Com tanta gente neste mundo, morrendo de vontade de ter um probleminha interno a resolver, porque este maldito destino havia de me escolher ? Por que diabos eu havia de ser tão confusa em minha vida amorosa ?
Tudo bem, não é nada de tão importante, afinal eu ainda sou nova para ter este tipo de questões em mente. Mas é tão estranho... Parece que, quando eu consigo o que quero — como combinar um beijo com o garoto que estava afim, por exemplo —, a animação acaba. Eu simplesmente... Não quero mais.
Não vou dizer que é isso com todos, até porque não é a coisa mais normal do mundo alguém pedir um beijo para mim. Nas vezes que acontece e nas raras vezes que me interesso... Quando chega perto do momento, eu dou para trás. Muitas vezes já cheguei a me perguntar se eu seria tão fria a ponto de só gostar do chamado jogo da conquista ?
Balancei a cabeça, observando, do sofá, a chuva que caía forte, molhando as ruas e, quem sabe, pegando alguns seres humanos desprevenidos, que começariam a correr, com medo de se molhar.
Sorrindo, me levantei e fui até o parapeito da janela, onde me sentei, segurando-me na parede, segura de que não cairia. O aroma fresco da chuva atingiu minhas narinas e me fizeram fechar os olhos ao senti-lo. Coloquei também as pernas no parapeito, ainda me segurando, e agradecendo ao fato de a janela ser bastante grande para consentir para que eu coubesse ali. Meus olhos passaram pelas ruas, sem realmente absorver nada mais importante do que a chuva caindo ao chão.
Com um certo esforço, desviei meus olhos da rua que ia esvaziando, para meu apartamento, quase vazio a não ser por mim. Um pequeno sorriso torto apareceu em meus lábios, mostrando o quão feliz eu estava por poder tomar minhas próprias decisões em casa, ainda que fosse por um espaço curto de tempo.
Fechei meus olhos, voltando a me concentrar no doce aroma da chuva, e encostei minha cabeça na parede da janela.
Quantas vezes eu já não tinha tido aquela mesma conversa comigo mesma ? Oras, eu ainda sou nova e não tenho que me prender a ninguém ! Além do mais, eu não o magoei, pois ele nunca sentiu nada por mim, a não ser uma atração física. Não uma como sexo, apenas... Vontade de colar seus lábios aos meus, apenas para... Experimentar. Mas agora... Só de pensar em ter de beijá-lo...Bem, só posso dizer que não quero mais, mas ele nunca gostaria de algo mais sério, de qualquer jeito.
Sinceramente ? Nem eu.
Então não há motivos para me sentir culpada ou irritada... Ou seja lá o que for que eu esteja sentido... Certo ?
Mas talvez você esteja magoando a si mesma, enquanto seus sentimentos mudam de garoto para garoto e, quando a coisa começa a passar do nível “nada além de amigos”, você foge. Isso não é saudável... Para você.
Ah, ótimo. Era tudo o que eu precisava neste momento. Aquela voz chata da consciência. Ela não cansa, não ?
Oras, estou simplesmente lhe ajudando !
Foi uma pergunta retórica.
Ah. Mas há de admitir que estou certa. Afinal, querendo ou não, sou a parte mais sã de você.
Ah, claro. Como se houvesse uma parte totalmente sã de mim.
...
Ótimo, me ignore. Assim eu penso melhor.
Enfim... Tá bom, tá bom. Talvez a minha consciência esteja certa, tudo bem. Posso viver com isso.
Abri meus olhos, e a primeira visão que eu tive após alguns segundos de total escuridão, quase me fez derreter.
Sempre fui apaixonada por fúrias da natureza, principalmente os raios. Um, em zigue-zague, roxo, majestoso, acabara de cortar o céu.
Balancei a cabeça, tentando fazer com que eu mesma voltasse a me concentrar no que estava pensando antes, algo que não foi difícil. As idéias, os pensamentos, me tomavam minha mente por completo, tornando quase impossível que eu me distraísse por muito tempo. Era como se tivessem decidido que não me abandonariam até que eu me resolvesse.
Um vento frio passou por mim, enchendo minha casa e balançando meu vestido preto.
Coloquei as mãos uma em cada lado de minha cabeça, enquanto a chuva e os pensamentos me inebriavam por completo.
De repente, a resposta mais fácil para todos os meus pensamentos me atingiram como um tapa no rosto. Como poderia ser tão simples assim ? Parecia incrível, mas minha consciência estava certa !
O motivo desta... Movimentação toda em meu cérebro. Era tão simples. Eu estou me magoando enquanto procuro alguém para amar. Isso é patético. Eu estou muito bem do jeito que estou, certo ? Sim, certo.
Certo.
Viu ? Minha consciência concorda.
Antes que qualquer outro pensamento pudesse me invadir, o telefone tocou. Levantei-me, saindo do parapeito da janela, e o atendi. Era minha amiga, me convidando para passar na casa dela. Sorrindo para mim mesma, concordei.
Assim que desliguei o telefone e fiquei pronta, dei uma última olhada através do vidro da janela. Ainda chovia. Meu guarda-chuva estava perto da porta, mas eu o ignorei. Afinal, uma chuvinha de vez em quando não mata ninguém, não é mesmo ?
Às vezes...
Tá bom, tá bom. Às vezes sim. Mas eu não vou andar um metal na cabeça, nem vou dirigir, então estou fora de perigo, quanto à chuva.
Dando uma última olhada para minha casa silenciosa, dei um sorriso e apaguei as luzes, saindo logo depois e trancando a porta.
Vida... Aí vou eu.
É. Aí vamos nós.
Vai ser bom esquecer de tudo por umas horas... Sou jovem, lembra ?
Sim, nós somos.
Pois é.
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