sábado, 13 de novembro de 2010

Hate is What I Am

Era nojento.
O modo que eu me sentia era repugnante. Inferior, desprezível. Corria-me por dentro como um verme, infectando meu organismo pouco a pouco. Destruía-me de dentro para fora, ainda que eu fizesse todo o possível para evitar que o sentimento transparecesse em minha face. Eu sorria, eu disfarçava. 
Às vezes eu achava que dissimular era um de meus talentos. 
Sentia nojo de meus sentimentos caluniosos que formavam pensamentos recheados de escárnio que aparentemente procuravam apaziguar o tormento. Criavam garras. Arrastavam-se lentamente pelo meu corpo, tomando-me por sua, criando raízes em suas próprias raízes.
Toda minha vida fui perseguida por estes vermes, que utilizavam dos momentos em que minha auto-estima encontrava-se mais baixa do que geralmente é, incrementando meu ódio por mim mesma, alimentando o monstro que, tenho certeza, um dia virá a me destruir. Era a inferioridade, o desprezo por mim mesma, alimentando a bolha que me separava de quem me amava.
A bolha trabalhava em conjunto com os vermes, conspirando contra mim. Prendiam-me, isolando meu ser do contato agradável com os outros, visando meu extermínio. Eu não compreendia as razões para tanta animosidade, contudo já não havia em mim entusiasmo suficiente para proferir as perguntas, perseguir as respostas. 
Eu era fraca. Facilmente acessível para estes sentimentos, naturalmente fadada a sentir-me destas formas. Um alvo fácil, um patinho parado. Eles me alcançavam e me dominavam com tal naturalidade que é de se pensar que eu já era programada para isso. Um fantoche. 
Eu não merecia os amigos que possuía, o amor que lançavam em mim. Não me sentia no direito de receber o que eles pensavam que eu merecia. Por dentro, eu era suja, repugnante, vil. Possuía um parasita dentro de mim. Ele falava. Possuía língua e garras afiadas. Rastejava dentro de mim, deixando um rastro de repulsa. Eu estava infectada por ele. 
Vomitava ódio, levando-me à loucura da infecção, ao desprezo profundo. E o verme alimentava-se deste mesmo sentimento, criando um ciclo interminável, nauseante.
De vez em quando, ele se acalmava. Hibernava. E eu voltava à minha vida medíocre, exagerando na ilusão da felicidade. Até que, movida por um mínimo detalhe, a mais débil faísca, o verme acordava, retomando sua dança da morte.
Porque eu sentia como se estivesse morrendo, definhando.
Chorar não adiantava. O sentimento continuava ali, sufocando-me, consumindo-me. Criava vertigens, pensamentos delirantes. E, de repente, a fantasia de mirar uma arma em meu próprio crânio ou tomar uma overdose de bebidas e pílulas já não me pareciam idéias tão mirabolantes. 
Não era crise. Havia algo de errado no modo com o qual eu enxergava os outros, no modo que eu me sentia. Enclausurada. Sentia-me como se houvesse outra pessoa dentro de mim, completamente o oposto do que eu procurava demonstrar aos outros.
Porque o meu verdadeiro eu — aquele atormentado pelos vermes, pela bolha e pelas fantasias suicidas — era sórdido. Horripilante demais, até para mim mesma.
Duvidava que os outros percebessem. Porque eu era boa demais em dissimular, e minhas desculpas deformadas em mentiras tomavam forma de verdades convincentes, acompanhadas de um sorriso sem graça.
E às vezes eu me perguntava se eles acreditavam em mim porque eu era boa atriz ou porque não se importavam de verdade.
Contudo, no fundo — em algum ponto entre o rastejar do verme e a dor que assolava meu coração — eu sabia que não importava.
Nunca cutuque um dragão adormecido. Porque ele pode acordar. E ninguém — ninguém mesmo — seria beneficiado com o resultado.
Em suma, eu tinha medo de mim. Medo do que era realmente. Medo da força que este verdadeiro eu poderia ter. E eu tinha esperanças que este eu permanecesse bem guardado no fundo de minha alma. Pois eu sabia que, no momento em que ele se mostrasse, eu perderia tudo.
Acho que isso me transformava em uma pessoas "duas caras". Mais um item em minha lista de pensamentos desagradáveis.


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