segunda-feira, 18 de outubro de 2010

By Accident?


Alguns chamariam de coincidência. Outros diriam que a opinião dos primeiros não passava de mera superstição, que coincidências não existem. Diriam que nossos passos são friamente calculados e guiados por mãos invisíveis e indiferentes, cujo único objetivo é guiar-nos até o nosso único destino em comum e irreversível; o doce abraço letal da Morte.
Deixando de lado as suposições, eles se encontraram. Coincidência ou cálculo, o fato é que eles se encontraram naquela noite, naquele beco. Mas por que logo naquela noite? Logo quando as costas delas eram comprimidas na parede nojenta e escura do beco, procurando sumir na escuridão, para não ser vista. Logo quando ela fechara alguns botões do casaco grosso que usava, esperando que ninguém enxergasse a parte do casaco que deixara aberta, revelando seus trajes. Logo quando ela já se sentia cansada demais, e desejava que ninguém mais a chamasse.
Mas ele a encontrou. Sorria maliciosamente enquanto flexionava os braços, superestimando a força que tinha, aparentemente procurando impressioná-la. Ela, por sua vez, após recuperar-se do choque inicial de ter sido encontrada, sorriu de volta. Era um sorriso encantador, mas falso, que não combinava com o sentimento de repulsa que conservava por si mesma, e, agora, também pelo desconhecido. Entretanto, era uma boa atriz, e o grito de “ação” acabara de ressonar em sua mente, afirmando-lhe que não era mais hora de sentir, e sim de atuar. Aqueles dois caminhos haviam se cruzado com um único propósito. Os olhos dele encontraram-na, e agora gostariam de obter a recompensa.
Há um hotel a menos de um quilômetro daqui, podemos ir?
Sim, podemos.
A viagem no carro dele seguiu-se silenciosa. Afinal de contas, não havia assunto entre a presa e o predador, não possuíam nada em comum que pudesse tornar o trajeto ao menos um pouco mais prazeroso. Eram apenas negócios. Ambos olhavam para frente, através do pára-brisa, embora não fossem ambas as mãos dele que segurassem o volante. Ela estremeceu quando a mão dele pousou em sua coxa, acariciando-a. Ele não notou, subindo cada vez mais a mão, aparentemente antegozando o momento em que não mais existiriam segredos entre a intimidade dos dois.
Talvez fosse culpa da ausência de uma das mãos no volante, mas ele não parecia saber muito bem o que estava fazendo. Às vezes, eles pareciam ziguezaguear na rua deserta.
Chegaram ao hotel. Estacionaram. O homem que guardava as chaves olhou-os com uma malícia mal disfarçada, não demorando nem um segundo para entender o que iria acontecer em um de seus quartos. O sorriso dele, entretanto, ela ensaiado o suficiente para disfarçar seus verdadeiros pensamentos. Eles estão sempre as trazendo para cá. Por acaso este é o único hotel na região?
Gostaríamos de um quarto, por favor.
Aqui está, senhor, tenham uma boa noite. Aposto que terão.
O cômodo era luxuoso, o que a surpreendeu. Olhando aquela espelunca de fora, ninguém ousaria imaginar que, por dentro, o lugar era tão bem-arrumado e limpo. Parecia um hotel cinco estrelas. Apenas por dentro, é claro. E ela também não arriscaria dizer que ele pagaria tanto por um quarto. Pelo menos não naquela situação.
Enquanto ele falava no telefone interno do hotel, ela resolveu deixar-se à vontade. Descansou a bolsa no criado-mudo ao lado da cama e removeu do corpo o casaco pesado. Ao olhar-se no espelho, a repulsa cresceria dentro de si, principalmente por, de repente, compreender o motivo de ele a ter encontrado tão facilmente, ainda que o casaco ocultasse boa parte de suas vestes; sua face parecia denunciar sua profissão.
