Passaram-se anos desde a última vez que eu a vi. Ainda me lembrava perfeitamente de suas madeixas morenas e longas, de sua franja que teimava em entrar em seus olhos, fazendo-a afastá-las com impaciência. Via claramente seus olhos tão verdes como esmeraldas, seus lábios macios e rosados e suas unhas que nunca estavam pintadas ou longas. O aroma de seu perfume ainda me era possível senti-lo, e eu tenho certeza de que nunca o esquecerei.
Cada trejeito seu me era familiar como se tivéssemos nos encontrado no dia anterior, e provavelmente as lembranças ficaram mais intensas quando recebi a carta, cuja letra no endereço era maravilhosamente conhecida. Meu lábios tremeram em um sorriso quando abri o envelope e li a carta endereçada a mim, escrita por ela.
“Loius,
Não consigo acreditar em quando tempo se passou desde que nos despedimos pela última vez! Tanto que lhe escrevo com o receio de você não mais se lembrar quem sou, e nesse caso peço que force um pouquinho sua memória. Afinal, você um dia me disse que nunca esqueceria de sua melhor amiga. Espero que tenha cumprido essa promessa.
Sinto tanto não ter mantido contato durante todos esses anos; enlouqueço só de lembrar a quantidade de atividades que me foram requeridas durante minha estadia em Seattle! Todavia estou de volta agora e confesso que me seria de grande agrado se pudesse se encontrar comigo para um café. De fato, tendo em vista a enorme necessidade que tenho em compartilhar todas as novidades possíveis, façamos desse café um jantar. Quinta à noite.
Supondo que você ainda se lembra de mim, peço que me encontre no Lolee’s às 20h. Reservarei uma mesa em meu nome e espero que junte-se a mim. Estou ansiosa para ver novamente meu melhor amigo.
Até breve.
Julia”
Com que rapidez batia meu coração! Olhei rapidamente para o relógio acima da lareira e dei-me conta de que tinha duas horas até o horário por ela designado. Apressei-me a tomar um banho e colocar uma roupa no mínimo aceitável – jeans e uma camisa xadrez preta e branca – e arrisquei-me com um perfume recém comprado. Recordava-me de como ela gostava dos meus perfumes.
Uma hora e cinquenta minutos depois eu estava parado na entrada do restaurante, reunindo todas as gramas de coragem que existiam no meu ser para adentrar o aposento e finalmente rever a minha melhor amiga e o amor de minha vida. Perguntas demais rodavam em minha mente. “Como ela estaria?” e “Ainda parecia a mesma?” eram as duas questões que mais ousavam incomodar-me. Minhas mãos tremiam quando enfim abri a porta e parei no pequeno balcão no qual a recepcionista me olhava com olhos sorridentes.
– Há uma reserva no nome.. McGreen, Julia? – indaguei, procurando não gaguejar enquanto passava os olhos pelo restaurante, procurando o brilho de seus olhos tão verdes.
– Aqui está. Mesa para três... Aquela ao lado da janela, senhor.
– Desculpe, mesa para três? – comecei a perguntar, mas meus olhos seguiram a direção que ela apontou e de repente eu vi uma mão erguer-se no ar e as palavras se perderam a meio caminho de minha boca. Minhas pernas adquiriram vida própria e foi como se eu estivesse flutuando ao longo dos corredores entre cadeiras e mesas até parar ao lado dela e receber o abraço mais gostoso e perfumado que já recebi.
– Oh, Loius, você está maravilhoso! Não mudou nadinha! – sua voz, tão doce, soou como música em meus ouvidos. Afastei-a alguns milímetros para poder observá-la com clareza. Seus cabelos estavam um pouco mais longos do que me lembrava, chegando até a metade de suas costas, assim como a franja, que parara no meio de sua bochecha o que me fazia imaginar que ela não mais precisaria afastá-la dos olhos. Seus lábios e seu aroma continuavam o mesmo, mas ela estava alguns centímetros mais alta, e o corpo tão bem delineado que parecia ter sido virtualmente arrumado. Estava tão bela que fiquei sem saber o que dizer por alguns instantes.
– Voce está linda – eu disse, abrindo um grande sorriso. Mal conseguia ouvir minhas próprias palavras, de tal alto que eram os meus batimentos cardíacos. Ela sorriu, quase riu, e abanou a mão no ar como se estivesse lançando longe o meu elogio, voltando ao seu lugar logo em seguida. Movia-se com delicadeza, parecia moça nobre, e cravei meus olhos nos dela enquanto me sentava imediatamente à sua frente.
– E você envelheceu – eu conhecia tão bem aquele tom brincalhão!
– Neste caso, imagino que o mesmo tenha acontecido com você, Julia querida. – Brinquei de volta, ansioso por alguma mudança repentina de humor; era sua especialidade. Imagino, no entanto, que os anos a fizeram mais madura, pois a risada que se seguiu não era em nada irônica.
– Ora, imagino que sim! Tempo mata a todos nós, não é mesmo? Mas como você está? Parece tão sério, tão diferente do que me lembro...
Não seria capaz de registrar quanto tempo passamos apenas conversando e pondo as novidades em dia. Pareceram segundos, mas talvez fossem horas enquanto eu comia e ela falava e eu sentia uma paz tão confortante em meu peito, paz essa que eu há muito não sentia. Seu sorriso, seu cabelo, sua pequena mania de morder os lábios a todo momento, o modo com o qual seu nariz franzia quando sorria.. tanto trejeitos que me levavam de volta aos nossos anos de melhores amigos nos quais eu sempre fui profunda e perdidamente apaixonado por ela. Parecia inacreditável que mesmo após tantos anos ela conseguia ser a única mulher que fazia meu coração bater como em uma maratona, meus lábios sorrirem como se meus ouvidos ouvissem a mais bela música e meu estômago embrulhar levemente, com aquelas tão faladas borboletas, cujas atividades eram descritas tão lindamente pelos mais diversos poetas.
Tomávamos um café após o jantar e eu já arquitetava uma maneira de chamá-la para sair, desta vez em um encontro, quando ela pôs a xícara de volta no pires e encarou-me por tanto tempo que senti que corava.
– Ainda não lhe contei a maior novidade de todas – ela disse, por fim. Esperei enquanto ela brincava com o guardanapo, até que seus olhos se focaram nos meus mais uma vez. – Recorda-se de quando éramos mais jovens, brincávamos sobre casamentos e de como um deveria estar presente no casamento do outro? Fizemos uma promessa.
Demorei alguns segundos para compreender de fato o que ela estava tentando me dizer. Fui salvo do dever de responder, no entanto, quando uma figura alta de cabelos curtos e encaracolados, com braços fortes e olhos cor de mel apareceu e, cumprimentando-nos, beijou Julia, minha Julia, nos lábios e abraçou-a da forma com a qual eu nunca pude abraçá-la, compreendi perfeitamente.
E apaguei.
Quando abri os olhos, a primeira coisa que vi foi as esmeraldas que faziam meu coração tremer. Seus olhos estavam arregalados e sua boca pronunciava palavras cujos sons não alcançavam meus ouvidos, tal era a dor que começara em minha cabeça. Havia outra dor, mais incômoda, mais profunda, embora eu não fosse capaz de decidir naquele momento aonde ela se localizava.
– Graças a Deus você está vivo! – foi o primeiro som que ouvi sair de seus lábios uma vez que minha audição retornou, e não pude evitar – apesar da situação nada cômica – de soltar uma leve risada que mais soou como um acesso de tosse. Divertia-me que ela soltasse aquela expressão, sabendo que eu, ateu desde os dezesseis anos, em nada atribuía o fato de eu estar vivo a Deus. Ela, no entanto, era de uma religiosidade fervorosa embora nunca deixasse que suas crenças atrapalhassem em seu modo de vida que alguns avaliariam como “um tanto liberal demais”. O fumo, a bebida, certas drogas alucinógenas e (embora ela nunca comentasse) o sexo eram fatores tão permanentes quanto frequentes em sua vida. Sim, ainda ousava crer que a conhecia mais do que qualquer outra pessoa no mundo jamais pudesse. Enquanto crescíamos segredos foram trocados com cumplicidade no calar da noite em tal tom de urgência que nossos lábios selavam-se antes mesmo que o segredo do outro terminasse de ser pronunciado. Eu vi sua alma. De acordo com as lendas, as almas permanecem sempre as mesmas.
Tentei resmungar para que ela se acalmasse, mas o homem alto chegou primeiro. Vi quando ele sussurrou palavras em seu ouvido esquerdo e notei a imediata mudança em sua expressão. Pude sentir o monstro verde do ciúme crescendo em minhas entranhas, fervendo, entrando em erupção e correndo meu interior.
Mas ela esticou as mãos e tocou meu rosto com urgência, aproximando sua face da minha.
– Não se atreva a desmaiar de novo! Venha, sente-se – e com isso, fui novamente posto do chão, no qual tinha caído ao desmaiar, à mesa. – Está bem? Sentindo-se tonto ou enjoado? – vi seus olhinhos ansiosos perscrutando cada centímetro acessível, e esforcei-me em sorrir e negar com a cabeça, pigarreando e tomando um copo de água às mãos.
– O que queria me dizer, Julia querida?
