segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Stealing?


     Havia roupas e brinquedos à minha volta. Estes últimos me olhavam. Sorrisos eternos, estampados em seus rostos de plástico encaravam meus gestos desesperados com uma indiferença palpável. Continuariam sorrindo, mesmo se eu os rasgasse um a um. Sorrisos falsos. A bagunça em meu quarto não passava de um mero detalhe, indigno de reação. O Inferno na Terra. O Diabo viera festejar ali, mas os brinquedos não davam a mínima.
     Às vezes eu os invejava. Por mais falsos, eternos e vazios que fossem seus sorrisos, estes estavam sempre ali, independente do que for. Quem dera se os humanos também pudessem fazê-lo. Claro, eu ignorava o fato de que tais sorrisos foram feitos por máquinas. Idéia de criança, vã esperança. Esperança pura e desesperada de que os humanos não fossem a espécie predominante. Que houvesse outras, além dos seres humanos, maldosos, cruéis. Não-confiáveis.
     Coincidência irônica, talvez. Entretanto, era por causa de um ser humano que meu quarto se transformara no Inferno atual. Ou, pelo menos, eu suspeitava disto. Generalização ou não, é incrível o fato de que os seres humanos não davam a mínima aos outros. Erros e erros, era tudo do que éramos capazes. Insistimos nos mesmos erros.
     Soterrada dentre a confusão, senti as lágrimas saltarem de meus olhos. Lágrimas quentes. De raiva. Ódio, repugnância; dois dos mais perigosos sentimentos, que, juntos, levam qualquer um ao limite da razão.
     Desconfiança, medo e raiva.
     O desaparecimento de um cartãozinho, de um simples cartãozinho, era o motivo. Dinheiro. Ganância. São tantas as coisas que levam qualquer um à loucura! Mas eu precisava daquele cartão. E eu o teria de volta. Não que isso me fizesse um ser humano mais digno.
     Um momento. Uma única oportunidade, era tudo o que eu precisava. Um movimento, minha chance. No fundo, eu queria estar errada. Poderia desconfiar de qualquer um. Menos do meu próprio sangue. Era uma facada.
     Eu podia sentir que o momento estava próximo. Mas por que eu estava tão nervosa? A adrenalina corria pelo meu corpo. Meus batimentos aceleraram, minhas mãos tremeram, minha respiração descompassou. Parecia que eu estava prestes a cometer um roubo. Eu não ia roubar. Ia pegar de volta algo que era meu por direito. Mesmo que fosse nas dependências de outra pessoa. Desculpas usadas por criminosos. Mas aquilo não era roubo. Era?
     E, apenas para provar a complexibilidade da mente e reações, meus pensamentos deixaram o âmbito seguro do ato que eu estava prestes a cometer. A verdade do que eu faria me atingiu como um raio, e eu só pensei em quão egoístas eram os seres humanos. Egocêntricos. Tão estupidamente comuns, com atos irracionais. Grosseiros. No fim, tudo o que importa é aquela imagem que vemos ao olhar ao espelho. No fim, não existem ações totalmente altruístas.
     No segundo seguinte, minha mão agarrou a textura áspera da carteira que não era minha.
     Corri para um espaço adequadamente iluminado. Minhas mãos trêmulas correram pelos segredos ocultos que eu violava, um único pensamento preenchendo minha mente: encontrar o meu cartão. O que tinha meu nome. Se eu o encontrasse, estaria provado, de uma vez por todas, que não estamos salvos do mundo, nem mesmo em nossa própria casa.
     O ar deixou meus pulmões.
     Ali estava.

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