Ela girou a seringa nos dedos, os olhos fixos num ponto invisível da parede. Fazia uma contagem.
Um... dois... três...
Por um lado, queria ter esperado até chegar no cinco. Por outro, era melhor ir de uma vez. Aquela era a parte mais desagradável, até porque haviam pessoas por perto. Passavam, encaravam.
É a porra da minha vida. Por que não podem fingir que não vêem?, foi o último pensamento antes de enfiar a agulha na veia e injetar o líquido.
Libertação. Não precisou esperar muito, e o mundo, de repente, se transformou num lugar melhor. Mais bonito, mais paciente. Melhor. A parte ruim, no entanto, seria não lembrar-se disso na manhã seguinte.
Acordou em sua própria cama, com as roupas rasgadas. Sua cabeça parecia a ponto de explodir. Podia sentir o estresse subindo pela sua garganta, rasgando sua pele. O efeito passara, é claro.
Chutou o cobertor para fora, sentindo calor. O quarto era abafado, escuro. O que era ótimo, tendo em vista que ela sabia que qualquer ponto de luz poderia fazer seus olhos saltarem para fora das órbitas.
Com cuidado, ergueu-se da cama, tateando pelas paredes em busca da maçaneta da porta. Quando a encontrou, suspirou de alívio, pulando para fora do quarto quente.
Banheiro, precisava de um banheiro.
Não sabia quando tempo ficara dentro daquela banheira, apenas sentindo a água penetrar em cada poro de seu corpo. Tinha certeza que tivera outro blackout. A água, que inicialmente se encontrava gelada, agora esquentara.
Arrastou-se para fora da banheira, encarando seu reflexo no grande espelho que ocupava a parede inteira imediatamente à sua frente. Torceu o nariz para a imagem, sentindo nojo; aquela garota magra, pálida, de olheiras fundas e cabelos escuros sem vida não era uma visão que ela poderia considerar atraente. Virou as costas, enrolando-se na toalha.
Não via finalidade em arrumar a casa ou a si mesma, tendo em vista que não deixaria o local. Comprara, na noite passada, estoque suficiente para mais ou menos uma semana, caso soubesse exatamente como controlar as doses. Havia comida e dinheiro suficientes dentro da casa, o que significava inutilidade em sair para qualquer canto que fosse.
Ainda estava nua, jogada no chão e enrolada naquela toalha quase encardida, encarando o teto. Via os minutos e as horas passarem por ela, arrastando-se como vermes nas paredes. Por vezes, imaginou que os sentia subindo também por seu corpo. Mas não se mexeu. Sabia que era uma sensação passageira.
O telefone tocou, aquele som irritante que parecia quebrar as paredes de seu crânio, fazendo-o gemer como se fossem as extremidades de um sino.
Com um gemido, ela cobriu a cabeça com a toalha, consequentemente descobrindo a parte inferior de seu corpo. Sentiu frio e começou a tremer, embora duvidasse que fosse por causa do ar gélido que flutuava pela janela minimamente aberta. Tocou a própria pele, convencida de que a culpa era toda e somente da heroína.
O frio atingiu seus ossos e ela achou que ia morrer. A dor era insuportável; ela não resistiu e gritou.
Ninguém a ouviu, pois não havia ninguém ali.
Quando acordou, ainda haviam frestas de luz penetrando timidamente o quarto escuro. A dor havia passado, porém ela continuava sentindo-se fraca, muito fraca. Tentou levantar-se usando os braços como apoio, mas quase caiu com o rosto voltado para o chão. Tentou novamente e viu-se de pé, esquecendo a toalha no carpete nojento.
Havia outro espelho naquela parede. Pra que tantos espelhos?, pensou com repugnância ao encarar novamente a própria imagem refletida. Não conseguia recordar-se das razões que a levaram a inundar o apartamento com espelhos. Afinal, eles de nada serviam a não ser lembrá-la da vida desprezível que levava.
Pela primeira vez em muito tempo, resolveu avaliar o reflexo do espelho. Foi aterrorizante, mas ao menos permitiu que ela examinasse a própria imagem, ainda que esta estivesse um tanto desfigurada por conta da expressão de repulsa em seu rosto.
Estava puro osso, completamente fraca. Sua face pálida lhe dava a aparência de doente, contrastando com as olheiras profundas nos olhos escuros. Sua boca, seca e rachada, parecia uma linha fina, e seus cabelos, também secos e sem vida, pendiam oleosos sobre o rosto, escondendo-o.
Era a ilustração do vício, o reflexo da heroína.
Com nojo de si mesma, e com ódio da imagem, ela agarrou um abajur próximo e ele logo voava de encontro ao vidro.
Mais um blackout. Já estava se tornando irritante.
Novamente jogada ao chão, virou-se de lado, imediatamente encarando a única parede em todo o apartamento que não estava nua, mas sim coberta com uma colagem mal feita de fotos alegres, todas com as mesmas duas pessoas. Ou melhor, a mesma garota e o mesmo rosto queimado com cigarro.
Por toda a parede, aquelas fotos que um dia retrataram uma felicidade a dois, agora mostravam apenas um rosto feminino sorridente, abraçando, beijando ou apenas ao lado de um garoto cujo rosto já não era nada mais que um ponto queimado.
