segunda-feira, 18 de outubro de 2010

An Important Letter to an Imaginary Friend


Alguns segredos são apenas descobertos quando já é tarde demais.



“Sexta-feira. 13 de Dezembro de 1985.

Querido Henrique.

                    Aposto que você está estranhando receber esta carta. Não posso culpá-lo. Afinal, nosso costume não é mandar cartas um ao outro, não é mesmo? Mas eu preciso falar com você, e tenho a impressão de que apenas murmurar seu nome não o fará aparecer ao meu lado desta vez.
                    Não que eu pense que você não irá atender meu chamado. Pelo contrário; sei que sentirei a brisa emanando de seus movimentos quando você aparecer milésimos de segundos após eu terminar de pronunciar seu nome, meu amigo. Não, o problema não é você.
Só não posso me dar ao luxo de pronunciar uma palavra que seja; tenho medo até mesmo do barulho que a caneta faz ao arranhar o papel, imaginando se tal som não atrairá meus perseguidores para mim.
                    Sim, meus perseguidores. Agora chegamos ao ponto, ao motivo principal desta carta.
                    Querido Henrique, algo me diz que não passo de hoje. Sim, acho que chegou a minha hora, onde não passarei um monte de carne sem utilidade. Ou cinzas, a julgar pelo som do crepitar das chamas que escuto chegar ao meu esconderijo. Sim, imagino que meus perseguidores estejam carregando tochas, em uma referência quase fiel á Caça às Bruxas da Idade Média. De qualquer forma, resolvi escrever esta carta como um adeus á você, meu amigo, onde lhe explico a perseguição, relembro meus momentos com você e torço para que minha alma vá para um lugar bonito assim que perceber que meu corpo já não é de mais utilidade.
                    Lembra-se de quando você apareceu para mim? Eu estava sozinha, naquele nosso lugar favorito, brincando com um mar de papéis a minha volta e ponderando sobre como abrir aquela grande lata de tinta vermelha, escondida abaixo dos lençóis no armário sob a escada. Então, quando a idéia me ocorreu, levantei-me e andei até o armário, pronta para saber o que minha mãe escondia de tão interessante naquela lata. Lembro-me das palavras dela até hoje: “Minha querida, eu conheço sua natureza curiosa, e sei como gosta de brincar no ____ ( não escrevei o nome do lugar aqui, pois tenho medo que sua carta caia em mãos erradas, Henrique, e não quero que ninguém mais descubra que meus pais sabiam sobre o lugar ), embora eu deva pedir à você que nunca tente abrir aquela lata de tinta vermelha, no armário abaixo da escada. Existem segredos ali, segredos que seus eu e seu pai juramos esconder. Um dia, quando você for mais velha, lhe prometo que lhe contarei todas as histórias que ali repousam, mas prometa-me que não procurará abrir a lata.” Fiz a promessa e cumpri até aquele dia no qual nos conhecemos, que foi quando eu decidi começar a quebrar promessas.
                    Lembro-me de afastar o lençol do armário e então você apareceu. Até hoje, algo me diz que eu devia ter gritado e me afastado correndo, para nunca mais vê-lo, embora eu ache que isso não faz sentido. Lembro que você sorriu e se apresentou. Lembro que nos sentamos ali mesmo e conversamos durante horas, até que minha mãe veio me procurar. Quando fui apresentá-lo à ela, você tinha desaparecido.
                    Confesso, meu amigo, que naquele momento achei que estava ficando louca, ou que você já tinha se cansado da “nova amiga”. Confesso também que fiquei aliviada ao vê-lo no dia seguinte, esperando-me e sorrindo como se fosse a hora mais feliz da sua vida. E foi assim que tudo começou.

                    Estou me perguntando como entregarei esta carta à você. Sinto que meus perseguidores não tardarão a me encontrar, e se eles encontrarem a carta, como você a lerá? Não quero arriscar a perda destas palavras. Preciso que você as leia e entenda que os últimos dias foram os mais difíceis da minha vida. Preciso que saiba que não me afastei por querer, mas por proteção. E que você foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida.