– Ah, isso... – pareceu hesitar por um momento e olhou interrogativamente para o homem ao seu lado. Minhas entranhas deram uma cambalhota enquanto eu esperava ansiosamente até que ele assentisse. Ela voltou seus olhos para os meus. – Loius, meu amor, este – ela apontou o homem – é Richard. – Seus lábios de repente abriram-se em um sorriso que eu nunca a vira possuir. – Estamos noivos e eu gostaria que você fosse nosso padrinho. Não é o máximo? – ela mostrou-me o dedo anular, no qual repousava uma pequena, mas magnífica, aliança.
Um mês depois e meus olhos ainda ardiam com o esforço em não derramar lágrimas, minhas mãos ainda tremiam com ódio e meu estômago ainda parecia um vácuo. Era a noite do casamento de Julia, de minha Julia e eu vestia um terno. Diferentemente de minhas mais secretas ilusões, no entanto, eu não era o noivo, mas o padrinho. Meu lábio inferior tremeu de leve quando me olhei no espelho da cabine de minha amada, na qual ela terminava de se aprontar.
– Tem certeza disso? – ela gritou, por detrás das cortinas que nos separavam para que ela pudesse trocar de roupas com privacidade.
– Claro que sim. Saia daí e deixe-me vê-la. – Eu me perguntava se minha voz soava como sempre soou para ela, ou se Julia conseguia ouvir o tom de choro que eu não conseguia engolir.
– Não ria! – Como se eu fosse rir! Quase dei uma resposta malcriada, voltando a ser por um momento o adolescente bobo que não era mais do que um garoto apaixonado e despreocupado. As palavras morreram em minha garganta no momento em que ela arrastou a cortina e olhou para mim.
Estava belíssima. Seus cabelos estavam presos em um coque desleixado, e umas mechas caíam pelo seu rosto sem nunca atrapalhar a bela visão. Seu vestido era justo no tronco, com alças que de tão finas eram quase inexistentes, e a partir do quadril o vestido abria-se e caía em cascatas em volta de suas pernas. O véu, preso por uma tiara em seu coque, era somente longo o bastante para atingir seus seios. Cada partícula de Julia brilhava como se ela fosse um anjo. O que, de fato, eu sempre soube que ela era.
Quando recuperei o fôlego, só consegui balbuciar. Ela compreendeu.
– Obrigada. – Andou até mim e pegou minhas mãos nas suas. – Obrigada por estar fazendo isso, Loius. Voce sempre foi meu melhor amigo e simplesmente não pareceria certo que eu me casasse sem você ao meu lado para me dar apoio. Eu te amo. – O abraço que se seguiu foi o abraço que eu me lembrava. Mas ele doeu como ferroadas, e eu não podia soltá-la.
– Julia... – comecei, não acreditando que de fato estava prestes a fazer aquela besteira.
– Sim? – ela afastou seu corpo do meu e fitou-me com olhos sorridentes.
– Eu te amo. – E eu compreendi que ela interpretou-me errado, e apressei-me a continuar antes que toda a minha coragem desaparecesse por completo. – Não apenas como seu melhor amigo. Eu te amei por toda a nossa adolescência, e por todos os meus anos adultos. Nunca tive coragem de lhe dizer, e de repente você tinha que ir para Seattle e todas as minhas chances evaporaram! Eu te amo com o amor mais puro que alguém pode ter, e eu preciso que você me escolha. Desculpe ter demorado tanto tempo para contar-lhe isso. Mas, por favor, escolha a mim. Ame a mim. Não posso e não quero viver sem você e se eu acabar este dia sem você ao meu lado, será a pior tortura que eu poderia imaginar. Eu te amo, Julia. Eu te amo como nunca poderia amar alguém, e eu prometo que vou amá-la para sempre.
Estava sem fôlego quando terminei. Tremia de medo de encará-la e presenciar sua reação. Olhava para ela quanto falava, mas quando terminei passei a fitar meus pés. Senti que ela se afastava um milímetro e, com um medo arrasador, arrisquei um olhar apenas para arrepender-me no mesmo instante. Seus olhos marejados e chocados fitavam-me enquanto o resto da face nada revelava.
Segundos pareceram eternidades, até que eu a soltei.
– Jul...
A porta se abriu repentinamente.
– Loius, está na hora. Venha para o altar. – Era um dos amigos do noivo, e ele não esperou nem mesmo um segundo para adentrar o aposento e arrastar-me para fora dele, puxando-me pelo braço. Finquei meus olhos nos de Julia e pude ver quando seu olhar se amenizou e ela assentiu com a cabeça uma vez, sorrindo, como se me encorajasse a deixar o quarto.
Passei toda a cerimônia fitando a parede, utilizando de cada célula de autocontrole para evitar demonstrar meu desgosto. Sentia um gosto amargo na língua e soube ser suficientemente sincero comigo mesmo para admitir que estava com inveja do homem ao lado de Julia no altar. Richard. O homem que roubou o amor de minha vida. E eu só podia culpar a mim mesmo por ter quebrado meu próprio coração em mil pedacinhos. E pisoteado neles. Afinal, o que eu de fato esperava? Era o dia do casamento dela!
