segunda-feira, 18 de outubro de 2010

The Man in the Shadows


          A verdade caiu sobre ele, como se raios o tivessem eletrocutado. Seus olhos se arregalaram, enquanto se esforçava para pronunciar as palavras que lhe custavam o mundo. Não podia acreditar no que acabara de ouvir ser dito em voz tão doce e calma. Na voz que confiara.
          — Você.. ! Você é.. Ele ! — Era só o que conseguia dizer.
          O rosto à sua frente não demonstrou emoção. Agia como se entediado. Após as palavras balbuciadas pelo homem que desprezava, um sorriso desdenhoso apareceu, brincando em seus lábios; divertia-se com o violento transtorno do outro. Não disse nada, embora soubesse e gritasse internamente que o outro estava errado. Não era ele.
          Nunca fora o que a cidade agora chamava de “O Homem Nas Sombras”. Não matava inocentes apenas por prazer. Não andava escondido nas sombras da cidade iluminada, como se com medo de mostrar a verdadeira face, como uma criança brincando de esconde-esconde. Não era o homem que aterrorizava a cidade nos últimos meses.
          Entrementes, admitia que matar era como um prazer. Cruel, mas que lhe satisfazia como a pior das drogas. Ver o último fulgor de vida desaparecer dos olhos dos que diziam que ele nunca fora “de nada”, ouvir os ocasionais berros de dor. Os últimos, antes do silêncio que era sempre bem-vindo. Era viciante.
          Admitia também que era o homem que apavorava o que estava à sua frente. Nunca gostara daquele ricaço metido que pensava que tinha verdadeiros amigos. Bom, pelo menos ele não era. Passara os últimos meses preparando e antegozando este momento, que seria o melhor de sua vida. Anos atrás, este mesmo homem parado à sua frente acabara com sua vida. Agora era sua vez. De um modo mais trágico, é verdade. Contudo.. era o melhor. O mais prazeroso.

          O traído ainda conservava a expressão do que era. Um homem traído pelo que confiava. Sua ilusão de melhor amigo.
          Agora compreendia. Agora entendia tudo. Fora burro, ingênuo de não perceber antes. Agora ficava tudo claro como cristal; o porquê de todas aquelas reuniões secretas, o porquê de o outro sempre lhe proteger de forma quase obsessiva. O porquê de ter cada um de seus passos vigiados.
          Sabia que ia morrer.
          Só isso explicaria o motivo de o traidor insistir tanto em levar aquela cara espada de safiras para uma simples visita a um cemitério. Sua morte fora planejada cruel e friamente. E ele nem percebera.
          Seu tempo estava se esgotando. O traído, contudo, estava engasgado em suas próprias palavras; elas não ultrapassavam sua garganta, não conseguiam transformar-se em sons que fizessem sentido. Sua vontade era berrar, humilhar o traidor à sua frente, fazê-lo pagar pelo mal que lhe fizera. Entretanto, só conseguia que seus olhos se arregalassem cada vez mais e esperar, silenciosa e debilmente, pelo seu fim, que chegaria nas mãos sujas daquele traidor, que parecia se divertir com a situação desesperadora na qual o traído vivia naqueles momentos de pura agonia.
          Quando, finalmente, aconteceu.
          Um único movimento. Um clarão azul. E a dor.
          Baixando os olhos para o próprio peito coberto pela capa de viagem, o traído sentiu que seus olhos pegavam fogo em contato com o brilho estonteante daquele punho cravejado de safiras. Aquela espada afiada, fria e letal estava encravada em seu peito, que jorrava sangue fresco e extremamente vermelho. Sentia seu corpo ficando pesado e, como seu último ato, fixou seus olhos nos do traidor, tentando, com todas as suas forças, culpá-lo, fazê-lo sentir remorso. Segundos depois, não sentiu mais nada, e seu corpo bateu no chão.

          O traidor não tinha medo de olhar nos olhos semimortos do outro. Os encarava com a mesma frieza que encararia qualquer outra vítima; não era importante. Quando o último fulgor de vida desapareceu dos olhos do traído, o traidor não se moveu. O único indício de que finalmente fizera o que tanto procurava fazer há tanto tempo, foi um sorriso brincar em seus lábios. Um sorriso maníaco, que se transformou em uma risada maquiavélica.

          O traído agora jazia morto no chão, aos pés de seu traidor. Ele não presenciou conscientemente a risada do traidor ecoar pelo cemitério deserto, nem o brilho vermelho que perpassou pelos olhos do mesmo. Ele não ouviu quando a risada se transformou em um grito sufocado de terror, nem viu o lampejo vermelho e ouro que voou ao encontro do traidor.

          Estava em chamas. Seu corpo pegava fogo. As labaredas laranjas que subiam de seu corpo, agora invisível em meio às chamas, alcançavam seu rosto e o lambiam, como uma fera que prova gentilmente sua presa antes de devorá-la com voracidade, não deixando que parte alguma sobrevivesse.
          A agonia era tamanha, que seu berro cresceu em seu peito e rasgou sua garganta, ecoando no espaço vazio daquele cemitério que agora levaria consigo mais duas almas.
          Olhando na direção de onde as chamas vieram, o traidor não acreditou no que vira. Nuvens se moveram, banhando-os com o luar. As luzes da lua e das chamas somadas iluminaram o espaço à frente do homem agonizante e do corpo morto.
          Um brilho de óculos nas sombras. Um sorriso de dentes brilhantes. Um sorriso cínico, maldoso. E então, enquanto seu corpo se desintegrava em cinzas negras e caíam ao chão, um brilho de compreensão passou pelos olhos do traidor — seu último brilho, antes de ficar opaco para sempre. O traidor fora assassinado. Por ele.

          Quando já não restava nada mais do que cinzas do que antes fora um traidor da pior espécie, algo se mexeu, há um quilômetro de distância. Uma figura alta baixava um lança-chamas, soltando-o no chão, fazendo um baque surdo com o contato forçado. Uma capa esvoaçou e um chapéu caiu ao chão. Uma mão, coberta por uma luva preta o pegou, e colocou acima de uma cabeça abaixada. Ao levantar sua face, seus óculos brilharam e ele se afastou, pisando em folhas secas que faziam barulhos de trituração, com aquele sorriso terrível dançando em seus lábios. Seu trabalho estava feito. Assassinara mais um. Um grande traidor, desta vez.
          Afinal, o Homem Nas Sombras admitia que era um louco homicida. Mas este louco homicida detestava traidores.

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