Havia a dor. E o sangue. Eu estava sangrando.
Ao olhar para baixo, eu via a mão da fera. Uma mão feia, podre, com garras sujas e afiadas o bastante para cortar minha pele. A mão se aproximava e eu vi quando as garras penetraram facilmente em minha carne, formando um machucado terrível de se ver. Eu também vi quando ela apertou meu coração com força suficiente para esmagá-lo e depois o arrancou bem em frente aos meus olhos. Eu vi o buraco formado em meu peito e o sangue que não parava de escorrer, já formando uma pequena poça aos meus pés.
Eu vi tudo isso. Mas não me importei. Não naquela hora.
Meus olhos foram atraídos para os olhos da criatura. Porque, em contraste com as mãos podres e assustadoras, seu rosto era como o de um anjo. E nos seus olhos verdes e brilhantes, eu podia ver o amor queimando, bradando para mim... Me hipnotizando. A dor não importava. Não havia dor. Só havia os olhos. E o sorriso.
Aquele sorriso que fez todas as sensações voltarem como uma só onda. Um onda gigantesca, um tsunami interno. Minhas mãos tremiam com a vontade de puxá-lo para mim, minhas pernas bambearam só de imaginar seu corpo junto ao meu novamente. Meus olhos se encheram de lágrimas de felicidade com a possibilidade de um futuro próximo tão glorioso quanto o passado remoto, aqueles dias que parecem ter acontecido há anos.
Eu sorri, o sorriso dele aumentou. E ergui meus braços ansiosamente, procurando tocá-lo, e tentar provar.. tentar provar que dois corpos podiam sim ocupar o mesmo espaço. Mas alguma coisa deu errado.
Porque ele se afastou um passo, em equilíbrio com o meu avanço. Tentei novamente; ele se afastou. Meu sorriso vacilou e deu lugar à uma expressão de frustração, creio eu. E ele só fazia sorrir, balançando uma mão ao seu lado, uma mão que pingava sangue.
Arregalei meus olhos, era puro terror. Não fazia sentido. Eu o queria para mim, e sabia que ele me queria de volta. Porque foi o que ele disse.
Oh, ele disse tantas coisas! Lembrava-me como se fosse hoje. As palavras doces, as brincadeiras mergulhadas em malícia, em desejo, a paixão, o amor, o ardor dos encontros secretos no calar da noite. Não eram só palavras, só gestos, eu podia sentir a verdade em tudo isso... não podia?
Meus dedos se fecharam em torno de um pedaço de sua camisa e eu consegui vencer os centímetros que faltavam para ficarmos cara-a-cara. Seu sorriso não havia vacilado e eu entendi isso como uma prova de que ele me queria por perto tanto quanto eu o queria. Havia mais do que apenas faíscas entre nós, eu sabia!
Contudo, quando passei meus braços em torno de seu pescoço e avancei meu rosto em encontro ao dele... ele fez o mesmo que antes. Afastou-se, ainda sorrindo, aquele sorriso que começava a me irritar.
Mais uma vez, tentei beijá-lo, e desta vez ele deixou. Um beijo intenso, mas rápido demais. Quando percebi, ele já havia se afastado o suficiente para que meus braços, cansados com a perda de sangue, não pudessem mais alcançá-lo.
A cena que se seguiu fez meu estômago embrulhar.
Ele ergueu a mão que pingava sangue, e foi quando eu pude ver com clareza meu coração. Pingava sangue, e parecia ainda pulsar levemente; os seus últimos suspiros antes do fim iminente. Doente. Ele aproximou o órgão de sua boca, e foi quando imaginei debilmente que ele fosse comê-lo. Ele esmagou meu coração com apenas uma mão, em uma facilidade tão óbvia que me enojou, forçando-me a desviar os olhos para qualquer outro lugar que não fosse aquela cena.
Dirigi meu olhar, então, ao meu peito destruído. Foi quando a dor me atingiu; rápida e tão intensamente que, mais uma vez, fiquei enojada. Achei que fosse vomitar.
Levei minhas mãos ao buraco em meu peito; estava em carne viva. Sangrava e sangrava. Nem sabia que podia ter tanto sangue. Tentava, em desespero, estancar o líquido vermelho, e percebi que estava chorando ao mesmo tempo em que uma risada soou em meus ouvidos.
Ergui os olhos.
Ele ria. Ria como se estivesse vendo o show mais engraçado de toda sua vida. Ria com gosto, com uma alegria assassina. Pedaços de meu coração destruído pendiam em sua mão, enquanto outros pedaços estavam distribuídos aleatoriamente no chão à sua volta; todos pedaços mortos de um coração que antes batera inundado de amor pela criatura que agora ria sem piedade de minha desgraça.
Os olhos verdes agora possuíam um brilho sinistro. Não eram os olhos que eu amei. Ele era outra coisa. Sua risada ecoava naquele espaço vazio a não ser por nós dois e meu coração em pedaços.
Senti algo úmido em minha mão. Lágrimas. Ou seria o sangue? Já não podia mais diferenciar, e também não queria. Que diferença faria? Ele não era o mesmo, estava tudo acabado. Meus soluços faziam meu corpo sacudir com violência, e eu agora só conseguia balbuciar as palavras que eram só o que eu podia pensar “por que isso agora?”.
Ele deve ter ouvido. Ou isso, ou sabia ler mentes. Porque aproximou-se de mim. Aproximou-se tanto que eu podia beijá-lo apenas se erguesse minimamente a cabeça. Mas eu não faria isso.
Porque a resposta que ele me deu machucou-me mais do que o fato de ter arrancado meu coração, despedaçado-o e rido enquanto eu chorava. Foi um tiro em meu estômago, e cada sílaba afundava a bala um pouco mais, até que no fim eu pude sentir o outro rasgo que fizera em meu corpo.
Aquela única frase me destruiu e acho que foi o que me matou.
Porque depois de ele ter dito aquilo, afastou-se novamente, rindo-se da mesma forma sinistra de antes. E eu chorei ainda mais, as palavras dele ecoando em minha cabeça, minhas mãos apertando meu peito... ou pelo menos tentando. Porque eu podia sentir a morte se aproximando lentamente de mim. Podia sentir a pena que emanava dela, podia sentir que ela não achava que eu merecia uma morte daquelas. Morrer pelas mãos de quem amava, bela ironia.
Quando a Morte chegou, eu aceitei sua chegada. Não tinha mais forças para ficar ali, de qualquer jeito. E a última coisa que me lembro é de estar sangrando, de estar machucada. De ouvir as palavras que me mataram, ecoando em minha mente, para sempre.
Porque nunca foi verdade.
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