Durante toda aquela noite eu me comportei como uma foragida. Escondia-me de policiais, de viaturas, de ambulâncias e rostos que eu pudesse conhecer. Mesclava-me às sombras, empenhando-me em ver sem ser vista, caçando naquelas ruas familiares o nome que agora estava gravado em minha mente. Eu detestava aquelas ruas infestadas de bêbados, viciados e homens que gritavam palavras ofensivas e sugestivas às mulheres distraídas que por ali passavam. Meu estômago embrulhava e a atmosfera daquele lugar dava-me arrepios.
De hora em hora eu me perguntava por que ainda estava ali. Era necessário que eu me recordasse daquele rosto angelical que agora estava desaparecido, e de minha função em encontrar a dona deste rosto e levá-la de volta à vida da qual ela fugiu. Ela era mais importante do que as lembranças horrendas, impregnadas no canto mais obscuro de minha mente, lembranças estas que aquelas ruas provocavam em minhas memórias.
Não demorou muito para que eu o encontrasse. Aquela construção e o caminho que até ela levava eram tão peculiares e tão conhecidos que eu notei que meus pés me guiaram para lá enquanto eu fantasiava sobre o momento que eu a encontraria. Tão logo virei uma esquina apinhada de homens e mulheres injetando líquidos em suas veias, notei o letreiro luminoso. Algumas letras estavam queimadas, mas eu sabia que aquele era o Four Seasons. Apesar do meu desgosto aquele motel fora nossa casa durante muito tempo, e eu sabia que se ela estivesse em algum lugar, seria aquele.
Embora vestisse um sobretudo preto com capuz que cobria boa parte do meu rosto, temia ser reconhecida. Era verdade que já não parecia em nada com a antiga garota de programa que outrora fui, vestida com minissaias e decotes inapropriados para as noites frias, rosto carregado de maquiagem pesada e pés que sofriam com os saltos desconfortáveis. Todavia, aqueles sujeitos que vagavam pelas ruas talvez pudessem sentir o cheiro de uma mulher das noites, eu não saberia dizer. O casamento melhorou minha conduta, mas não mudou o meu passado.
Andei devagar até a recepção e adentrei o aposento que de tão familiar duvidei por um segundo que as coisas houvessem de fato mudado. As poltronas sujas e rasgadas ainda estavam ali, assim como os quadros de paisagens tão inocentes que tinham como único objetivo disfarçar a verdadeira essência das atividades que ocorriam entre as quatro paredes alugadas dos quartos.
O recepcionista era o mesmo de quando eu e o rosto angelical trabalhávamos naquelas ruas nojentas e perigosas. Quase não me reconheceu mas quando o fez, recebeu-me com um sorriso que eu associei àquele que ele dava quando eu trazia clientes para seu motel desgraçado. Perguntei pelo rosto angelical, por Katherine, e sua feição mudou quase instantaneamente.
– Achei que voces tinham finalmente entrado nos eixos – ele disse, balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto mexia nas chaves dos apartamentos. – Ela apareceu aqui ontem de manhã, estava terrível, parecia que tinha apanhado, sabe? – meu coração pulou. Ela está aqui!, e de repente o mundo pareceu mais leve, embora eu ainda estivesse ciente de que ainda me encontrava no lugar que era o monstro de meus pesadelos.
– Posso vê-la? – indaguei, o coração na mão.
– Ela pediu que não deixasse ninguém incomodá-la... – ele pareceu incerto por momento, talvez avaliando as opções. Ele sabia que nós éramos quase como irmãs. Sabia que crescêramos no mesmo orfanato e que, infelizmente, seguimos a mesma primeira profissão nas ruas mais desprezíveis da cidade. Sabia que, quando me casei, Katherine se mudou comigo, procurado uma vida melhor. Eu esperava, contudo, que ele não soubesse que ela fugiu sem nada dizer, semanas antes. Até que enfim ele pegou a chave do quarto 09 e entregou-a para mim, com um dar de ombros.
Agradeci e corri para o quarto, esperando encontrá-la dormindo, assistindo televisão ou talvez jogando paciência sozinha, hábito que ela adotou após meu casamento. Nunca pude imaginar que encontraria a cena que de fato encontrei.
O quarto estava limpo, como se nem houvesse sido usado – pensando bem, acredito que de fato não o foi. No meio do aposento, pendurada como um presunto em uma corda pelo lustre estava Katherine. Minha Katherine, com um rosto arroxeado e inchado, pendendo como um presunto, uma carne. Eu devia ter chorado. Algo me diz que deveria ter sido minha primeira reação. O choque, no entanto, impediu-me de fazer qualquer coisa que não fosse entrar no quarto, trancar a porta e sentar na cama mais próxima, tudo isso com os olhos grudados naquela que um dia fora minha amiga, minha amante, minha irmã.
