Anoiteceu e estou cercado de fumaça que saem do cigarro em
minhas mãos. Olhe, é noite de lua cheia. Ela ilumina o parque inteiro com sua
luz estonteante, dando uma falsa sensação de segurança aos adolescentes que se
arriscam em seus passeios noturnos. Sinto uma brisa soprando, mas esta é tão
leve que não consegue nem mesmo mover o balanço vazio entre os escorregadores.
Consigo distinguir o cheiro de maconha que aqueles adolescentes fumam, e o som
de suas vozes um tanto alteradas. Almas tão jovens e intocadas pelas tragédias
que uma vida pode criar (sou só eu ou há um clima melancólico no ar?)!
Meus pensamentos deslizam até você, minha querida. Acredito
que nenhum daqueles adolescentes perdidos em suas juventudes rebeldes jamais
tenham sentido o amargo gosto da perda. Provavelmente nenhum deles jamais amou
alguém, especialmente como eu amei você. Como ainda a amo.
A lua está tão bonita, minha querida. A paisagem desta noite
que o parque e a lua criam para mim com certeza estaria dentre suas favoritas.
Sei o quanto apreciavas a noite. Admito que me era difícil compreender a
obsessão que sua pessoa tinha para com a noite, mas agora, observando as
árvores iluminadas pelo brilho branco do satélite, eu compreendi. A lua sorria
para mim como sei que sorria para você. Ela pisca e ilumina e cria a mais bela
paisagem todas as noites. Só que seria mais bela, minha querida, se tu estivesses
aqui.
Peço que me perdoe, mas tudo me lembra de você. Uma paisagem
bonita, o aroma de baunilha, o exalar da fumaça de um cigarro, rock dos anos
60, uma xícara de café ou de chá, o aroma de livros velhos... é uma lista interminável.
Querendo ou não, deixastes pedaços de você em mim, no mundo, quando se foi.
Quando um cigarro termina, outro começa. “Fumo para morrer”,
uma vez ouvi uma voz bonita afirmar. Não acho que tenha sido você, ainda que,
intimamente, eu esteja certo de que era seu motivo para tragar cigarro atrás de
cigarro diariamente.
A lua continua subindo, dançando, observando-me. Ó, Lua! Por
acaso estais guardando o espírito de minha querida consigo? Será este seu
sorriso na verdade o sorriso que ela dirigia a mim? Ó, Lua, se sabes dela, diga-me
se ela está bem! Quão difícil é não acreditar em céu e inferno quando se
desejas o melhor para a alma que já se foi! Lua, brilhe sobre mim e dê-me
forças para compreender o que quer que eu tenha de compreender!
Hoje faz um mês sem você, minha querida. O mês mais longo de
minha vida. Não tens ideia do quão diferente o mundo está. Algo está faltando. Saber
que não mais poderei ver seu sorriso, tocar seu rosto e seu cabelo, acariciar
sua pele e ouvir sua risada me faz indagar se vale a pena continuar (se eu me
fosse contigo, talvez pudéssemos fazer um piquenique na Lua).
Há um peso em meu peito. Às vezes esqueço-me que não posso
mais vê-la e preparo-me com todo o carinho. Então, na metade do caminho até sua
casa, recordo-me do ocorrido e desmancho-me em lágrimas, sentado na calçada e
cobrindo o rosto com os cabelos (hábito que adquiri de você, minha querida).
Lua, não se vá! Seja minha companheira, não há motivo para
se esconder atrás das nuvens. Não lhe farei mal. Perdoe-me se falo demais, mas
sem ela, ó Lua, estou perdido. Converso contigo pois era o que ela fazia, cada
vez mais frequentemente quando a loucura ficou mais forte. Só mais algumas
horas, dona Lua, e prometo que me calarei como o cigarro que agora apago.
Preciso clarear minha cabeça, entende? Preciso distrair-me, decidir-me. Viver
sem ela não é uma opção, entende? Contudo, não creio que tenha forças para
seguir com meu plano inicial.
Minha querida, minha pequena, meu doce. Perdoe-me. Sei o
quanto ignorava os apelidos que lhe dei, chamando-os de “românticos demais”.
Sua alma, tão negra, tão devastada, não permitia que os mais puros sentimentos
a fizessem de moradia. Não importa. Meus sentimentos eram (e ainda são, minha
querida) puros o bastante para ambos.
Vejo alguns morcegos e recordo-me do medo que tinhas deles.
Pude ver, mentalmente, seu rosto contorcido de horror e pude imaginar você se
escondendo atrás de mim, como se eu fosse um escudo, como se o morcego não
pudesse senti-la enquanto eu a estivesse protegendo.
Ó, Lua. Já está na hora? Por favor, aguente só mais um
pouco. A saudade ainda arde em meu peito, preciso de apenas mais alguns
minutos. Perdoe-me se a entedio. Aposto que és obrigada a escutar muitos
relatos de corações apaixonados e partidos e que seu peito (se é que tens
algum) já está cheio das dores alheias. Como uma psicóloga emudecida, creio que
tiraria sua própria vida, se isso a libertasse das angústias que és obrigada a
confidenciar.
Sinto falta de seu abraço, meu bem. Sinto falta do aroma de
seus cabelos e de suas piadas de mau gosto e de seu mau humor de manhã. Sinto
falta de seus acessos de raiva e de suas broncas. Sinto falta de seu otimismo
irritante e de sua culinária horrorosa. Sinto falta de seus tapas e de seus
beijos. Sinto falta de seu sorriso e de seu corpo junto ao meu na calada da
noite. Sinto falta de você, meu bem.
Ó, Lua! Consegue imaginar um amor tão paradoxo? Porque a amo
e a odeio ao mesmo tempo, Lua. Amo-a por ter sido o que foi, a criatura
recheada de trevas mais pura que já conheci, aquela que, se céu e inferno
existem, teve os portões do Paraíso abertos para si no momento de seu último
suspiro. E a odeio, Lua. Odeio porque tirou sua própria vida e me deixou aqui
desamparado, sofrendo e necessitando de sua volta. Odeio-a porque se passou um
mês e sua morte ainda não parece real, fazendo crescer o desespero em meu
coração.
Não me entenda mal, Lua. Sei do que ela gostaria, sei quais eram
seus desejos finais. Entretanto, seguir em frente não é tão fácil quanto
parece, não é mesmo? Sinto tanto a falta dela que é como se parte de mim
tivesse ido junto. Não é justo, Lua, concordas comigo?
Vejo que está na hora. Permite-me só mais uma pergunta, ó
Lua? Acha que conseguirei viver sem ela? Acha que esse buraco em meu peito será
um dia preenchido se eu resolver deixar este parque com sangue ainda correndo
em minhas veias? Tenho medo, tanto medo de nunca amar ninguém como a amei. Como
a amo. Acha que ela está em um lugar melhor, Lua (se é que realmente existe um
lugar para o qual nossas almas vão quando o corpo está a apodrecer)?
Pois bem.
Ergui-me do banco no qual estava sentado. Apaguei meu
(quinto? Sexto?) cigarro daquela noite e, evitando os adolescentes cada vez
mais bêbados a um canto, deixei o parque enquanto a Lua se escondia e o Sol
começava seu reinado.
Sinto sua falta, querida.
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