sábado, 16 de outubro de 2010

Ghosts

Naquela tarde, ela estava invisível. Quase passavam através dela, um pedaço da parede que, estranhamente, soltava fumaça. Calada, quieta, invisível. Seus únicos movimentos eram o levantar de mãos, tragar o cigarro, soltar a fumaça, baixar a mão. Repetitivo. Automático. Nem mesmo os olhos se moviam, perdidos num ponto indefinido, atravessando a janela embaçada pela chuva forte que encharcava o chão e os despreparados que saíram de casa sem seus guarda-chuvas. Não pensava, sentia sua mente vazia. Aliás, era tudo o que ela podia fazer: sentir. 
Sentia as pessoas passarem por ela, não dando-lhe atenção. De alguma forma, apreciava esse anonimato; a arte de ignorar e ser ignorada. Aqui não haviam satisfações a serem dadas, não havia a preocupação de fingir se importar com os problemas alheios, todos tão repetitivos, clichês e sem graça. Aqui, ninguém a conhecia.
Aquele canto do shopping estava cheio. O shopping inteiro estava lotado. Ninguém se importava, ninguém precisava se importar. 
Ela desviou os olhos da chuva para mirar os que passavam por ela, indiferente. Conseguia ler o rosto de cada um. Preocupação, estampada na testa de todos. As opções eram infinitas: contas, problemas amorosos, problemas familiares, problemas, problemas, problemas. Preocupações, eram disso que eram feitos, nunca satisfeitos. Presos em seus próprios mundinhos. Medíocres.
Ela sorriu com escárnio, soltando as últimas fumaças daquele cigarro. Apagou-o. Acendeu mais um. Sorriu ainda mais larga e sarcasticamente ao recordar-se de um sermão.


— Cigarros dão câncer, sabia disso? E câncer mata. — Ele falou, franzindo a testa. Ele ficava lindo quando fazia isso, e provavelmente sabia disso. Ela riu, soltando a fumaça para o lado contrário onde ele estava.
— É um preço a pagar.
— Então não se importa?
— Não.
— E como acha que ficarei quando voce morrer?
Imediatamente, um grande sorriso apareceu no rosto dela. Pousando o cigarro no cinzeiro e virou-se de forma a ficar com seu corpo por cima do dele. Assim que olhou em seus olhos, esqueceu completamente a resposta que daria. Um pena. Era uma boa resposta.
Ele também pareceu perder a fala por alguns segundos.
— Isso é parte de voce. O que é uma pena, mas eu entendo. O problema é que voce fuma um atrás do outro. Diminua. Não estou preparado para te perder.
Seu tom, tão sincero, tão apaixonado, a fez perder o pouco que lhe restava de sua voz.  Não havia o que dizer. Prometeu a si mesma que tentaria. Por ele. 
Em resposta, levou seu rosto para frente. Dois pares de olhos se fitaram por alguns segundos, conectando-se. Então fecharam-se, permitindo que duas bocas se juntassem.
Ela também não estava preparada para perdê-lo.


O deboche continuava lá. Promessas podiam ser quebradas. Era fácil, quando os incentivos desapareciam. 
De repente, ela parou de sorrir. Mirou o cigarro entre seus dedos por um longo tempo, a testa franzida. Deu de ombros, levando-o a boca. Soltou a fumaça, inclinando a cabeça para trás, vendo o caminho que aquele gás venenoso tomava.
Não importava.
A chuva continuava caindo com vontade, e ela duvidava que teria paciência para esperar até que o fenômeno encontrasse seu fim. Paciência não era seu forte e agora algumas pessoas começavam a encará-la, provavelmente incomodadas pelo cheiro do cigarro. Hipócritas, foi seu primeiro pensamento daquela tarde.
Ainda era dia? As nuvens de chuva, tão densas, transformaram a tarde em uma noite precoce. Nublado, escuro, chuvoso. O tempo perfeito.