                    Querido Henrique, sei que me vigiava. Sei que, em todos os momentos de nossa amizade, você estava ali, literalmente falando. Sei que ouvia minhas conversas com meus pais e que também não entendia as reações quando eu mencionava o seu nome, ou qualquer coisa que viesse de você. Aquilo também nunca fez sentido, pois eles pareciam me repreender por estar em sua companhia. Meu pai realmente chegou a dizer que gostaria que eu me afastasse de você. E nunca cheguei a entender o motivo de tanta preocupação e repreensão, afinal não eram eles mesmos que me diziam que eu devia ser mais feliz e fazer mais amigos? Eu nunca fui tão feliz antes de você, meu amigo, e revoltava-me ver o quão eles desaprovavam nossa amizade. Sempre quis que você aparecesse para eles, assim meus pais veriam quão amável você é, e talvez mudassem a opinião que tinham. Mas você sempre se recusava, dizendo que era errado aparecer para as pessoas. Mas você apareceu para mim, não? Talvez se tivesse aberto a mesma exceção aos meus pais, as coisas não tivessem terminado assim.
                    Não me leve a mal, meu amigo, só estou repetindo o que vinha lhe dizendo há um tempo atrás, extravasando minha frustração. Você não faz idéia de como os dias têm sido.
                    Lembra-se de duas semanas atrás, quando um homem apareceu na porta de nossa casa e conversou com meu pai por um tempo longo demais? Lembra-se de como meu pai parecia pálido, amedrontado e doente quando eu o vi de novo? E que, então, ele sumiu? Foi quando eu parei de chamar seu nome, meu amigo. Minha mãe estava arrasada, parecia prestes a desabar, como se carregasse um peso gigantesco nas costas. Então ela conversou comigo e me contou coisas tão terríveis, meu amigo, que eu não seria capaz de repeti-las a você. Sua alma é boa demais para saber dessas coisas. O importante é que, depois disso, não achei seguro chamá-lo, meu amigo. As coisas haviam ficado feias.
                    Descobri que foi por nossa causa que aquele homem apareceu, e que nós nunca devíamos ter nos conhecido. Aparentemente, alguém mais descobriu sobre nós dois e espalhou para alguns vizinhos. A notícia correu. Descobriram que só eu posso vê-lo, e sabem o que você é. Sabia que estavam me vigiando, e foi por isso que não mais o chamei, mesmo quando escutava seus sussurros ao pé de meu ouvido, e seus choros durante a noite. Tem idéia de quanto me doeu o coração aquelas noites e dias sozinha, escutando você implorar e me chamar, enquanto tinha que fingir que não sabia de nada? Para sua própria segurança, meu amigo. Para que você não fosse pego. Não imagina as coisas horríveis que fariam com você. Simplesmente não pude deixar que isso acontecesse.

                    Tive que esquecê-lo por uns dias, até que me convencesse de que tudo estava mais calmo. Afinal, com a falta de resultados, eles teriam que desistir, não é mesmo? Quando percebi que as coisas estavam mais seguras, te chamei. Sim, foi o dia em que tenho certeza que magoei seus sentimentos. Meu chamado despertou quem quer que fosse que estava me vigiando, e foi apenas por este motivo que te expulsei quando apareceu. Minhas sinceras desculpas, meu amigo. Fiz todo o possível para que a pessoa não desconfiasse o bastante, mas acho que, quem quer que seja, viu mais do que deveria. E foi quando a perseguição começou.
                    Arrancaram minha mãe de mim ontem. Tenho certeza do que aconteceu com ela, não sou ingênua, mas prefiro não escrever as palavras. Elas são cruéis e arrancariam meu coração. As páginas de sua carta ficariam manchadas, e eu não quero que você perca a chance de ler o resto dela; é uma carta importante. Mas posso lhe dizer, meu amigo, que, quando a comunidade se juntou em uma massa furiosa de pessoas que gritavam empunhando tochas, minha mãe pressentiu o que estava por vir. Agarrou-me pelos ombros e exigiu que eu me escondesse e a abandonasse ali. Foi somente a determinação e a ordem em seus olhos que me convenceram a ir, ou eu teria ficado. Corri para nosso esconderijo, não sem antes agarrar papel e caneta para escrever-lhe esta carta. Aliás, noites atrás, foi ela quem me aconselhou a escrever-lhe. Saí de casa correndo, mas pude ouvir porta e janelas se quebrando. E o cheiro de carne queimada.
                    Estou escondida, meu amigo, mas, como já lhe disse, algo me diz que logo serei encontrada. Posso sentir que reviraram minha casa, procurando cada detalhe de nossas vidas, e não tardarão a descobrir sobre nosso esconderijo. Por esta razão, apresso-me em terminar a carta, do modo mais sutil e carinhoso que puder.
                    Meu amigo, ouço passos. Preciso apressar-me um pouco mais, devido ao pouco tempo que me resta. Prefiro que esta carta esteja terminada quando me encontrarem, do que deixar um grande espaço branco no lugar do que deveria ser um Adeus digno de nossa amizade e tempo juntos.
                    Lembra-se de todas as nossas artimanhas? De como nos divertíamos juntos, sempre despreocupados com o tempo ou com os outros? De como nos contentávamos apenas com a companhia um do outro, mesmo que durante todo o tempo ficássemos somente silenciosos, observando os traços um do outro? Lembra-se de como era tudo fácil e cor-de-rosa? Eu me lembro, meu amigo, e não acho que você tenha se esquecido. Porque você sempre aparecia ao meu menor sussurro, abraçando-me suavemente e confortando-me com seus olhos bondosos. E eu não fico atrás, se me permite a falta de modéstia. Nossa amizade foi a coisa mais linda que já aconteceu em minha vida e sinto raiva desta comunidade que não sabe apreciar uma amizade verdadeira e, por conta disto, faz de tudo para tirar isso de nós. No entanto, posso ir feliz sabendo que aproveitei ao máximo nosso tempo juntos. E, quem sabe, as coisas não fiquem mais fáceis quando estivermos na mesma forma?
                    Contudo, confesso que estou sentindo medo. Não me esqueci de nossas conversas, e do quanto já lhe disse que não tenho medo da morte. Não, não estou sendo hipócrita. Acho que, quando nos aproximamos deste destino, compreendemos o quão importante era ter sangue pulsando nas veias, pulmões funcionando. Um milagre. Tantas coisas que eu gostaria de ter feito! Deveríamos morrer juntos, lembra? Bom, não que você possa, mas você entendeu, não é mesmo? Deveríamos compartilhar este momento juntos. Sinto tanto por isso não ser possível!
                    Estão se aproximando, meu querido. Despeço-me aqui, com as lágrimas já correndo por meu rosto, enquanto vejo minha morte se aproximar. Espero que nos encontremos logo. Eu te amo Henrique querido, meu amigo.


