segunda-feira, 18 de outubro de 2010

What's That Feeling?


          Sentada no sofá, eu lia. Ou melhor, eu tentava ler. Meus olhos passavam pela mesma linha várias e repetidas vezes, há mais ou menos dez minutos. Enquanto eles faziam esses movimentos, eu bebia um milk-shake. Finalmente, eu me toquei que não estava lendo direito, digo... Não estava lendo e suspirei. Um pensamento repentino me ocorreu e eu acabei tremendo por isso. Eu segurava o copo bem em cima do livro, então, por alguma lei que eu não sei qual é, mas que não foi nada útil naquele momento, o copo cheio tremeu junto e caiu um pouco do líquido nas páginas de meu livro favorito. Assustei-me e me irritei ao mesmo tempo. Ora ! Aquele é meu livro favorito ! Coloquei o copo na mesa e me levantei, indo pegar um pano molhado, antes que a bebida marrom manchasse a página branca. Quando a limpe , me decepcionei. A página ficara manchada, apesar de a mancha ser fraca e eu ainda poder ler as palavras sem esforço algum. Mas fechei o livro; melhor não arriscar outra mancha. Coloquei o livro em cima da mesa, junto com o copo.
          Fitei a capa preta e o título escrito em letras prateadas. Fitei-as por um longo tempo. Mas não as via realmente. Meus pensamentos vagavam, sem rumo, bem longe. Mas, pelo jeito, eles tinham sim um rumo. Prova disto foi o rosto que apareceu em minha mente, quase instantaneamente. Na verdade, estava mais para uma cena , do que somente para um rosto. Essa mesma cena ocorrera hoje de manhã, e eu não conseguia me livrar dela. Estava impregnada em minha mente, para sempre. Com um gemido, escondi o rosto nas mãos, os braços apoiados nas pernas, e fechei os olhos. Sem querer, me entreguei aos pensamentos venenosos que enchiam minha mente.
          Por quê ? Por que meu coração pensa que é feito de aço , que pode sofrer à vontade, sem ficar com nem mesmo um arranhão ? Por que ele não pode se calar, mesmo quando o garoto se aproxima de mim ?
          Mas não !
          Quando o garoto se aproxima de mim, meu coração acelera por vontade própria, parecendo que quer vencer uma maratona ! Soma-se isso ao jeito como começo a ficar nervosa, que eu não me surpreenderia nem um pouco se eu chegasse até a ficar corada.  Mas, oh, meu Deus... ! Por que havia de ser ele ?
          Tudo isso seria só para sofrer mais um pouco ? Ou seria para, como dizem alguns , me “fortalecer” ?
          Bem , o motivo não importa tanto. O que mais importa mais é que eu reconheço a voz dele de longe. Que meu coração acelera a ponto que parecer que quer rasgar meu peito e sair voando quando ele está por perto, e mais ainda quando ele me toca. Que eu fico nervosa ao mesmo tempo em que meu coração acelera. Que meu estômago embrulha, revira, todas as vezes que eu penso nele. Que meus olhos o procuram, quase automaticamente, na multidão. Isso é o que importa. E, é claro, o que importa também, e muito, é que eu não deveria sentir essas coisas. Não é saudável. Ao menos não para mim.
          Será que isso era... Amor ? Eu estaquei, o copo que eu ia pegar escorregou um pouco, por causa do tremor que tomou conta de minhas mãos naquele momento.
          Não. Claro que não. Não poderia ser isso.
          Forcei minhas mãos a ficarem imóveis, enquanto eu me acalmava mentalmente. Respirava fundo.
          Todos dizem que, quando você ama, o sentimento que predomina é aquele de não saber o que fazer. Eu converso e brinco normalmente com ele. Claro. Somos amigos. Meus problemas são dentro do meu organismo. Coração , nervoso e sei lá mais o que. Amor ? Oh , mas é claro que não !
          Decidi me ocupar, fazer algo que ocupasse principalmente a minha mente; não queria pensar mais nisso. Peguei meu copo, o milk-shake inacabado ainda dentro dele, e me levantei. Fui para a cozinha. Lavei o copo e limpei a pia. Ao terminar, suspirei e sentei-me na mesma, balançando os pés no ar. Foi depois de um tempo que eu percebi que estava desocupada, e meus pensamentos já começavam a vagar, lentamente, como que para que eu não percebesse. Como se tivesse sido eletrocutada, dei um pulo e desci na pia. Resolvi procurar outra coisa para fazer.
          Coloquei uma música alta e fui para meu quarto , arrumar o meu armário. Funcionou por um tempo; a música alta me distraiu. Mas logo eu me cansei das músicas e já havia terminado meu armário. Deitei-me em minha cama , logo após desligar a música e coloquei meu travesseiro em cima da cabeça.
          Um grito se formou dentro de mim e subiu pela minha garganta. Eu o soltei quando ele chegou em minha boca. Nem eu mesma conhecia esse grito; um grito sofrido, angustiante. Não chorei ao parar de gritar. Mas ofeguei. Não sabia mais o que fazer, meu corpo doía, minha cabeça também... E meus pensamentos alcançaram o rosto do garoto. Para completar, meu estômago começou a embrulhar e eu fiquei enjoada.
          Era isso.
          A gota d’água.
          Agora chega.
          Levantei-me, ainda segurando meu travesseiro com força. Joguei-o de volta na cama e me olhei no espelho.
          Apresentável.
          Eu teria que falar com ele. Selaria meu destino assim que passasse pela minha porta.
          E foi o que eu fiz.
          Enchi-me de coragem e coloquei a mão na maçaneta.
          Respirei fundo.
          Abri a porta. Quem sabe o que poderia acontecer ?
          Saí de minha casa e fui à dele, planejando o que falaria. Claro, eu mal sabia se teria coragem de dizer o que queria, mas quem era eu para controlar meu futuro ?
          Olhei o prédio dele e entrei.
          Vamos lá, coração.
          Estou pronta.
          Pode vir, destino.
          É hora da verdade.
          Quando ele desceu, eu sorri para ele. Ele sorriu de volta. E me preparei para dizer o que iria me jogar de cabeça em meu destino.

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