No fim, quando os recém-casados corriam dentre duas filas de convidados que jogavam arroz cru sobre suas cabeças, eu corri. Tinha esperanças de ao menos despedir-me antes que ambos sumissem para sempre na lua-de-mel, no novo apartamento, nos futuros filhos e na vida rotineira e perfeita de casados. Precisava desculpar-me e ouvir uma resposta definitiva. Eu fui seu padrinho. Era seu melhor amigo. Ela não deixaria sem me dar adeus, certo?
Mas quando eu alcancei o carro, eles já estavam ambos lá dentro, acenando feliz para os convidados até que o motorista deu a partida, acelerou e desapareceu na primeira curva.
Três semanas e meu coração ainda doía como se em chamas. Parecia pior agora saber que a perdi para sempre para um americano bonitão do que quando eu sabia que ela estava em Seattle e longe de mim, mas solteira.
Após o casamento, entrei em um buraco do qual me via impossível escapar. Ganhava meu dinheiro trabalhando em casa, o que era ótimo, pois meus dias resumiam-se cada vez mais a garrafas e mais garrafas de licor e cigarro atrás de cigarro, e minhas noites eram mal dormidas após uma maratona de sexo com garotas diferentes cada vez, independente se eu as encontrava no bar ou se pagava por elas.
Certa noite, cheguei do bar desacompanhado. A melancolia era sufocante, impedindo-me de satisfazer o apetite sexual que há pouco adquirira. Abri uma garrafa de licor, acendi um cigarro e sentei-me na poltrona em frente à lareira, relembrando aquela noite do casamento quando tive Julia nos meus braços (ainda que apenas como uma amiga) pela última vez. Notei uma carta que não estava ali quando deixei o apartamento e, reconhecendo imediatamente a letra, a abri. Acredito que nunca chorei tanto em toda a minha vida.
“Loius,
Voltamos hoje de nossa lua-de-mel. Fomos à Austrália, não é maravilhoso? Conhecemos pessoas bacanas, vimos cangurus e pulamos de bungee-jump, além, é claro, de termos mergulhado. Foi como férias, até que nos demos conta de que devíamos decidir aonde seria nossa casa. Resolvemos ficar em Seattle, Loius. Afinal, é onde está toda a vida dele e a minha dos últimos anos.
Por favor, perdoe-me pela minha reação naquele dia. Voce disse lindas palavras. Acredito nunca ter ouvido tantas palavras belas em tão curto espaço de tempo ditas por alguém que realmente significa o mundo para mim. Todavia, confesso que fiquei chocada. Perdoe-me por tratar disso em uma carta, mas fomos direto para nosso novo apartamento, então não tive mesmo tempo de pular em sua casa para que tivéssemos uma conversa decente.
Loius, fomos melhores amigos por toda nossa vida. Eu te amava e fui apaixonada por você durante uns meses, embora hoje acredite que foi aquela paixão de adolescente, entende? Afinal, você é e sempre foi a única pessoa que sempre pôde ver dentro de mim. Sinto tanto que aquele sentimento não cresceu em mim como cresceu com você, pois imagina quão fascinante seria se, além de melhores amigos, fôssemos amantes?
Deus, espero não soar rude. Perdoe-me se soei rude. Preciso que você entenda que terá sempre um espaço enorme em meu coração, um espaço só seu e de mais ninguém ainda que não do jeito que voce gostaria. Acredite, as coisas seriam diferentes se eu pudesse mudá-las. Mas não posso.
Não sei como será para nós, não sei se de fato você um dia perdoar-me-á. Contudo, se conseguir um dia, por favor, faça parte de minha vida novamente. Não quero perdê-lo para os males que nossas sinas criaram para dois tão bons amigos. Preciso de você como sempre precisei de meu melhor amigo e confidente... Isso soou tão egoísta, não é mesmo? Sou egoísta, ambos sempre soubemos disso.
Sinto-me terrivelmente doente por ter lhe machucado com meu silêncio, principalmente após não ter tido chance de despedir-me de você antes de Richard e eu partirmos para nossa lua-de-mel. Portanto, supondo que você jamais poderá ver-me como sua melhor amiga de novo (e eu desesperadamente espero que não seja este o caso) e compensando minha falta de despedida naquele dia, despeço-me aqui.
Voce é e sempre será o sol dos meus dias nublados e o guarda-chuva de meus dias chuvosos. Obrigada por ser um amigo melhor do que eu jamais mereci, e obrigada por ter se sacrificado em meu casamento para que este pudesse ser como eu sempre sonhei. Sou mais do que grata por ter conhecido o homem tão maravilhoso que você é, Loius.
Eu te amo.
Julia”
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