— Então, o que deseja fazer hoje? Arrisca sair nessa chuva?
Ela olhou através da janela, sorrindo ao constatar que a chuva era forte demais para que eles pudessem fazer alguma coisa interessante fora de casa.
— Tenho uma idéia melhor.
Passaram o dia todo na cama.


Um relâmpago, seguido de um trovão. Um momento de epifania, que desmaterializou-se quase imediatamente. Depois, o escuro, o nada.
As luzes do shopping acabaram. 
Era só o que me faltava.
Estranho seria se não houvesse pânico. Aquela massa humana era densa demais para que todos ficassem calmos ao encontrarem-se em algo que lhes fugia à rotina. Um blackout no shopping era suficientemente diferente. 
Uma dose de escuridão, uma massa de gente. Adicione uma pitada de tempero e encontramos o pânico.
Ela continuava sentada, lentamente terminando o último cigarro do maço. Era só o escuro, não mudava nada. Seus fantasmas já a assombravam, mesmo à luz do dia.
Mas o barulho era insuportável. Penetrava em seus ouvidos, machucava seu crânio. Como sinos de Notre Dame. Eram gritos, pedidos de calma, desespero proclamado. 
Sentia vontade de gritar. Uma vontade que não sentia há muito tempo.


Seus olhos vidrados encaravam o dela. O sangue em suas mãos estava quente. Ainda podia sentir aquele coração bater, desesperado pelos últimos suspiros. Não fazia sentido. Procurava o que dizer, mas sua mente estava vazia e sua boca, seca. Era um sonho, só podia ser um sonho. Suas roupas, porém, encharcadas de sangue, só faziam contradizê-la.
Aquela boca se abriu. Pareciam querer dizer algo. O som, contudo, não saía, perdendo-se  em meio caminho da boca. Só um suspiro escapou, e foram os olhos quem mandaram a mensagem de três palavras.
Ela berrou quando os olhos se fecharam e a respiração falhou. Nos seus braços.


Berros, alarmes. Barulho. Insuportavelmente alto. Agonia. Aquele último cigarro foi-se embora sem que ela ao menos percebesse. Não conseguia pensar. Mas não queria pensar. Sua cabeça já começava a rodar.
Novo relâmpago, nova epifania.
Deixou o cinzeiro, jogou a cadeira para o lado e rumou na direção contrária da massa crescente e em pânico.
Pânico.
Agora ela estava em pânico.
Se era para ficar no escuro, se era para estar cercada de barulho, que fossem suportáveis. Precisava ignorar os pensamentos. Precisava sentir alguma coisa.


— Juliet? JULIET?
As lágrimas misturaram-se com o sangue. Já não era possível dizer qual era qual. Não sabia quanto tempo havia se passado desde aquele último suspiro, daquelas palavras ditas pelos olhos. Novas mãos, secas, limpas, alcançaram seus ombros, forçando-a a virar-se.
— NÃO.... !
Inútil. Ela não sairia dali. E não saiu, por horas.


Pensamentos eram perigosos. O terraço do shopping pareceu-lhe uma boa escolha. A porta estava aberta. Sorte dela os responsáveis serem tão... irresponsáveis.
Era óbvio que ainda estava chovendo. Não demorou um minuto para que ficasse totalmente encharcada, os cabelos grudados no rosto. O barulho foi abafado. A paz, por um momento. Mal percebeu quando apoiou o corpo naquele pedaço de metal, aliviada por ter escapado de seus próprios pensamentos, suas próprias memórias.
A chuva continuava com fúria, jogando raios, um atrás do outro. Não demorou muito para que um deles acertasse o pedaço de metal no qual ela estava encostada.Sua respiração ofegante falhou quando, sem que ela quisesse, aquele rosto reapareceu. 
Fantasmas. Senti sua falta.
Carga elétrica, uma dor insuportável. Uma epifania forte, o êxtase. E então, o nada.
Não resistiu.

Encontrada, muitas horas depois, possuía um sorriso em seu rosto. 
Estavam juntos novamente.

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