Uma batida na porta livrou-a deste pensamento deprimente e macabro. Olhou naquela direção em tempo de vê-lo abrir a porta, retirar umas notas de dentro do bolso, entregar a quem quer que fosse e então trazer para dentro do carro um carrinho. Estava coberto por uma toalha branca e, sobre esta, pousavam duas taças, uma garrafa de vinho e alguns aperitivos.
Serviço de quarto.
Achei que estivesse com fome.
Não estou, obrigada.
O semblante dele pareceu escurecer um pouco, por um momento. Deu de ombros, mostrando indiferença.
Vamos direto ao assunto, então.
Ignorando o carrinho pelo qual acabara de pagar, ele avançou para ela. Como ela se encontrava em um dos cantos do quarto, não podia escapar. E, de qualquer forma, não deveria fazê-lo.
Aquele primeiro beijo entre estranhos foi intenso. Ele invadiu a boca dela com sua língua, procurando explorar cada centímetro do espaço, enquanto a prensava contra a parede. Havia um desejo quase desesperado no modo com o qual ele passava as mãos nas curvas que ela possuía, mal conseguindo conter sua excitação. Mas não havia pressa.
Ela se sentia como o recheio de um sanduíche. Havia a parede, o seu corpo, e o corpo dele sobre o seu, limitando cada vez mais seus movimentos, até que ela pudesse somente retribuir o beijo. Não havia escapatória, embora disso ela já soubesse desde o momento em que ele a encontrara no beco, rezando para que pudesse logo voltar para sua própria casa.
Só agora, enquanto ambos desfrutavam de um momento íntimo, ainda que fossem estranhos, é que ela percebeu o motivo da aparente falta de controle dele sobre o carro. Seu hálito denunciava claramente o alto nível de álcool em seu sangue. Provavelmente ele havia enchido a cara antes de encontrá-la, e então sentiu que precisava desesperadamente de prazer... Ou então ele já sentia essa necessidade, e o motivo de ter embebedado a si próprio fora para ter a coragem de falar com ela. Fosse o que fosse, ele estava embriagado. E, por alguma razão, isso a fez se sentir ainda mais suja.
Talvez os que declamassem sobre coincidências agora perguntar-se-iam o que teria acontecido caso a tão chamada coincidência nunca houvesse ocorrido. As coisas teriam sido, então, diferentes? Será que o fato de ele agora estar arrancando tanto as roupas dela quanto as suas próprias contribuiu para o destino insano que a aguardava? E ela, agora se ajoelhando em frente ao corpo nu, teria sido a causa do que aconteceu a ele?
Fora ele quem recebera a primeira dose do prazer. E queria mais. Quando ela finalmente se ergueu, foi para ser jogada na cama e logo ter seu corpo coberto pelo dele, trêmulo de prazer e ansiosidade. Logo dois corpos estranhos tornaram um, unidos pelo desejo de um e necessidade fria de outra.
Ele a possuía, beijava sua boca, pescoço e seios, cada vez mais tomado pela bebida e pelo desejo; virara um animal irracional, ignorando o mundo, concentrado apenas no corpo da mulher abaixo do seu. Ela, cada vez mais repugnada, arranhava as costas dele, simulando um prazer louco e inexistente. Era uma boa atriz, e ele acreditava na encenação. Não demorou muito para que ele atingisse o êxtase e ela fingisse o seu. Porém, não pagara aquele quarto para acabar assim tão cedo, e ele logo fez suas exigências de como ela devia portar-se. Apenas o fato de vê-la nua e submissa aos seus desejos já era suficiente para excitá-lo novamente.
Aquilo durou horas. A intimidade máxima que dois estranhos podiam alcançar entre si, o prazer enlouquecido de um deles. E, na cabeça da outra, apenas a pergunta repetitiva.
Quando isso vai acabar?
Mal sabia ela que o fim estava muito mais próximo do que ela jamais ousaria imaginar.
Finalmente, após longas sessões repetidas do prazer que provara, ele adormeceu ao seu lado, um dos braços pousando em volta da barriga dela. Dormia profundamente e ressonava baixinho, em paz. Ela decidiu que gostava mais dele assim. Com o lençol que pendia para fora da cama, cobriu o corpo despido e virou-se de costas para ele, procurando dormir e afastando os pensamentos das horas que acabaram de passar.
