Eu andava por um lugar estranho, diferente. Via rostos novos, coisas novas. Sentia uma agonia no coração e via um rosto em minha mente. Mas queria apagá–lo. Por casa de tal rosto, meus olhos se encheram de lágrimas, e eu continuei andando, tateando por aí. Cheguei num lugar escuro e quase bati na parede. O escuro não me ajudava, só piorava, pois continuei vendo seu rosto, mas mais nitidamente. Meu peito ardia, a agonia era grande, meu estômago borbulhava, não conseguia respirar. Eu tremia. Então, ainda tateando, achei uma porta. Eu agora o via ao meu lado, puxando minha mão, sussurrando com urgência que eu não abrisse a porta. Eu não lhe dei ouvidos, estava com fome, estava cansada, queria sair dali. Soltei minha mão e caí no chão. Estava molhado; água. Forçando meus olhos no escuro, olhei a “sala”. Vi algo se mexer e engoli em seco. Levantei-me, escorregando e voltei para a porta.
Dessa vez ele estava realmente urgente. Puxava minha mão com força. Eu não queria ir junto, ele não podia me obrigar. Eu tateei pela parede, procurando a maçaneta. Encontrei-na. Tentei abrir a porta. Ele se irritou levemente. Pegou minha mão, que estava na maçaneta e virou meu rosto, me fazendo olhá–lo. Eu não tive como resistir; estava fraca e ele era forte. Tive que encará–lo nos olhos. Mas uma parte de mim queria isso, que ele me tirasse de lá, que ele me abraçasse. Encarei aqueles olhos castanhos, urgentes, preocupados. Ele disse que havia algo ruim atrás daquela porta. Eu só ouvi com metade da atenção. Estava ocupada demais, olhando aqueles olhos, tão lindos. Mas meu peito gritava para acreditar nele, para sair com ele, para abraçá–lo. Só que eu não podia, não ia ceder. Soltei-me dele, já chorando. Sussurrei que o amava e olhei a porta. Ele não ia desistir tão fácil. Pegou-me pela cintura e me virou para ele novamente. Disse que me amava também. Não acreditei nele. Soltei-me, me virei rápido demais. Caí mais uma vez. Não era mais água que tinha no chão, era algo diferente, pegajoso. Sangue. Levantei-me com pressa e quase berrando e abri a porta. Entrei onde quer que fosse. Ele berrou, com medo naqueles olhos castanhos tão lindos.
Eu só vi um poço, vi o vazio. Comecei a cair. Fechei os olhos, mas vi o rosto dele. Vi com nítida clareza. Parecia que seu rosto de aproximava do meu. Com essa imagem, abri meus olhos, assustada. Vi o chão se aproximando, tinha algo branco, brilhante lá embaixo. Não quis saber o que era. Senti-me idiota. Ele queria me proteger, me salvar e eu fui tão teimosa, tão ridícula. E eu ia morrer. Por incrível que pareça, não me desesperei. Com que calma posso ver minha morte se aproximar! Não olhei mais o chão, olhei as paredes passando rapidamente. Olhei seu rosto mais uma vez. Pelo visto, minha última visão seria o rosto dele. Ótimo. Preparei-me para o impacto e... Acordei !
Acordei tremendo , com cada neurônio lembrando do sonho. Sonho ou pesadelo ? Não sei responder. Mas não pensei na morte, não pensei no poço, não pensei no sangue. Só pensei em seu rosto e nele dizendo que me amava. Ah , como eu queria que isso tivesse realmente acontecido... Balancei a cabeça e me virei para o outro lado na cama, segurando o pingente do colar que ele havia me dado de presente de aniversário. Eu sorri e dormi.
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