Da sua sempre melhor amiga.”



                    Suas mãos alisaram o papel, já a muito amassado. De fato, o objeto já se tornara sólido de tanto tempo que ficara dobrado, jogado em um canto esquecido de um quarto escuro e acabado. Haviam marcas de dedos no papel, marcas grandes demais para serem deixadas por uma garota de 15 anos de idade.
                    O homem, velho e cansado, tocava as palavras com lágrimas nos olhos. Odiava-se por ter abandonado a família, embora tivesse sido forçado a tal. Não entendia como as pessoas eram tão cruéis. Não havia nada de errado em uma menininha ter um amigo imaginário, tinha?
                    Suspirando, dobrou a carta com todo o cuidado possível, pousando-a na mesa à sua frente. Pela primeira vez em meia hora, ficou o jovem sentado à sua frente, que conservava uma expressão inquieta. Parecia ansioso para contar algo. O velho não se abalou.
                    — Por que não me mostraram isso antes?
                    Sua voz saiu como um sussurro ferido. Tanto tempo havia se passado...
                    — Porque só a encontramos agora. Sentimos muito pelo que fizeram à suas filha e esposa, e procuramos tudo delas, como o senhor pediu. A casa foi queimada. Só encontramos o corpo da garota por acaso. E a carta... bem, não estava ali. Apareceu hoje.
                    O velho franziu a testa, mas nada comentou por um tempo. Seu olhar fixou-se novamente na carta.
                    — Ainda não entendo qual é o crime de se ter um amigo imaginário.
                    O jovem mexeu-se, desconfortável, na cadeira.
                    — Senhor, procuramos conversar com algumas das pessoas que estiveram presentes quando... quando aconteceu. Muitas delas concordaram em apenas duas coisas: que, ao encontrarem a menina, o terror invadiu seus olhos e ela começou a murmurar palavras ininteligíveis. Pouco depois, começou a gritar. Era um nome. O mesmo que está na carta. Ninguém esperou muito tempo mais para... o senhor sabe. Mas ela parou logo de gritar e sorriu. Disse algo como: “Sabia que me daria mais uma chance”. Bem, a segunda coisa é que, logo após a menina calar-se, todos dizem que sentiram uma brisa estranha. E ouviram o som de papel voando.
                    Não houveram muitos comentários após isso. Algumas horas de conversa, seguida de um acompanhamento até a porta. Agradecimentos. Uma porta fechada, um coração mais leve.
                    Ao voltar para a sala onde estavam a mesa e a carta, notou algo de diferente. As marcas de dedos já notadas, tornaram-se um pouco mais nítidas e a sala ficara mais fria. Assustado, o velho percorreu o olhar no recinto, procurando uma janela que tivesse esquecido aberta, sem obter resultados. Um momento depois, algo gelou seu coração.
                    Uma risada doce, vinda de lugar nenhum, invadiu o pé de seu ouvido. Olhou para os lados, sem encontrar ninguém, ao mesmo tempo em que ouvia uma voz desconhecida.
                    — Ela pediu que lhe entregasse a carta. Sinto muito pelo mal que causei. Ela está bem, e pede que eu lhe diga que ela o ama. Já reli a carta centenas de vezes desde aquele dia. Mas ela está comigo, e bem.
                    Aterrorizado, o velho tentou se comunicar. Aquelas palavras eram confortantes, e foi o seu espírito religioso que o induziu a fazer a pergunta:
                    — Você é um anjo?
                    Outra risada.
                    — Longe disso. Mas também não sou um demônio. Estou no meio.
                    Silêncio. Ar fresco novamente.
                    O homem não sabia o que fazer. Agarrou a carta e a segurou em suas mãos, como se com medo que esta saísse por aí. A carta não se moveu. Ele a abriu e a leu novamente.
                    Talvez ele não fosse mesmo um amigo imaginário.
                    Ela estava bem.

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