As risadas eram contagiantes, soavam verdadeiras. Todos se divertiam, contando piadas e histórias sobre tudo, sobre nada. Eram as gargalhadas, o tintilar dos copos cheios de bebida, e a fumaça de cigarros que uns e outros fumavam. A felicidade, a descontração, ambas palpáveis.
Eu podia sentir seus braços em volta do meu corpo, suas mãos entrelaçadas nas minhas. Assustava-me o quão fácil voce conseguia se deixar levar e o quão fácil voce ria sobre tudo, depositando beijos ocasionais sobre minha testa.
Por fora, eu estava rindo e me divertindo como todos os outros. Bebia e fumava, contava e ria das piadas. Feliz e despreocupada, como qualquer outro que ali se encontrasse.
No entanto, quanto mais voce me puxava para perto, mais eu queria estar longe. Paralisada, não retribuía seus beijos, não dava sinal de senti-los. Voce não percebia, achava que eu estava por demais contagiada com a energia daquela roda de amigos.
Na hora de ir para casa, não deixei que voce me acompanhasse. "Amanhã temos que acordar cedo, é dia de aula", foi a desculpa que eu inventei. Se eu o deixasse me acompanhar, voce pediria para entrar, beber uma xícara de café... e acabaríamos na cama, tão enroscados quanto nossas mãos estavam há pouco; voce em um êxtase apaixonado. Eu não podia. Depois, quase dormindo, voce passaria o braço sobre minha barriga e sussurraria em meu ouvido que me amava. Eu, com um nó na garganta, apenas sorriria e lhe daria um beijo. Voce não ia se importar com minha falta de resposta. E eu viraria minhas costas para voce, permitindo que uma, e apenas uma lágrima caísse. Era assim quase sempre. Desta vez, eu não me sentia com forças suficientes para a atuação.
Sua expressão de desapontamento quase me quebrou o coração. Mas não voltei atrás, não podia voltar. Necessitava de um momento de sanidade, onde as máscaras cairiam — provavelmente acompanhadas de um copo generoso de vodka e os fones de ouvido ligados no último volume. Argumentei um pouco, voce aceitou. Disse que me amava. Em resposta, eu o beijei e entrei depressa em meu apartamento.
A bolsa e as chaves foram imediatamente jogadas na mesa ao lado. Minhas costas estavam pressionadas na porta, e eu precisava me segurar para não bater minha cabeça com todas as forças possíveis. Acendi as luzes, deixando-as fracas. Não queria muita luz.
Depois de um banho muito demorado, coloquei apenas uma camiseta larga e enchi meu copo. Deitei na cama, o copo apoiado na cômoda, ao lado da garrafa. As músicas já enchiam o quarto; densas, intensas, tomando todo o espaço.
Peguei o copo, segurando-o com as duas mãos, enquanto permitia que as notas tomassem conta de meu corpo. Os olhos fechados, bebia aquele líquido rascante de uma vez, enchendo a taça de novo e de novo. Flashbacks passavam por minha cabeça.
Meu braço, nesta hora, pareceu ganhar vida. Num movimento automático e quase sem vida, abri a primeira gaveta de minha cômoda, procurando uma foto antiga. Quando a encontrei, coloquei-a em frente ao meu rosto, as lágrimas agora caindo livremente.
Era terrível a sensação de estar com um enquanto se estava totalmente apaixonada por outro. Um outro que não me amava.
Toquei a foto de nós dois, revivendo os dias que nunca voltarão.
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