Fora só mais uma noite de trabalho, não é mesmo? Um trabalho que proporcionava prazer a completos estranhos. Isso já a estava cansando. Ainda assim, fosse sorte ou não, aquela fora a última vez que precisaria passar por uma noite dessas, mesmo que ela ainda não soubesse disso.
Voltemos às coincidências. Será que fora mesmo coincidência o que o fizera acordar no meio da noite, erguer-se da cama e vestir-se com a maior velocidade que a bebida lhe permitisse? Ele parecia perturbado. Olhou-a por uns momentos, levantando o lençol de seu corpo e estudando a sua respiração lenta. Em seguida, passou a mão nos cabelos e avistou a garrafa de vinho que ainda jazia fechada. Sorte ou não, ela estava dentro de um balde de gelo, o que facilitou o resfriamento contínuo da bebida.
A garrafa foi aberta, as taças ignoradas. Bebeu diretamente do gargalo. Nem mesmo ficara sóbrio, e já mergulhava novamente na bebida.
Bebia e a observava dormir.
De repente, um ódio irresistível cresceu dentro dele, quando ela se virou na cama. Era apenas uma vadia, uma suja.
A bebida acabou. Ele foi até o criado-mudo onde estava a bolsa dela, mal conseguindo andar. Colocou a mão no bolso, preparado para tirar o pagamento que já fora discutido. Contudo, seus olhos pousaram novamente no carrinho do serviço de quarto, e logo ele pôde distinguir a faca que viera junto com os talheres.
Ela recusou os aperitivos. Devia estar rindo dele por dentro.
O ódio voltou. Ele cambaleou até a faca e a ergueu na altura dos olhos, tropeçando no caminho de volta à cama. Sentou-se ao lado dela.
O que aconteceu a seguir foi a primeira parte do destino que os dois possuíam em comum. Ela seria a primeira a receber a recompensa da vida, a ser jogada para o último abraço. Ele a observou por poucos segundos, antes de cortar-lhe a garganta numa frieza excepcional, curvando o corpo para longe, evitando respingos de sangue na roupa mal-cuidada.
Essa fora a recompensa dela. Não houvera tempo de entender o que estava acontecendo, muito menos de abrir os olhos para encarar o seu assassino. Ele estava bêbado. Seria só o acaso que o fizera cometer tal ato? Coincidência ter sido ela a ser morta daquela forma?
Se ela ainda tivesse consciência do que estava acontecido, teria ficado satisfeita em saber que seu agressor não ficaria impune. As mãos frias do destino tinham um caminho traçado também para ele.
Deixou o hotel de cabeça baixa, pagando o quarto e procurando não ser reconhecido. Todavia, não precisava ter se preocupado. Morreu vinte e sete minutos depois, voltando para a esposa e filhos, vítima de um assalto a mão armada em seu próprio carro. A bebida o fizera altear a voz para o assaltante, confrontá-lo. Isso lhe rende um belo tiro entre os olhos. Morreu na hora. O carro foi-lhe roubado e o corpo, jogado em um playground escolar próximo.
No dia seguinte, as crianças na hora do recreio levariam um grande susto ao encontrar um corpo na hora de brincar. Algumas choraram; não pelo homem, mas pelo medo de ter um cadáver no espaço de brincadeiras.
Ela, por sua vez, seria encontrada antes. Outro casal de estranhos fora até aquele quarto, buscando privacidade para suas próprias sessões de prazer. Ele, um velho, teve um ataque cardíaco. Sobreviveu. A outra, por sua vez, teve a imagem gravada nas retinas.
Uma estranha, morta por um estranho assassino. Um assassino, morto por outro assassino. Ele a encontrou, ela não lhe pôde negar companhia. Passaram a noite juntos, e a bebedeira de um o induziu a matar a pessoa com quem dividiu o quarto. Logo depois, foi morto também. Coincidências?

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