminho, uma a uma. Primeiro eram cautelosas, hesitantes, cada qual colhida com cuidado. Porém, quando se lembrou de sua infância e dos diversos motivos que o levava a sentir medo naquela hora, na cama com Elliot, um filme passou em sua cabeça e ele vomitou as palavras, cada vez mais rápido então, mais apaixonadamente, intenso como a primeira noite de amor que tiveram juntos. Pela primeira vez não chorou ao narrar seus medos; sentia-se anestesiado por ter posto tudo para for, e seus olhos encontraram os de Elliot ao pronunciar o maior medo que sentia naquele momento.
– ... além disso, receio que a qualquer momento você poderá acordar, olhar para mim e descobrir que não me ama de verdade.
Houve um silêncio medonho que se arrastou por dois longos minutos, enquanto o outro absorvia a história. Verde no azul, ambos brilhavam travando uma luta violenta, fascinante e muda. Durante este tempo, Patrick pôde jurar que falara demais; os horrores do seu passado que fizeram-no crescer aquele garoto recluso e deprimido pareciam terríveis de se guardar, mas ainda piores para serem depositados nos ombros de um outro alguém, mesmo que este fosse alguém forte como Elliot.
A reação, entretanto, foi inesperada. Elliot virou o corpo de forma a ficar por cima de Patrick, roçando seus lábios contra a pele do pescoço do outro. Deitou, então, sua cabeça sobre o peito do namorado e o envolveu em um abraço apertado, confortante. Seu rosto era invisível para Patrick, mas a voz rouca flutuou até seus ouvidos.
– Nunca vou deixar de te amar.
E Patrick chorou lágrimas de alegria, pela primeira vez.









Todavia, as lágrimas que agora secavam no rosto de Patrick provinham de seu mais sincero desespero, da agonia de presenciar seus maiores medos tornando-se realidade. Em sua cabeça passavam os mais distintos flashes de sua vida, cada vez mais rápido enquanto respirar tornava-se cada vez mais difícil. Sua aflição crescia à medida que ele notou que a pequena fresta que antes lhe fornecia luz e oxigênio agora estava totalmente coberta de terra. Cada um de seus músculos estavam rijos e Patrick finalmente conseguiu emitir um som (abafado, ninguém pode te ouvir) quando virou a cabeça para a esquerda e viu-se encarando um verme branco e gordo, contorcendo-se de forma nojenta enquanto se locomovia diretamente para a boca aberta do homem, que engasgou e cuspiu.
Por Deus, como era clichê aquele sentimento! Recordava-se de tantos detalhes que jurava ter esquecido e agora sentia-as em sua pele, cada momento: a primeira vez que andou de bicicleta; seu primeiro beijo; o dia em que seu pai se aproximou com um olhar diferente no rosto e um olhar malicioso enquanto começava a acariciar a coxa de Patrick; o dia em que seu hamster morreu; suas brigas na escola; o dia em que finalmente se revoltou contra seu pai; os gritos com cheiro de álcool que sua mãe lhe dirigia; a primeira vez que dirigiu.
Sentiu sua consciência esvaecer aos poucos e tinha que admitir que era uma sensação gostosa. Agarrou-se às lembranças boas, concentrando-se naquelas que centravam em Elliot, na sensação de suas peles unidas, de seus olhos fixos uns nos outros. Uma pontada no peito lhe revelou o quão magoado estava, contudo, e lamentava que seus últimos sentimentos estivessem tão misturados.
Estava tremendo com violência e sentiu o lugar diminuir e sufocá-lo até que não sobrasse uma réstia de ar.

















– Do que você está falando?
Sua voz saiu trêmula. Seus punhos se fecharam e Elliot ergueu os olhos para um Dr. Gabriel aparentemente envergonhado, torcendo as mãos sob o jaleco. Os olhos de Elliot estavam vermelhos e inchados, provas de noites sem dormir, apenas revivendo aquele momento terrível, quando Patrick caiu no chão.
– Catalepsia? – Tentava infligir calma na própria voz, mas agora ele mesmo tremia, uma impressão odiosa crescente em seu estômago e borbulhando, subindo como ácido pela sua garganta. Não, não podia ser...
– Reabrimos o caixão, como você pediu, e, bem... a visão não foi nada agradável e precisamos de apenas alguns testes para descobrir a doença... sinto muito, se soubéssemos mais cedo...
Mas Elliot não estava ouvindo. O mundo deu voltas e mais voltas e ele mal sentiu o baque quando seus joelhos foram de encontro ao chão. Também não sentiu quando seu estômago se contorceu e o vômito escapou por entre seus lábios, pintando o chão antes limpo do hospital. Não sentiu o cheiro azedo que invadiu suas narinas, muito menos as mãos quentes do Dr. Gabriel, puxando-o para cima e guiando-o ao sofá. Não. Sua mente estava ocupada demais com o horror da cena que imaginou. Patrick. Sozinho. Enterrado. Vivo.
Ergueu-se tão rapidamente que seu cérebro perdeu parte do oxigênio e o fez cair de volta no sofá.
– Quero vê-lo. – Seu tom de voz não deixava espaço para discussão, mas ainda assim o médico quis interferir.
– Elliot...
Não pôde completar a frase, porém, porque o homem correu para a porta do legista no momento em que recuperou o controle do próprio corpo. Ignorando a sensação de anestesia e os gritos dos médicos que ultrapassava, entrou no local em que Patrick jazia.




Morto.




Reprimiu um uivo. Não havia dúvida de que ele fora de fato enterrado vivo. Suas unhas quebradas e com sangue seco, seu rosto sujo de terra e o pior, seus olhos arregalados em pânico.
Claustrofóbico, ele era claustrofóbico.
Elliot gemeu, as pernas bambas, e se aproximou do cadáver do namorado. Seus joelhos fraquejaram e, mais uma vez, ele caiu.
Catalepsia...
Foi a vez de Elliot chorar lágrimas de um coração despedaçado.


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