quarta-feira, 4 de julho de 2012

The Moon Will Tell You What to Do


Anoiteceu e estou cercado de fumaça que saem do cigarro em minhas mãos. Olhe, é noite de lua cheia. Ela ilumina o parque inteiro com sua luz estonteante, dando uma falsa sensação de segurança aos adolescentes que se arriscam em seus passeios noturnos. Sinto uma brisa soprando, mas esta é tão leve que não consegue nem mesmo mover o balanço vazio entre os escorregadores. Consigo distinguir o cheiro de maconha que aqueles adolescentes fumam, e o som de suas vozes um tanto alteradas. Almas tão jovens e intocadas pelas tragédias que uma vida pode criar (sou só eu ou há um clima melancólico no ar?)!
Meus pensamentos deslizam até você, minha querida. Acredito que nenhum daqueles adolescentes perdidos em suas juventudes rebeldes jamais tenham sentido o amargo gosto da perda. Provavelmente nenhum deles jamais amou alguém, especialmente como eu amei você. Como ainda a amo.
A lua está tão bonita, minha querida. A paisagem desta noite que o parque e a lua criam para mim com certeza estaria dentre suas favoritas. Sei o quanto apreciavas a noite. Admito que me era difícil compreender a obsessão que sua pessoa tinha para com a noite, mas agora, observando as árvores iluminadas pelo brilho branco do satélite, eu compreendi. A lua sorria para mim como sei que sorria para você. Ela pisca e ilumina e cria a mais bela paisagem todas as noites. Só que seria mais bela, minha querida, se tu estivesses aqui.
Peço que me perdoe, mas tudo me lembra de você. Uma paisagem bonita, o aroma de baunilha, o exalar da fumaça de um cigarro, rock dos anos 60, uma xícara de café ou de chá, o aroma de livros velhos... é uma lista interminável. Querendo ou não, deixastes pedaços de você em mim, no mundo, quando se foi.
Quando um cigarro termina, outro começa. “Fumo para morrer”, uma vez ouvi uma voz bonita afirmar. Não acho que tenha sido você, ainda que, intimamente, eu esteja certo de que era seu motivo para tragar cigarro atrás de cigarro diariamente.
A lua continua subindo, dançando, observando-me. Ó, Lua! Por acaso estais guardando o espírito de minha querida consigo? Será este seu sorriso na verdade o sorriso que ela dirigia a mim? Ó, Lua, se sabes dela, diga-me se ela está bem! Quão difícil é não acreditar em céu e inferno quando se desejas o melhor para a alma que já se foi! Lua, brilhe sobre mim e dê-me forças para compreender o que quer que eu tenha de compreender!
Hoje faz um mês sem você, minha querida. O mês mais longo de minha vida. Não tens ideia do quão diferente o mundo está. Algo está faltando. Saber que não mais poderei ver seu sorriso, tocar seu rosto e seu cabelo, acariciar sua pele e ouvir sua risada me faz indagar se vale a pena continuar (se eu me fosse contigo, talvez pudéssemos fazer um piquenique na Lua).
Há um peso em meu peito. Às vezes esqueço-me que não posso mais vê-la e preparo-me com todo o carinho. Então, na metade do caminho até sua casa, recordo-me do ocorrido e desmancho-me em lágrimas, sentado na calçada e cobrindo o rosto com os cabelos (hábito que adquiri de você, minha querida).
Lua, não se vá! Seja minha companheira, não há motivo para se esconder atrás das nuvens. Não lhe farei mal. Perdoe-me se falo demais, mas sem ela, ó Lua, estou perdido. Converso contigo pois era o que ela fazia, cada vez mais frequentemente quando a loucura ficou mais forte. Só mais algumas horas, dona Lua, e prometo que me calarei como o cigarro que agora apago. Preciso clarear minha cabeça, entende? Preciso distrair-me, decidir-me. Viver sem ela não é uma opção, entende? Contudo, não creio que tenha forças para seguir com meu plano inicial.
Minha querida, minha pequena, meu doce. Perdoe-me. Sei o quanto ignorava os apelidos que lhe dei, chamando-os de “românticos demais”. Sua alma, tão negra, tão devastada, não permitia que os mais puros sentimentos a fizessem de moradia. Não importa. Meus sentimentos eram (e ainda são, minha querida) puros o bastante para ambos.
Vejo alguns morcegos e recordo-me do medo que tinhas deles. Pude ver, mentalmente, seu rosto contorcido de horror e pude imaginar você se escondendo atrás de mim, como se eu fosse um escudo, como se o morcego não pudesse senti-la enquanto eu a estivesse protegendo.
Ó, Lua. Já está na hora? Por favor, aguente só mais um pouco. A saudade ainda arde em meu peito, preciso de apenas mais alguns minutos. Perdoe-me se a entedio. Aposto que és obrigada a escutar muitos relatos de corações apaixonados e partidos e que seu peito (se é que tens algum) já está cheio das dores alheias. Como uma psicóloga emudecida, creio que tiraria sua própria vida, se isso a libertasse das angústias que és obrigada a confidenciar.
Sinto falta de seu abraço, meu bem. Sinto falta do aroma de seus cabelos e de suas piadas de mau gosto e de seu mau humor de manhã. Sinto falta de seus acessos de raiva e de suas broncas. Sinto falta de seu otimismo irritante e de sua culinária horrorosa. Sinto falta de seus tapas e de seus beijos. Sinto falta de seu sorriso e de seu corpo junto ao meu na calada da noite. Sinto falta de você, meu bem.
Ó, Lua! Consegue imaginar um amor tão paradoxo? Porque a amo e a odeio ao mesmo tempo, Lua. Amo-a por ter sido o que foi, a criatura recheada de trevas mais pura que já conheci, aquela que, se céu e inferno existem, teve os portões do Paraíso abertos para si no momento de seu último suspiro. E a odeio, Lua. Odeio porque tirou sua própria vida e me deixou aqui desamparado, sofrendo e necessitando de sua volta. Odeio-a porque se passou um mês e sua morte ainda não parece real, fazendo crescer o desespero em meu coração.
Não me entenda mal, Lua. Sei do que ela gostaria, sei quais eram seus desejos finais. Entretanto, seguir em frente não é tão fácil quanto parece, não é mesmo? Sinto tanto a falta dela que é como se parte de mim tivesse ido junto. Não é justo, Lua, concordas comigo?
Vejo que está na hora. Permite-me só mais uma pergunta, ó Lua? Acha que conseguirei viver sem ela? Acha que esse buraco em meu peito será um dia preenchido se eu resolver deixar este parque com sangue ainda correndo em minhas veias? Tenho medo, tanto medo de nunca amar ninguém como a amei. Como a amo. Acha que ela está em um lugar melhor, Lua (se é que realmente existe um lugar para o qual nossas almas vão quando o corpo está a apodrecer)?
Pois bem.
Ergui-me do banco no qual estava sentado. Apaguei meu (quinto? Sexto?) cigarro daquela noite e, evitando os adolescentes cada vez mais bêbados a um canto, deixei o parque enquanto a Lua se escondia e o Sol começava seu reinado.
Sinto sua falta, querida.

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