Não sei quanto tempo fiquei parada, observando a monotonia absurda que era seu corpo agora sem vida. Minha cabeça doía e eu conseguia sentir meu sangue latejando contra meus ouvidos. De repente, pulei da cadeira com o susto quando a corta rebentou e o corpo de minha Katherine estatelou-se no chão em minha frente.
Cadáveres não me eram uma novidade – víamos sempre um ou dois por noite enquanto trabalhávamos nas ruas, todos corpos que então nada mais eram do que vagas lembranças adoecidas que pessoas que um dia foram respeitáveis. Víamos sempre o resultado do declínio humano, do respeitável ao sujo, ao nada.
Com Katherine era diferente. Fomos a escória da sociedade por muito tempo, até que o amor salvou a ambas. Fomos cuidadas e educadas e tornamos-nos respeitáveis. E agora lá estava ela.
Ajoelhei-me ao seu lado e toquei seu rosto, duro e frio como nunca esquecerei. Senti uma náusea imensa e vomitei ao lado do corpo, tentando esquecer, tentando ignorar a culpa repentina de não ter dado atenção às noites que Katherine tentara comigo conversar sobre pensamentos que lhe tomavam a mente, pouco a pouco. As lembranças mal estavam ali, mas emergiram com uma força impactante.
Limpei a boca na manga do sobretudo e mirei suas roupas comportadas. De um bolso, saía um pedaço de papel dobrado. Peguei-o e ofeguei ao ler meu nome.
“Querida Allison.
Não sei como essa carta chegou em suas mãos e, para ser honesta, prefiro não saber. Temo que tenha sido você a encontrar meu corpo nesse quarto assombrado pelas nossas memórias, e espero que esteja enganada. No entanto, uma parte de mim não acredita que tenha sido outra pessoa a me encontrar; afinal sabemos que este quarto é o menos utilizado, seja por prostitutas e viciados ou hóspedes aleatórios e respeitáveis. Neste caso, sei que você é forte e que as lágrimas não encontram o caminho de seus olhos há muito tempo, o que me dá esperanças que você leia esta nota antes de tomar quaisquer medidas.
Voce não podia ter impedido o que está prestes a acontecer, espero que saiba disso. Todas as noites em que a incomodei procurando ter conversas profundas sobre as perturbações da mente humana foram nada mais do que preparações para mim mesma para o que eu devia fazer.
Fomos amigas, confidentes, amantes e irmãs. Nunca, no entanto, eu dividi contigo o segredo que eram meus pensamentos, monstros gigantescos que tomavam conta de meu ser e que pioraram uma vez que fomos obrigadas a trabalhar nas ruas. Voce não faz ideia de como era para mim ter que agradar cinco ou seis clientes por noite, ajoelhado-me, deitando-me e gemendo falsamente para satisfazê-los e ganhar apenas dinheiro suficiente para satisfazer nossa fome do dia seguinte.
Eles batiam, Ally, você se lembra? Batiam, gemiam, gritavam e gozavam e então nos deixavam como objetos sujos e descartáveis. E era assim que eu me sentia. Algo inumano, sujo, infectado com doenças que jamais seriam curadas. Passei a temer o trabalho, tinha pesadelos e demônios passaram a crescer em mim, sussurrando palavras bonitas e convidando-me para o abismo. Você não sabe o quão feliz eu fiquei quando, após seu casamento, você me chamou para que morássemos juntas e encontrássemos trabalhos decentes. Por um momento eu acreditei que os demônios iriam embora.
Eles não foram. Todas as noites eu tenho pesadelos, pensamentos ruins contra tudo e contra todos, desejos de morte e sangue. Estou sempre cansada, sem vontade de nada e foi por isso que fugi, Ally. Estou me transformando nesses monstros e eu não queria que isso acontecesse enquanto estivesse ao seu lado. Recusei-me a permitir que eles a atingissem como me atingiram, embora seja verdade que você é muito mais forte do que eu. Acredito também que o mundo será um lugar muito melhor com a minha ida, pois então o ódio no planeta diminuirá um pouco e haverá mais espaço para aqueles que realmente fazem a diferença.
Sei o que devo fazer agora, minha Ally, e espero que me perdoe por isso. Não chore por mim, não fique triste. Acredito que as coisas agora melhorarão mais rápido do que você acredita. Despeço-me com a esperança de extinguir os monstros que me consomem, impedindo-os de infectar outros.
Estou com medo, é verdade. Não há nada que possa nos preparar para o que vem a seguir, não é mesmo? Segure minha mão, sim? Diga-me que tudo ficará bem enquanto eu termino esse nó. Encontrar-lhe-ei um dia na outra vida, se é que isso existe de fato.
Perdoe-me, Ally. Do fundo do meu coração, eu te amo.
Da sempre sua,
Katherine.”
Lágrimas copiosas caíam em meu colo quando terminei de ler a nota. Percebi então que segurava a mão gelada de minha amiga e o bom senso me dizia que eu deveria chamar logo a polícia. Resolvi ficar um pouco mais ali, no entanto, dizendo o adeus que ela nunca me deixara dizer.
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