A visão a fez chorar como raramente chorava, afogando-se em lágrimas que expressavam uma mistura de sentimentos tão intensa que ela já não mais sabia diferenciar um do outro.
Quando conseguiu levantar-se de novo, após acordar mais uma vez, sua cabeça já não mais doía, sentia-se um pouco mais forte. O alívio.
A primeira coisa que fez ao reparar que conseguia andar e que a tremedeira passara, foi pegar novamente a seringa.
Para voltar ao ciclo, tudo de novo.
Com cuidado, ergueu-se da cama, tateando pelas paredes em busca da maçaneta da porta. Quando a encontrou, suspirou de alívio, pulando para fora do quarto quente.
Banheiro, precisava de um banheiro.
Não sabia quando tempo ficara dentro daquela banheira, apenas sentindo a água penetrar em cada poro de seu corpo. Tinha certeza que tivera outro blackout. A água, que inicialmente se encontrava gelada, agora esquentara.
Arrastou-se para fora da banheira, encarando seu reflexo no grande espelho que ocupava a parede inteira imediatamente à sua frente. Torceu o nariz para a imagem, sentindo nojo; aquela garota magra, pálida, de olheiras fundas e cabelos escuros sem vida não era uma visão que ela poderia considerar atraente. Virou as costas, enrolando-se na toalha.
Não via finalidade em arrumar a casa ou a si mesma, tendo em vista que não deixaria o local. Comprara, na noite passada, estoque suficiente para mais ou menos uma semana, caso soubesse exatamente como controlar as doses. Havia comida e dinheiro suficientes dentro da casa, o que significava inutilidade em sair para qualquer canto que fosse.
Ainda estava nua, jogada no chão e enrolada naquela toalha quase encardida, encarando o teto. Via os minutos e as horas passarem por ela, arrastando-se como vermes nas paredes. Por vezes, imaginou que os sentia subindo também por seu corpo. Mas não se mexeu. Sabia que era uma sensação passageira.
O telefone tocou, aquele som irritante que parecia quebrar as paredes de seu crânio, fazendo-o gemer como se fossem as extremidades de um sino.
Com um gemido, ela cobriu a cabeça com a toalha, consequentemente descobrindo a parte inferior de seu corpo. Sentiu frio e começou a tremer, embora duvidasse que fosse por causa do ar gélido que flutuava pela janela minimamente aberta. Tocou a própria pele, convencida de que a culpa era toda e somente da heroína.
O frio atingiu seus ossos e ela achou que ia morrer. A dor era insuportável; ela não resistiu e gritou.
Ninguém a ouviu, pois não havia ninguém ali.
Quando acordou, ainda haviam frestas de luz penetrando timidamente o quarto escuro. A dor havia passado, porém ela continuava sentindo-se fraca, muito fraca. Tentou levantar-se usando os braços como apoio, mas quase caiu com o rosto voltado para o chão. Tentou novamente e viu-se de pé, esquecendo a toalha no carpete nojento.
Havia outro espelho naquela parede. Pra que tantos espelhos?, pensou com repugnância ao encarar novamente a própria imagem refletida. Não conseguia recordar-se das razões que a levaram a inundar o apartamento com espelhos. Afinal, eles de nada serviam a não ser lembrá-la da vida desprezível que levava.
Pela primeira vez em muito tempo, resolveu avaliar o reflexo do espelho. Foi aterrorizante, mas ao menos permitiu que ela examinasse a própria imagem, ainda que esta estivesse um tanto desfigurada por conta da expressão de repulsa em seu rosto.
Estava puro osso, completamente fraca. Sua face pálida lhe dava a aparência de doente, contrastando com as olheiras profundas nos olhos escuros. Sua boca, seca e rachada, parecia uma linha fina, e seus cabelos, também secos e sem vida, pendiam oleosos sobre o rosto, escondendo-o.
Era a ilustração do vício, o reflexo da heroína.
Com nojo de si mesma, e com ódio da imagem, ela agarrou um abajur próximo e ele logo voava de encontro ao vidro.
Mais um blackout. Já estava se tornando irritante.
Novamente jogada ao chão, virou-se de lado, imediatamente encarando a única parede em todo o apartamento que não estava nua, mas sim coberta com uma colagem mal feita de fotos alegres, todas com as mesmas duas pessoas. Ou melhor, a mesma garota e o mesmo rosto queimado com cigarro.
Por toda a parede, aquelas fotos que um dia retrataram uma felicidade a dois, agora mostravam apenas um rosto feminino sorridente, abraçando, beijando ou apenas ao lado de um garoto cujo rosto já não era nada mais que um ponto queimado.
A visão a fez chorar como raramente chorava, afogando-se em lágrimas que expressavam uma mistura de sentimentos tão intensa que ela já não mais sabia diferenciar um do outro.
Quando conseguiu levantar-se de novo, após acordar mais uma vez, sua cabeça já não mais doía, sentia-se um pouco mais forte. O alívio.
A primeira coisa que fez ao reparar que conseguia andar e que a tremedeira passara, foi pegar novamente a seringa.
Para voltar ao ciclo, tudo de novo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário